Letícia Cesarino

Antropóloga, professora e pesquisadora na Universidade Federal de Santa Catarina. Autora de 'O Mundo do Avesso: Verdade e Política na Era Digital'

Opinião

Não é só machismo

A realidade da violência contra mulheres é fruto não apenas de uma cultura machista, mas de um novo tipo de radicalização alimentado pelas plataformas digitais

Não é só machismo
Não é só machismo
Ao se entregar na delegacia, o jovem Vitor Hugo Simonin, acusado de participar do estupro coletivo de uma jovem de 17 anos no Rio de Janeiro, usava uma camiseta com os dizeres "regret nothing" (não se arrependa de nada, em inglês) – Foto: Reprodução/Globonews
Apoie Siga-nos no

Nos últimos tempos, os feeds das redes sociais dos brasileiros foram inundados por notícias de violência contra mulheres que assustam pela radicalidade e pela crueldade dos atos — e também pelo grau de desprezo pelas vítimas: Catarina, Tainara, Sarah, Priscila, a adolescente de Copacabana.

Em comentários e matérias sobre essas e outras notícias, alguns termos começam a pipocar: red pill, black pill, machosfera. O que eram especulações e analogias sobre a associação entre crimes da vida real e ecossistemas virtuais ganharam, esta semana, um indício bastante direto.

Estampado na camiseta de um dos criminosos de Copacabana, no momento da prisão, estavam os dizeres regret nothing, ou “não se arrependa de nada”.

Mas do que estamos falando afinal, e por que não se trata mais (apenas) do machismo do tiozão do churrasco?

Há alguns anos, venho me dedicando ao estudo de como plataformas digitais e algoritmos tendem a cristalizs as crises sociais e um de seus efeitos mais perigosos: a radicalização. Os estudos da radicalização e do extremismo formam um campo de pesquisa interdisciplinar bem consolidado internacionalmente há pelo menos quatro décadas, e revisões e relatórios recentes são unânimes em apontar a radicalização misógina como uma das instâncias do fenômeno que mais cresceram no pós-pandemia, junto com outras, como o chamado ‘extremismo violento niilista‘.

O termo machosfera (ou manosphere) refere-se a um vasto ecossistema digital que atravessa praticamente todas as plataformas digitais: redes sociais, streaming de vídeos, jogos online, aplicativos de mensageria. No Brasil e no exterior, sua existência e influência já foram amplamente documentadas por estudos qualitativos e quantitativos. Embora adolescentes e homens jovens sejam o foco principal, a base de recrutamento tem se ampliado: alcança hoje crianças, homens mais velhos e, de forma indireta, até mulheres e meninas.

Nessa narrativa, o feminismo teria subvertido essa ordem ao permitir às mulheres escolher seus parceiros. E elas usariam essa liberdade de forma “errada”, trocando constantemente de parceiros em busca de homens “alfa”. O resultado seria uma equação impossível: todos os demais homens estariam excluídos do chamado mercado sexual. Daí nasce a identidade do “celibatário involuntário”, o incel.

Embora seja associada ao proverbial nerd que mora no porão da mãe, essa ideologia já ocupa canais do mainstream, que chegam a qualquer homem: conteúdos sobre relacionamentos, esportes, saúde, estética, direito, humor e entretenimento, e etc. Ali, ensina-se, de formas mais ou menos sutis, que mulheres são manipuladoras, pouco confiáveis e exploradoras; que suas reivindicações por igualdade vão contra as leis da natureza (e de Deus); que homens têm tido seus direitos naturais usurpados pelo feminismo e pelo “sistema”; e que isso está resultando em uma sociedade fraca e corrupta.

Esse discurso circula com relativa facilidade na chamada internet de superfície — redes sociais, podcasts e YouTube — porque, sob a lógica ainda analógica do direito e sob a complacência das próprias plataformas, dificilmente configura crime direto.

Mas sua gramática já reproduz, ponto por ponto, o que a literatura sobre extremismo descreve como as etapas iniciais de um funil de radicalização.

