Mundo

Geração Z: Um terço dos homens acha que esposa deve obedecer

Jovens são os mais conservadores ao redor do mundo, segundo estudo global que marca o Dia Internacional da Mulher. Mesmo entre mulheres, visões tradicionais de gênero vêm reemergindo

Geração Z: Um terço dos homens acha que esposa deve obedecer
Geração Z: Um terço dos homens acha que esposa deve obedecer
Uma manifestante segura um cartaz com a mensagem "Histérica: uma mulher com opinião", em uma marcha em Lyon, na França, em 8 de março de 2026. Foto de Alex Martin/AFP
Apoie Siga-nos no

Seja por meio das chamadas tradwives no TikTok ou pelos influenciadores de direita em outros cantos da internet, modelos tradicionais para os papéis de gênero têm reemergido ao redor do mundo, desafiando a igualdade entre homens e mulheres. Um novo estudo global confirma a tendência ao revelar que quase um terço dos homens da Geração Z, nascidos entre 1997 e 2012, acha que uma esposa deve “sempre obedecer” ao marido.

Para a pesquisa realizada pela Ipsos e pelo Instituto Global para a Liderança das Mulheres, da King’s College London, os pesquisadores levantaram as opiniões de mais de 23 mil pessoas em 29 países, incluindo Reino Unido, Estados Unidos, Brasil, Índia, Alemanha, Austrália, Turquia e Japão.

Marcando o Dia Internacional da Mulher de 2026, celebrado neste domingo 8, a pesquisa mostra que homens da Geração Z defendem as visões mais tradicionais entre todas as faixas etárias. Enquanto 31% deles aprovam a ideia de dever de obediência, apenas 13% dos homens baby boomers (nascidos entre 1946 e 1964) concordam.

O padrão se repete quando se trata de poder decisório nas relações: um terço dos homens jovens acha que o homem deve ter a palavra final, bem mais do que em gerações mais velhas. Eles também tendem a ter mais problemas com o fato de mulheres serem independentes ou ganharem mais.

Os algoritmos das redes sociais recompensam mensagens extremadas”, diz Robert Grimm, chefe de pesquisa de políticas públicas da Ipsos na Alemanha, sobre um dos fatores que parece estar por trás do fenômeno.

No Brasil, o total de indivíduos pesquisados, de todas as idades, que acredita que uma mulher deva sempre obedecer é de 21%. O índice fica um ponto percentual acima da média global, sendo o nono mais alto entre os 29 países pesquisados.

Conflito de gênero

As mulheres da Geração Z, entretanto, têm uma visão bem diferente. Dentre elas, 18% apoiam a afirmação de que uma esposa deve obedecer. Entre as mulheres baby boomers, são 6%.

“A Geração Z é o grupo que mais tende a concordar com a afirmação de que mulheres com carreiras de sucesso são mais atraentes — ao mesmo tempo, são os que mais acham que uma mulher deve obedecer ao marido e não parecer independente demais,” afirma Kelly Beaver, CEO da Ipsos no Reino Unido e Irlanda.

Na prática, esta geração parece estar no meio de uma renegociação dos papéis de gênero. Jovens expressam, de um lado, desejo de liberdade, diversidade e igualdade moderna — e, de outro, mantêm visões surpreendentemente tradicionais.

No tema sexualidade, 21% dos homens da Geração Z acham que uma “mulher de verdade” nunca deve dar o primeiro passo, contra 12% das mulheres na mesma faixa etária. Entre os homens baby boomers, o índice é de 7%.

Percepções distorcidas

Os dados mostram ainda um descompasso estrutural de percepção: apenas 17% acreditam pessoalmente que mulheres devem ser responsáveis pelo trabalho de cuidado, mas 35% acham que a sociedade espera isso.

Já quando o assunto é o comportamento masculino, permanece a pressão para manter ideais antigos de masculinidade. Três em cada dez homens jovens acham que não se deve dizer “eu te amo” aos amigos.

Quarenta e três por cento acreditam que é preciso aparentar dureza física. E 21% consideram homens que participam dos cuidados com os filhos “menos masculinos”, contra 8% entre os baby boomers.

Para Heejung Chung, diretora do Instituto Global para Liderança das Mulheres, os resultados são preocupantes: “Muitas pessoas parecem pressionadas por expectativas sociais que não refletem o que a maioria realmente acredita.”

Homens jovens, em particular, superestimam o quanto sua sociedade pensa de forma tradicional. Ao mesmo tempo, 61% deles acreditam que já se fez o suficiente pela igualdade de gênero, enquanto 57% chegam a dizer que homens são discriminados hoje.

Dentre os países pesquisados, o Brasil teve o maior índice de entrevistados, de todas as idades e gêneros, que acham que se espera que os homens façam demais para apoiar a igualdade. Foram 70%, contra uma média global de 46%.

ENTENDA MAIS SOBRE: , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.

O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.

Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.

Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.

Quero apoiar

Leia também

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo