

Opinião
Violência em ondas
A brigalhada entre Cruzeiro e Atlético Mineiro é um vexame para todos os envolvidos: dirigentes, jogadores e público em geral
As alegrias e tristezas do final dos campeonatos estaduais acabaram ofuscadas pelo degradante “desespetáculo” da brigalhada perpetrada pelos jogadores dos dois clubes que fecharam o Campeonato Mineiro no domingo 8 de março.
A briga envolvendo jogadores no clássico entre Cruzeiro e Atlético, no gramado do Mineirão, em duelo válido pela final do Campeonato Mineiro, terminou com 23 atletas expulsos.
O que se pode aproveitar daquele completo desacerto é parar para pensar que isso poderia acontecer em qualquer lugar do futebol brasileiro neste momento de tensão elevada, presente no dia a dia das pessoas e, sem dúvida, agravada pelas guerras que se desenrolam no mundo.
Imagine-se o que passa a gente submetida a esses horrores se, por aqui, a grandes distâncias dos focos em conflito, não podemos ter paz, perturbados pelo bombardeio de notícias e imagens dos recursos atuais de comunicação.
Pior ainda é pensar nas consequências da irracionalidade disso tudo depois que os “senhores das guerras” são obrigados a sentar à mesa e declarar cessar-fogo, como se nada houvesse passado. É a pura barbárie.
Nesse contexto, foi muito lúcido o comentário do excelente jornalista Carlos Eduardo Mansur, estabelecendo a relação dos torcedores ao acompanhar, com a força das suas emoções, a explosão dos acontecimentos dentro do campo.
Mansur classificou a cena como uma “arena romana”, um “ambiente tóxico e um ecossistema degradado”.
Ele chamou a atenção também para o despreparo da segurança privada, incapaz de conter as ondas de violência desencadeadas até a chegada da Polícia Militar com seus recursos.
Ressalto ainda o alcance desses acontecimentos e a responsabilidade de todos os envolvidos: dos promotores dos eventos (autoridades e dirigentes) aos jogadores e ao público em geral, todos inseridos nesse clima instalado.
Por outro lado, é fundamental destacar a atuação responsável de alguns jogadores mais conscientes.
Pude ver, ainda no auge da briga, Gustavo Scarpa, do Atlético, tentando conter alguns beligerantes e Dudu, também do Galo, apenas se retirando do meio daquela insanidade. Soube, depois, de outros nomes que também tiveram postura correta no meio da confusão.
Outra mostra da fragilidade das relações estabelecidas continua sendo a instabilidade dos jogadores, que correm aos montes para cima da arbitragem depois de qualquer marcação, por mais insignificante que seja.
A tolerância dos juízes, por sua vez, demonstra a mesma insegurança por parte dos responsáveis pelas marcações. Mais uma vez, faz-se notar a ausência de legítimos representantes dos jogadores nas manifestações de análise das ocorrências das quais fazem parte.
Os atletas devem ter uma representação sólida em, rigorosamente, todas as instâncias, com líderes escolhidos pelos próprios jogadores, não pela “cartolagem”.
Passados os festejos das taças conquistadas nos estaduais por Palmeiras, Flamengo, Grêmio, Cruzeiro e Bahia (esse último na Série A, vencendo o Baiano com torcida única), e superados os traumas dos perdedores, a vida segue em frente – não só no futebol, como em todos os demais esportes.
João Fonseca continua crescendo no tênis e o destaque da semana ficou mesmo por conta de Cristian Ribera, ao conquistar a medalha de prata, a primeira do Brasil em Jogos Paralímpicos de Inverno.
No futebol doméstico, seguem as movimentações às vezes incompreensíveis de mudanças na direção técnica.
No Rio, o Flamengo acabou premiado ao vencer nos pênaltis com atuação brilhante do excelente goleiro argentino Agustín Rossi, apesar da campanha superior do Fluminense, que cedeu a maioria dos escolhidos para a seleção do campeonato.
No Velho Continente, enquanto aumenta a expectativa pela Copa do Mundo, a Champions League chega à sua fase decisiva de mata-mata. •
Publicado na edição n° 1404 de CartaCapital, em 18 de março de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Violência em ondas’
Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
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