Josué Medeiros

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Cientista político e professor da UFRJ e do PPGCS da UFRRJ. Coordena o Observatório Político e Eleitoral (OPEL) e o Núcleo de Estudos sobre a Democracia Brasileira (NUDEB)

Opinião

As boas e más notícias para Lula na chuva de pesquisas de março

Levantamentos de Datafolha, Ideia e Quaest indicam base eleitoral firme para o presidente, mas também um mau humor econômico que exige disputa ativa

As boas e más notícias para Lula na chuva de pesquisas de março
As boas e más notícias para Lula na chuva de pesquisas de março
O presidente Lula (PT) durante coletiva de imprensa em Nova Delhi, na Índia. Créditos: Ricardo Stuckert / PR
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Eleições 2026

Uma chuva de pesquisas sobre as eleições presidenciais caiu neste mês de março. O Datafolha divulgou levantamentos nos dias 8 e 9; Ideia e Quaest publicaram seus números em 11 de março. A partir desses resultados, parte da cobertura da grande mídia tem buscado cristalizar interpretações negativas para Lula e positivas para a direita, tanto para Flávio Bolsonaro quanto para as chamadas terceiras vias.

Mas o que a análise dos dados mostra é a confirmação da polarização, com Lula mostrando força em meio às tempestades que são típicas da pré-campanha.

Antes dos números, é importante reforçar que a corrida eleitoral presidencial é como um campeonato de futebol de pontos corridos, com muitas rodadas a serem jogadas. Nessa maratona, é normal que um time sofra gols e derrotas e viva fases piores. O que não se pode é concluir que um eventual momento ruim seja a tendência de futuro.

Chegando aos números, os institutos convergem para um cenário polarizado. Isso aparece na avaliação de Lula, com empate técnico na avaliação positiva e negativa.

Datafolha – Aprovação de Lula

Aprova: 47% — era 49% em dezembro de 2025
Desaprova: 49% — era 48% em dezembro de 2025

Ideia – Aprovação de Lula

Aprova: 47,2% — era 46,6% em fevereiro de 2026
Desaprova: 50,5% — era 51,4% em fevereiro de 2026

Quaest – Aprovação de Lula

Aprova: 44% — era 45% em fevereiro de 2026
Desaprova: 51% — era 49% em fevereiro de 2026

A polarização é reafirmada nos três institutos com as intenções de voto espontâneas, que são um indicador mais consistente da força eleitoral dos candidatos neste momento em que as pessoas ainda não estão pensando em eleições. Lula e Flávio Bolsonaro lideram, e nenhum outro candidato pontua de modo expressivo. A única figura que ainda aparece é Jair Bolsonaro, o que mais uma vez confirma a polarização.

Datafolha – Espontânea

Lula: 25% — era 24% em dezembro de 2025
Flávio: 12% — não apareceu em dezembro de 2025
Jair: 3% — era 7% em dezembro de 2025

Ideia – Espontânea

Lula: 33,4% — era 33% em fevereiro de 2026
Flávio: 18,5% — era 16,3% em fevereiro de 2026
Jair: 7% — era 8% em fevereiro de 2026

Quaest – Espontânea

Lula: 19% — era 18% em fevereiro de 2026
Flávio: 10% — era 10% em fevereiro de 2026

Também no indicador que mede a rejeição, a polarização dá o tom no Datafolha, Ideia e Quaest, com empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro.

Datafolha – Rejeição

Lula: 46%
Flávio: 45%

Ideia – Rejeição

Lula: 46,4%
Flávio: 42,6%

Quaest – Rejeição

Lula: 56%
Flávio: 55%

Os cenários de 1º turno e 2º turno testados pelos institutos vão na mesma direção: no 1º turno, Lula lidera em todos, seguido por Flávio, com uma distância que varia de 7% a 1%, enquanto no 2º turno as simulações apontam para empate técnico.

Nesta chuva de números, é possível extrair notícias boas e ruins para a reeleição de Lula, entendida aqui como a candidatura da frente ampla democrática capaz de derrotar o autoritarismo dos Bolsonaro nas urnas em 2026.

A primeira boa notícia veio do Datafolha, que perguntou sobre o arrependimento do voto: 90% dos entrevistados não se arrependem do voto em 2022. Entre os eleitores de Lula, são 91% que não se arrependem. Isso significa que, no cenário polarizado contra os Bolsonaro, Lula tem condições de repetir o cenário da última eleição e vencer. Outra boa notícia está nas intenções espontâneas, em que Lula confirma um voto consolidado.

A má notícia para Lula é o mau humor do eleitorado com a economia, que é algo comum no começo de ano, quando as pessoas precisam pagar impostos como o IPVA e o IPTU, convivem com aumento nas mensalidades e materiais escolares, além de um aperto de contas devido aos gastos de final de ano.

Ideia – Mau humor com a economia

A economia piorou para 44,1% — eram 41% em fevereiro de 2026
Ficou do mesmo jeito para 20,9% — eram 22% em fevereiro de 2026
A economia melhorou para 32,3% — eram 35% em fevereiro de 2026

Quaest – Mau humor com a economia

A economia piorou para 48% — eram 43% em fevereiro de 2026
Ficou do mesmo jeito para 26% — eram 30% em fevereiro de 2026
A economia melhorou para 24% — e continua em 24% em fevereiro de 2026

A tendência, contudo, é que essa percepção se altere até o início da campanha. Por duas razões principais. A primeira é que o governo ainda terá tempo para apresentar resultados e consolidar políticas públicas — algo que historicamente melhora a avaliação de governos no ano eleitoral. A segunda é que, à medida que a disputa se aproxima, os eleitores passam a relacionar mais diretamente as políticas do governo com o candidato à reeleição. Esse movimento costuma elevar as intenções de voto de presidentes que buscam um novo mandato.

Isso não significa, porém, que o cenário se resolverá automaticamente. A força política e comunicacional da ultradireita exige enfrentamento ativo. Se o governo apostar apenas na expectativa de que a melhora da vida cotidiana falará por si, corre o risco de se frustrar.. O exemplo da isenção do IR ilustra bem o problema. Na Quaest, apenas 31% declaram que foram beneficiados pela medida. Sem que o governo faça a disputa política, as pessoas beneficiadas ficam restritas ao terço do eleitorado que se identifica com a esquerda.

Nos próximos meses, as esquerdas têm a oportunidade de promover essa mobilização a partir de pautas estratégicas como o fim da escala 6×1 e o pacto contra o feminicídio — tema fundamental para que Lula repita o desempenho de 2022 no voto feminino, decisivo para a vitória eleitoral.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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