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A vingança do Gato

Paulo Lima, o “Galo de Luta”, se vê ameaçado por uma vultosa multa cobrada pela prefeitura da capital

A vingança do Gato
A vingança do Gato
Punição. A prefeitura paulistana cobra 630 mil reais do ativista pelos danos à estátua de Borba Gato durante os protestos em julho de 2021 – Imagem: Luca Meola
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Caía uma chuva fina e constante quando Paulo Lima chegou à praça onde está localizada a estátua do bandeirante Borba Gato, no bairro de Santo Amaro, na capital paulista, para relembrar um ato político realizado há cinco anos. Conhecido por ser um dos protagonistas do movimento dos Entregadores Antifascistas e do Breque dos Apps, a vida do ­motoboy mudou completamente depois daquele sábado, 21 de julho de 2021, quando dezenas de manifestantes atearam fogo no gigante de pedra, símbolo da colonização paulista. “São Paulo não é formada só pela elite, também tem trabalhadores pobres, negros, indígenas. Se essa estátua é orgulho para uns, pode ser ofensiva para outros. Nós abrimos esse debate”, avalia o ativista, conhecido como Galo de Luta.

A responsabilidade do ato, que danificou parcialmente a estátua, recaiu sobre Galo. Ele passou duas semanas preso e respondeu a um processo criminal, hoje transitado em julgado. Anos mais tarde, a prefeitura de São Paulo acionou a Justiça para submeter o entregador a uma cobrança de 630 mil reais, divididos em 30 mil para limpeza, 100 mil para restauro e 500 mil por “danos morais coletivos”. O advogado do ativista, Pedro Teixeira, alega que não foi apresentado um cálculo detalhado dessa cifra. “São valores estimados, mas sem nenhuma prova de que o município gastou esse montante no restauro.”

A dívida, avalia o advogado, representa “uma morte financeira” para Galo, pois o cliente não poderá mais ter contas bancárias e acesso a crédito. Não é tudo. Até agora, o motoboy teve o direito à justiça gratuita negado duas vezes. Primeiro, pela juíza Juliana Brescansin ­Demarchi Molina, da 7ª Vara da Fazenda Pública, em dezembro, e agora pelo desembargador Sidney Romano dos Reis, do Tribunal de Justiça de São Paulo.

Seria a “morte financeira” do cliente, diz o advogado do entregador

A defesa recorreu, e em 3 de março o magistrado determinou a apresentação, em cinco dias úteis, dos extratos bancários e de cartões de crédito, declaração do Imposto de Renda de 2024 e dos últimos três holerites, sob quebra de sigilo fiscal e bancário. Para o advogado, são informações delicadas e, sem o sigilo, podem dificultar o processo. “A justiça gratuita, nos termos do Código de Processo Civil, da jurisprudência consolidada de todos os tribunais, não demanda comprovação da condição, demanda só uma declaração assinada, juntada aos autos.” Caso permaneça o entendimento jurídico de que o motoboy não terá direito à justiça gratuita, ele será obrigado a cobrir as custas do processo, além da condenação financeira.

Como a ação foi aberta às vésperas do período eleitoral de 2024, em 9 de agosto, Galo acredita que o prefeito Ricardo Nunes tinha motivações políticas. “Foi uma manobra oportunista para acenar para a extrema-direita. Se você processa um motoboy em 630 mil reais, não espera receber, né?”, ironiza. O advogado acredita que até agora o processo correu de forma a condenar o entregador, mas, se for necessário, a causa será levada ao Supremo Tribunal Federal, garante.

A esposa de Galo, Géssica Barbosa, não participou da manifestação, mas nem por isso saiu ilesa. Ela recorda daquele sábado. Ficou em casa para cuidar da filha do casal, à época com 2 anos. Só no fim do dia viu as notícias sobre o ato, e compartilhou uma postagem de um jornal em suas redes sociais. Isso, e o fato de o chip do celular do marido estar registrado no nome dela, foram os argumentos para a articuladora social também ser presa.

Revolta. Os manifestantes não pouparam a homenagem ao bandeirante – Imagem: Redes Sociais

Depois de prestar depoimento na delegacia de Santo Amaro, começou uma sequência de humilhações, relembra. “O pior momento foi quando me obrigaram a ficar despida, é uma situação degradante, e eu não tinha feito nada.” Ao ser transferida para outra delegacia, onde ficou detida por “dois dias e duas noites”, foi tratada com violência por um carcereiro. “Ele repetia ‘tem que se foder mesmo. Não tenho pena desses vagabundos não’.”