Na topologia desses ecossistemas digitais, essa camada visível funciona como a base do funil — a ponta do iceberg. Ali, usuários muitas vezes desavisados são conduzidos para “tocas de coelho” através de conteúdos misóginos aparentemente leves, frequentemente embalados em humor, ironia ou provocação. São gêneros que confundem a comunicação, suspendem o senso crítico e favorecem a dessensibilização, abrindo caminho para conteúdos progressivamente mais extremos.

Abaixo da superfície, mas ligados a ela por inúmeros canais digitais, estão os segmentos mais radicais da machosfera: grupos em aplicativos de mensagens, fóruns anônimos, redes pouco moderadas como o X (antigo Twitter) e, cada vez mais, ambientes de jogos online, plataformas de streaming e servidores de voz como Discord ou Twitch. É nesse ambiente que surge o que se convencionou chamar de black pill, um estágio mais avançado da radicalização em que o indivíduo abandona completamente a ideia de relacionamento amoroso. Nesse universo, mulheres são submetidas a níveis extremos de desumanização e objetificação — reduzidas a alvos de violência ou a meros receptáculos da sexualidade masculina. É uma visão tão radical que tem assustado até extremistas clássicos como neonazistas, como relatado pela jornalista investigativa Elle Reeve.

Nesses ambientes, o grau de desprezo é tão extremo que até a própria misoginia deixa de ser sobre as mulheres. O foco passa a ser a relação entre homens: o medo de ser traído ou substituído, a competição permanente entre “alfas” e “betas”, a cumplicidade masculina que legitima a violência coletiva. Em casos ainda mais extremos, a misoginia reverte em misantropia: é a humanidade como um todo que teria degenerado a um ponto irreversível, sendo a única saída o ato de violência extrema contra outros e contra si. Isso conecta a tragédia pessoal ao destino da própria sociedade. Essa é a última — e mais perigosa — etapa da radicalização, que não raro adquire tons religiosos ou espirituais: na postagem feita por Thales Machado antes de matar os dois filhos, ele os chamou de “anjos”.

É no caminho entre a camada de recrutamento red pill e o extremismo black pill que ocorrem as transformações típicas dos funis de radicalização. O ressentimento, a insegurança e a desconfiança se transmutam em afetos empoderadores: raiva, vingança e agressividade. Vítimas (mulheres) se tornam algozes, e eles — os verdadeiros algozes — se tornam vítimas de um “sistema” ao qual estão, em sua visão, sempre reagindo. Daí a negação da responsabilidade e a projeção de culpa em inimigos, também típicas da radicalização. Regret nothing.

Ao mesmo tempo, o vasto mercado de outros coaches que ensinam a “verdade” por trás do comportamento das mulheres – como manipulá-las e como não ser “feito de trouxa” — dá lugar à negação completa da sua palavra, autonomia, direito ao próprio corpo e, em última instância, à própria vida. O consentimento da mulher passa de questão a ser problematizada a simplesmente deixar de ser uma questão.

Em boa parte dos casos de violência que ganharam projeção recente no Brasil, a motivação foi a recusa, reativa ou preemptiva, em aceitar a decisão autônoma da mulher: de terminar o relacionamento, de não iniciar o relacionamento, de recusar o acesso sexual ao seu corpo. O que era brincadeira no online, como na recente trend do Dia Internacional das Mulheres, “treinando para se ela disser não”, materializa-se de forma trágica no offline. O suicídio dos assassinos de Priscila e dos filhos de Sara logo após o crime reflete, ainda, outro padrão comum na radicalização que, se não contida, escala para a violência extrema cometida contra outros, mas também contra si mesmo: o ato final da autoimolação.

Grande parte da literatura associa a radicalização às crises da masculinidade e ao período crucial de sua formação: a adolescência. Mas podemos especular se a radicalização misógina, longe de ser apenas um segmento específico do extremismo ligado a gênero, seria a base que potencializa o problema .Já está claro que estamos diante de um fenômeno novo, diferente do machismo de nossos pais, tios e avós, que exige outra visão e também outros tipos de prevenção, intervenção e responsabilização.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

ENTENDA MAIS SOBRE: , , , , , , , , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.

O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.

Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.

Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.

Quero apoiar

Leia também

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo