Arthur Chioro

Ex-ministro da Saúde

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Rede que cuida

O Mutirão da Saúde das Mulheres, no próximo dia 21, mobilizará hospitais universitários federais, Santas Casas e hospitais estaduais e municipais

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Lula (PT) na inauguração do Centro de Emergência Regional do Hospital Federal Cardoso Fontes, em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio. Foto: Ricardo Stuckert/PR
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Reduzir filas para consultas especializadas, exames e cirurgias é um grande desafio para o SUS. O diagnóstico é conhecido: demanda crescente, envelhecimento populacional, novas tecnologias, má distribuição de especialistas, subfinanciamento da saúde e desigualdades regionais.

Em 2023, o governo federal priorizou a política de atenção especializada, visando ampliar o acesso e diminuir o tempo de espera. Reorganizou processos de trabalho e passou a utilizar, de forma mais racional, a capacidade instalada do SUS.

Uma das expressões mais potentes dessa capacidade é a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh). Vinculada ao Ministério da Educação, a estatal administra 45 hospitais universitários federais. É uma rede singular que presta assistência de média e alta complexidade para milhões de brasileiros – 100% destinada ao SUS –, forma profissionais de saúde e produz conhecimento científico.

Nos últimos anos, essa rede foi reestruturada e passou a desempenhar um papel ainda mais estratégico, promovendo mobilização nacional para ampliar acesso e reduzir o tempo de espera por procedimentos especializados. O resultado é um movimento que combina organização da gestão hospitalar e do fluxo assistencial, ampliação da capacidade, qualificação da gestão das filas e mobilização coletiva de profissionais, docentes, residentes e estudantes.

Processos de regulação e planejamento cirúrgico foram aprimorados, reduzindo cancelamentos e melhorando o uso das salas operatórias. Muitos hospitais universitários incorporaram terceiros turnos e jornadas cirúrgicas aos sábados, aumentando a capacidade de atendimento.

Entre 2022 e 2025, a produção nos hospitais universitários cresceu expressivamente: cirurgias aumentaram 29%, consultas 22% e internações 24%. Apenas em 2025, foram realizadas 532 mil cirurgias e 7,3 milhões de consultas. Exames de imagem cresceram 23%, superando 1,4 milhão de procedimentos.

A face mais visível desse movimento são os três grandes mutirões realizados em 2025, chamados de “Dia E”, em que todos os hospitais universitários realizaram simultaneamente cirurgias, consultas, exames e procedimentos. Na primeira edição, foram realizados perto de 12 mil procedimentos; na segunda, mais de 34 mil; na terceira, realizada em dezembro, houve 54 mil procedimentos em um dia.

Esse esforço se integra ao Programa Agora Tem Especialistas. A articulação entre os Ministérios da Saúde e da Educação, por meio da Ebserh, demonstra que políticas públicas ganham força quando diferentes instituições trabalham em sinergia.

Trata-se de uma experiência concreta de cooperação federativa e institucional que responde às demandas reais da população, e a partir da qual a formação dos futuros especialistas acontece no próprio processo de cuidado, conectando ensino e prática assistencial.

No ano passado, foram realizados ainda mais de 500 mutirões nos hospitais da rede, voltados às necessidades específicas da população e às realidades regionais, como mutirões para povos indígenas, comunidades quilombolas, prevenção do câncer e saúde neonatal.

Um novo capítulo vem aí: o “Mutirão da Saúde das Mulheres”, que será realizado no dia 21 de março, reunindo hospitais universitários federais, Santas Casas e hospitais estaduais e municipais, ampliando ainda mais o alcance da ação.

A prioridade é clara: ampliar o acesso a exames, diagnósticos e cirurgias voltados à saúde da mulher, enfrentar desigualdades no acesso ao cuidado e garantir que mulheres em todo o País possam receber atendimento oportuno e de qualidade. Essa mobilização reafirma uma convicção fundamental: o SUS é mais forte quando funciona em rede.

A Ebserh demonstra que é possível ampliar o acesso, reduzir filas e qualificar o cuidado sem renunciar aos princípios da universalidade e da equidade. Mostra também que a saúde pública brasileira não é apenas um sistema de atendimento, mas um projeto civilizatório que forma profissionais, produz ciência e transforma vidas.

Em tempos de tantas disputas sobre o papel do Estado, vale lembrar que, quando o Poder Público organiza capacidades existentes e mobiliza pessoas e instituições em torno do bem comum, o resultado aparece. E aparece onde mais importa: na vida de quem espera, muitas vezes há meses ou anos, por um atendimento que pode mudar o seu destino. •

Publicado na edição n° 1404 de CartaCapital, em 18 de março de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Rede que cuida’

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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