Quando chegou na cela, as outras detentas estavam curiosas para conhecer a mulher que “colocou fogo em um prédio”. “Eu expliquei o motivo do ato contra o Borba Gato, tudo o que ele representa, e as companheiras de cela entenderam e me acolheram.” O juiz e bandeirante Manuel de Borba Gato é reconhecido por ter descoberto ouro em Minas Gerais e comandado diversas expedições, as entradas. No meio do caminho, “explorou, estuprou e assassinou indígenas e negros”, critica Galo. “Essa parte da história também precisa ser lembrada.”

Depois desse episódio, Géssica Barbosa passou a desenvolver um projeto de saúde mental nas periferias. Todos os meses, realiza encontros com as vizinhas da comunidade, na Zona Oeste de São Paulo, para conversar sobre o adoe­cimento que ela atribui à “negligência e traumas”. Com frequência, visita outras periferias para fazer palestras em escolas e centros comunitários, e participa de atividades com estudantes e professores da Universidade de São Paulo.

A vida do casal ficou, no entanto, mais difícil. Galo foi bloqueado de todos os aplicativos de entrega, e só consegue trabalhar como motoboy particular, por indicação de amigos. Com menos demanda, a renda familiar caiu drasticamente, e hoje eles recebem um auxílio mensal de militantes que organizam uma espécie de “vaquinha ­online”. A esposa, por sua vez, “faz de tudo um pouco”. Trabalha como cozinheira, costureira, e outros “bicos”. “Eu queria ser o Jay-Z, mas nasci numa rua de lama, num bairro pobre. Como eu ia ser artista? A vida me empurrou para a atividade política”, afirma Galo. Apesar das dificuldades, o motoboy conseguiu inserir-se na cena do rap paulistano, e com frequência é convidado para participações especiais em shows e até em apresentações dos Racionais MC’s. “O rap me trouxe consciência social, a minha realidade fez eu me mobilizar.”

O ativista não consegue mais trabalhar para os aplicativos de entrega

Mesmo com inúmeros convites para ingressar em diferentes partidos, o motoboy prefere manter independência. Segundo ele, a organização dos entregadores é autônoma e as demandas surgem de forma espontânea. Além disso, acredita que as agremiações partidárias de esquerda “se perderam no campo institucional e no debate eleitoral”. A luta por direitos é mais complexa, acredita. “O trabalho, lá nos anos 1940, quando surgiu a CLT, era sólido. Com o neoliberalismo, passou a ser líquido, e hoje estamos na fase do trabalho gasoso”, analisa.

“O debate também é gasoso”, continua. Ou seja, não há uma organização consolidada porque a atividade é instável. “O motoboy que está na luta hoje não é o mesmo de amanhã.” Segundo Galo, a consciência social desses trabalhadores é mais profunda do que se imagina, e a ideia de “empreendedorismo” é “uma coisa vinda da academia, pois aqui na base ninguém se acha empreendedor”. A possibilidade de ter flexibilidade nos horários é o principal atrativo para quem se arrisca diariamente sobre duas rodas no trânsito da maior cidade da América Latina.

Nesses últimos anos, Lima esteve duas vezes em Londres, na Inglaterra, para organizar os motoboys brasileiros que vivem lá, 80% da categoria no Reino Unido, segundo ele. Passou a estudar o movimento grevista desses trabalhadores em diversos países da Europa, e a fazer articulações na América Latina. Por meio de um coletivo, mantém o Jornal Correria, cuja proposta é desenvolver uma espécie de “enquete operária”, inspirada em Karl Marx, para fazer “um raio X do pensamento dos trabalhadores e propor a luta”.

Só a agenda trabalhista não é suficiente para mobilizar os trabalhadores. Por isso, Lima passou a se articular conforme a demanda dos territórios. “Hoje estamos ligados aos indígenas do Pico do Jaraguá, na luta antirracista, na pauta ambiental. São preocupações que também atravessam os entregadores.” A solidariedade é outra característica. “Mesmo que a nossa escala de trabalho seja 7×0, somos solidários à luta pelo fim da escala 6×1. Neste momento também abrimos o debate sobre a violência contra a mulher.”

Para a esposa de Galo, a reação do Poder Público ao ataque contra a estátua tem sido desproporcional. “Valorizam muito mais um homem de pedra do que a vida de um trabalhador. Isso mostra por que é importante se mobilizar.” E completa: “Meu único arrependimento é não ter processado o Estado”.

Em nota, a prefeitura alegou que “a Procuradoria-Geral do Município de São Paulo ajuizou ação visando à recomposição do patrimônio público, com a cobrança dos valores gastos na limpeza da estátua e do montante estimado para seu futuro restauro. Também foi pleiteada indenização por danos morais coletivos, em razão dos prejuízos causados a bem integrante do patrimônio cultural da cidade”. •

Publicado na edição n° 1404 de CartaCapital, em 18 de março de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A vingança do Gato’

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