Renato Meirelles

Comunicólogo, presidente do Instituto Locomotiva e fundador do Data Favela, autor de 'Um País Chamado Favela' e 'Como Ser Uma Empresa Antirracista'

Opinião

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Lula: líder, mas sem paz

A força eleitoral do presidente convive com um desejo relevante de mudança

Lula: líder, mas sem paz
Lula: líder, mas sem paz
Brasília (DF), 02/02/2026 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participa da abertura do Ano Judiciário de 2026 do Supremo Tribunal Federal (STF). Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
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A pesquisa Meio/Ideia de março traz um retrato incômodo para quem torce por respostas simples. Lula lidera, segue competitivo e continua como o nome mais forte do campo governista. Mas isso não significa que tenha convencido o País de que sua permanência é a escolha natural. Ao contrário. A força eleitoral do presidente convive com um desejo relevante de mudança. E exatamente dessa tensão nasce o paradoxo do momento.

O dado mais importante da pesquisa não é apenas a intenção de voto. É o fato de que 50,6% dizem que Lula não merece continuar, contra 46,7% que defendem sua permanência. Em paralelo, a maneira como ele exerce a Presidência é desaprovada por 50,5% e aprovada por 47,2%. Isso não desenha um governo derrotado. Mas desenha, sim, um governo em disputa, que não conseguiu transformar a condição de incumbente em sensação majoritária de recondução.

Ainda assim, Lula continua à frente. Na espontânea, aparece com 33,4%, enquanto Flávio Bolsonaro marca 18,5%. Num eventual segundo turno entre os dois, Lula tem 47,4% contra 45,3% do adversário. O retrato é claro: o presidente segue na dianteira, mas sem margem para soberba. Está na frente, mas não está folgado. É favorito, mas não está protegido.

O que explica isso? A primeira resposta é que o eleitorado não julga governo pela planilha de Brasília. Julga pela vida real. O Locomotiva tem mostrado isso há bastante tempo. Quando a conversa sai da abstração e entra no cotidiano, o julgamento político passa pela feira, pelo medo de sair à noite, pela fila do atendimento e pelo aperto para fechar o mês. O eleitor não mora no dado macroeconômico. Mora no boleto.

É aí que os sinais de alerta aparecem com força. A pesquisa mostra que a segurança pública é hoje a área mais mal avaliada do governo, com 54,3% de ruim ou péssimo. Saúde também aparece como ponto de pressão, com 41,5% de avaliação negativa nessa dimensão. Esses números permitem entender por que a melhora de ambiente econômico, sozinha, não reorganiza o humor do eleitor. Quando a sensação de desordem continua alta, a reeleição deixa de ser um prêmio natural e vira uma prova oral diante do País.

Existe, porém, um lado positivo para Lula que não pode ser subestimado. Mesmo sob desgaste, ele preserva densidade eleitoral. Continua a ser o nome mais presente na memória do eleitor e o polo mais robusto do seu campo. Além disso, a oposição ainda não encontrou um caminho de unificação fora do sobrenome Bolsonaro. Isso é decisivo. Porque o presidente não enfrenta uma alternativa ampla, nova e consensual. Enfrenta um adversário competitivo, mas carregado de rejeição e de memórias intensas.

A pesquisa mostra ainda que a disputa deixou de ser apenas partidária. Ela ganhou um componente institucional muito forte. Entre quem conhece o caso Master, 70% dizem que o STF perdeu credibilidade. E 44% afirmam que teriam mais chance de votar para o Senado em alguém que defendesse o ­impeachment de ministro do Supremo. Some-se a isso o fato de que 54% dizem não acreditar que Jair Bolsonaro tenha planejado um golpe. O resultado é um ambiente no qual o discurso antissistema ganha oxigênio, e isso tende a favorecer a oposição.

Esse talvez seja o ponto mais sensível para Lula. Se a eleição fosse apenas comparação entre biografias, experiência e memória social, ele entraria com mais conforto. Mas a pesquisa sugere outra coisa: há um pedaço importante do eleitorado querendo menos debate ideológico e mais demonstração de comando, ordem e capacidade de fazer a vida voltar a caber dentro do dia. Quando a campanha passa a ser lida por essa régua, a vantagem de quem governa diminui, pois o governo responde pelo que prometeu e pelo que ainda não entregou na percepção dos eleitores.

Minha conclusão é que Lula chega forte, mas vigiado. Tem ativo eleitoral, tem recall, tem base social e segue plenamente no jogo. Mas carrega um problema que não pode ser maquiado: sua liderança ainda não virou tranquilidade. A reeleição é possível, e até plausível. Só não será um passeio.

O erro do campo governista seria achar que estar na frente basta. Não basta. E o erro da oposição seria imaginar que o desgaste de Lula, por si só, entrega a eleição. Também não entrega. O que a pesquisa mostra é um país que ainda reconhece em Lula estatura competitiva, mas que continua cobrando uma resposta mais convincente para a vida concreta. Em 2026, não vence apenas quem tiver mais estrutura partidária ou mais barulho de militância. Vence quem parecer mais capaz de organizar o cotidiano de um Brasil cansado de promessas e com pressa de alívio. •

Publicado na edição n° 1404 de CartaCapital, em 18 de março de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Lula: líder, mas sem paz’

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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