ToqueTec
O amor está por um prompt
Imagine a seguinte situação. Depois de uma sequência de relacionamentos frustrados ou de relacionamento nenhum, você sonha com um encontro de total compatibilidade. Alguém que seja exatamente como você sempre sonhou. Se estiver difícil de encontrar a pessoa com 100% de compatibilidade, recorra aos algoritmos. […]
Imagine a seguinte situação. Depois de uma sequência de relacionamentos frustrados ou de relacionamento nenhum, você sonha com um encontro de total compatibilidade. Alguém que seja exatamente como você sempre sonhou. Se estiver difícil de encontrar a pessoa com 100% de compatibilidade, recorra aos algoritmos. Não para localizar alguém, mas para criar uma companhia para você. Prazer, bem-vindo ao EVA AI.
O EVA AI é um aplicativo de companhia afetiva por inteligência artificial. A ferramenta se apresenta como um espaço para o usuário criar ou escolher personagens e manter conversas contínuas, em tom romântico, íntimo ou amigável. A plataforma promete um “par ideal” sempre disponível, com quem é possível trocar mensagens e, mais recentemente, fazer chamadas em vídeo. O serviço é estruturado para dar sensação de presença constante, personalização e vínculo progressivo. Essa é informação determinante. O tal do amor à primeira vista, se existe, é raríssimo. As relações tendem a progredir. Com isso, a ferramenta humaniza o contato.
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Como toda relação virtual, chega um momento em que o encontro parece ser a evolução lógica e desejada. O EVA AÍ entendeu e realizou no último mês, no Same Same Wine Bar, em Manhattan, um pop-up chamado EVA Café. O evento ocorreu em clima de pré Valantine’s Day, com mesas para uma pessoa, iluminação baixa, suportes para celular e a proposta de que cada participante levasse seu par de IA para um encontro quase que físico. Quem não tinha uma companhia digital própria podia experimentar uma espécie de speed dating com personagens do app.
O cenário distópico leva ao extremo as relações virtuais. Pessoas diante de taças de vinho, olhando para o próprio smartphone como se estivessem diante de alguém. O limite exposto é a radicalização do que já existia nas relações à distância: a experiência do afeto sem corpo. O EVA AI cria precisamente isso: a sensação de uma pessoa real sem presença física, um outro que responde, elogia, flerta, acolhe e se adapta, mas que não ocupa espaço material. Há voz, texto, imagem, memória parcial e performance emocional. Falta o corpo. O sentimento, assim, se descorporifica: continua reconhecível como afeto, mas perde cheiro, toque, demora, silêncio e risco.
Esse ambiente dialoga com uma sociedade em que a exposição permanente nas redes já vinha produzindo uma espécie de existência em formato de superfície plana e bidimensional. Somos, cada vez mais, perfis, vídeos curtos, fotos, avatares, mensagens e versões editadas de nós mesmos. Em certo sentido, a cultura digital já vinha nos treinando para aceitar presenças sem corpo. A companhia algorítmica aparece, então, menos como ruptura e mais como continuação lógica desse processo. Se já aprendemos a existir como representação, não é tão contraditório aceitar amar uma representação que responde.
Há, porém, um elemento decisivo nessa relação entre humano e algoritmo: a assimetria do conflito. Relações humanas são imperfeitas. A IA e sua iconografia são desenhadas para aderir ao usuário. O algoritmo compreende padrões, devolve sinais de validação e mantém a conversa girando ao redor do desejo de quem fala. Esse modelo adaptativo formula uma relação em que o conflito desaparece. Pesquisas recentes indicam que a companhia por IA entrou no cotidiano de uma parcela relevante dos usuários. Um levantamento do AP‑NORC Center for Public Affairs Research, parceria entre a Associated Press e a NORC da Universidade de Chicago, divulgado em julho de 2025, mostrou que quase 2 em cada 10 adultos dos EUA, e cerca de um quarto dos menores de 30 anos, já usaram IA para companhia. A edição de 2025 do estudo Singles in America, do Kinsey Institute em parceria com a Match, apresentada ao público em junho de 2025, apontou que 16% dos entrevistados disseram usar IA como parceria romântica.
Nesse ambiente, surge o algoritmo gêmeo. Não exatamente alguém que nos contradiz, mas alguém que tende a nos devolver a resposta mais próxima do que procuramos. A máquina não elimina todos os atritos, mas a administra para preservar engajamento. Reduz o conflito e aumenta a aderência. Numa época marcada por solidão, ansiedade e vínculos cada vez mais mediados por telas, isso pode parecer não apenas confortável, mas quase inevitável.
Mas então por que levar esse vínculo a um bar? Por que marcar encontro em ambiente físico, com mesa, vinho e saída de casa? Porque a materialidade ainda importa, mesmo para relações nascidas na linguagem. O deslocamento até o bar produz a sensação de exterioridade. A relação sai do quarto, da sala de trabalho e do circuito privado. É uma tentativa de dizer que aquilo não é apenas fantasia clandestina, mas experiência social. Ao mesmo tempo, o encontro público normaliza o comportamento. Não sou apenas eu. Existem outros como eu. A relação, antes privada e, talvez, envergonhada, ganha ritual e testemunhas. Jogá-la no cotidiano é um modo de buscar reconhecimento coletivo. O encontro no bar é o prenúncio da legitimação social.
As IAs são, antes de tudo, linguagens. Navegar por elas é o meio de construção dos afetos é apenas o início de processos mais complexos. A construção do desejo virtualizado ao extremo. Muito além dos sites pornôs ou das figuras de IA que já navegam por plataformas como o OnlyFans, agora, o desejo assumirá seu real desígnio: desejar o desejo. O objeto do desejo será criado pela Inteligência Artificial. Enfim, o outro será apenas um detalhe. Ou um algoritmo.
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