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‘Hora de Aventura’, psicodelia e a jornada do herói ferido
A série parece apenas um desenho para rir no café da manhã. Até que, de repente, revela camadas mais sombrias e faz o espectador engolir seco
Montanhas de gelo sob céus azul-elétrico. Cogumelos gigantes ao lado de desertos rachados. Grama verde-radioativa. Doces que falam. Magos instáveis. Princesas cientistas. O mundo de Ooo parece um cereal matinal fora de controle.
A série animada Hora de Aventura, criada por Pendleton Ward e exibida pelo Cartoon Network entre 5 de abril de 2010 e 3 de setembro de 2018, ao longo de dez temporadas, nasceu como desenho infantil. Mas o rótulo não basta.
É colorido. É cômico. Funciona às oito da manhã, com café quente e pão na chapa. Você ri, acompanha uma missão absurda, vê um cachorro elástico resolver o mundo no improviso. É leve. É vibrante.
E então, de repente, engasga.
Porque, sob o açúcar, existe ruína.
A Terra de Ooo surge após a chamada Grande Guerra dos Cogumelos — sugestão de colapso nuclear. O fantástico cresce sobre destroços. Finn, talvez o último humano, foi abandonado ainda bebê. Cresce amado e ferido ao mesmo tempo. Não é herói porque é invulnerável — é herói porque é ferido.
Quando tenta se reconectar com o pai que sempre fugiu, perde o braço. No lugar da mutilação nasce uma flor. A dor não é apagada. É transformada.
As paredes da realidade cedem. Redemoinhos de cor. Quebras da quarta parede. Animação tradicional que vira 3D sem aviso. Magia, nonsense e ecos psicanalíticos dissolvidos entre piadas e batalhas. Em Ooo, muitos monstros são também internos. É entretenimento puro — até deixar de ser.
Psicodelia aqui não é só estética. Significa “manifestação da mente”. E mente não é só gargalhada. Existe o outro lado da lua — o escuro — imagem eternizada em The Dark Side of the Moon, do Pink Floyd. A face que não recebe luz direta.
Na psicologia analítica, esse território é chamado de sombra: medo, fragilidade, luto, tudo o que a persona prefere esconder. Trabalhá-la não é cultuar o negativo; é integrar. A experiência psicodélica, entendida como expansão de consciência, ilumina essas áreas. Nem toda viagem é solar. Algumas apertam o peito.
O encerramento, anunciado e conduzido de forma planejada em 2018, não teve motivo oficial ligado a público. Ainda assim, a série habitou um limbo curioso: sofisticada demais para ser apenas infantil, leve demais para ser rotulada como animação adulta. Um desenho entre mundos.
O universo continuou em Hora de Aventura: Terras Distantes e em Hora de Aventura: Fionna e Cake. Esta última assume um tom mais adulto, num mundo alternativo mais urbano e realista, com os gêneros invertidos: Finn vira Fionna; Jake, o cachorro, torna-se Cake, a gata. O conflito é mais direto, menos alegórico.
No Brasil, a série original e seus desdobramentos estão disponíveis na plataforma Max.
No fim das contas, é desenho para rir no café da manhã — e, dependendo do episódio, para engolir seco alguns minutos depois.
No fim, não é só cor vibrando na tela.
É a consciência encarando o próprio subterrâneo.
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