Saúde

Mpox não é crise nacional, mas exige reforço na vacinação de grupos prioritários

Com 140 casos confirmados em 2026, o País monitora o avanço da doença; priorização não tem a ver com comportamento ou orientação sexual, destaca especialista

Mpox não é crise nacional, mas exige reforço na vacinação de grupos prioritários
Mpox não é crise nacional, mas exige reforço na vacinação de grupos prioritários
Um paciente mostra a mão com uma ferida causada por uma infecção pelo vírus da mpox, na área de isolamento para pacientes com a doença no hospital Arzobispo Loayza, em Lima, Peru. Foto: Ernesto BENAVIDES / AFP
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O Brasil acumula 140 casos confirmados de Mpox em 2026, além de nove prováveis, segundo dados do Ministério da Saúde. Não há registro de mortes.

No recorte por estados, São Paulo concentra a maioria dos casos confirmados e suspeitos (93), seguido por Rio de Janeiro (18), Minas Gerais (11) e Rondônia (11). Nenhum outro chega a quatro casos.

Embora os diagnósticos tenham voltado a crescer desde dezembro, o cenário não configura um alerta nacional, avalia a infectologista Maria Felipe Medeiros.

Medeiros relaciona o cenário à nova cepa da doença identificada em 2025 pela Organização Mundial da Saúde no Reino Unido e na Índia e, posteriormente, confirmada no Brasil. “Essa doença tem um fator migratório importante, o que explica a maior concentração de casos em São Paulo, polo em que as pessoas mais chegam”, explica.

A infectologista também não identifica risco de repetir o surto verificado em 2022, ano em que o País contabilizou 11.180 casos e 17 mortes. Ela adverte, porém, para a necessidade de garantir doses de vacina suficientes para as pessoas com maior risco de contrair formas graves da doença, a fim de também reduzir a transmissão.

A vacinação e os perigos da estigmatização

O Ministério da Saúde definiu os grupos prioritários para vacinação antes da exposição à doença: pessoas vivendo com HIV, usuários de PrEP (profilaxia pré-exposição) e profissionais de laboratório que trabalham diretamente com o orthopoxvírus. No caso de exposição ao vírus, a imunização também é indicada para quem teve contato direto com fluidos ou secreções corporais de pessoas suspeitas, prováveis ou confirmadas para Mpox, quando a exposição é classificada como de alto ou médio risco.

O grupo de pessoas vivendo com HIV priorizado na vacinação inclui homens cisgêneros, travestis e mulheres transexuais com 18 anos ou mais e com status imunológico caracterizado por contagem de linfócitos T CD4 inferior a 200 células nos últimos seis meses.

Apesar da estratégia definida pelo ministério, Medeiros aponta lacunas na vacinação. “Não há vacina suficiente para todo mundo, então poucas pessoas conseguem se imunizar.”

Dados da pasta mostram que 33,6%% dos casos de Mpox ocorreram em coinfecção com o HIV e 20,9% com infecções sexualmente transmissíveis, as ISTs.

A infectologista ressalta, ainda, que a prioridade para pessoas vivendo com HIV ou que utilizam PreP não tem relação com comportamento ou orientação sexual, mas com o maior risco de desenvolver quadros graves da doença.

Qualquer pessoa pode contrair Mpox, não apenas esse grupo”, esclarece. “Uma pessoa com IST provavelmente não utilizou métodos de prevenção, e sabemos que essas infecções geralmente não aparecem isoladas. Se não há prevenção em uma situação, muitas vezes não há em outras.”

Em nota, o Ministério da Saúde afirmou não haver situação de crise e garantiu que o Sistema Único de Saúde está preparado para diagnosticar, tratar e monitorar os casos. A pasta disse manter vigilância ativa e não descartou adotar novas medidas, se necessário. “Não há, neste momento, indicação de vacinação em massa”, informou.

Transmissão, sintomas e tratamento

A Mpox é uma doença zoonótica viral transmitida a humanos pelo contato com pessoas infectadas, materiais contaminados ou animais silvestres, especialmente roedores.

Entre os sintomas mais comuns estão febre, dor de cabeça, dores no corpo, calafrios, fraqueza, lesões ou erupções na pele e linfonodos inchados (ínguas).

O diagnóstico é feito principalmente com base na avaliação clínica. Diante de sintomas, sobretudo lesões na pele, a recomendação é procurar atendimento médico, afirma Medeiros.

O período de incubação (intervalo entre o contato com o vírus e o início dos sintomas) costuma variar de 3 a 16 dias, podendo chegar a 21 dias.

Em caso de erupções cutâneas, o isolamento do paciente é recomendado, já que a transmissão só cessa após o desaparecimento das feridas.

A principal forma de contágio ocorre pelo contato direto com a pessoa infectada, especialmente com lesões de pele, fluidos corporais (como pus ou sangue das lesões) ou secreções respiratórias em exposição próxima e prolongada. Lesões na boca também podem transmitir o vírus por meio da saliva.

A infecção também pode ocorrer pelo contato com objetos contaminados, como roupas, toalhas, roupas de cama e utensílios.

O tratamento consiste em medidas de suporte clínico para aliviar sintomas, prevenir complicações e evitar sequelas. A maioria dos casos apresenta evolução leve ou moderada. Até o momento, não há medicamento aprovado especificamente para combater a doença.

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