Cultura

assine e leia

Construtor de mundos

“A arquitetura não pode passar em branco”, diz Isay Weinfeld, cuja carreira é revisitada em uma ampla exposição

Construtor de mundos
Construtor de mundos
Projetos. O residencial do programa Minha Casa, Minha Vida, localizado em frente ao Minhocão, em São Paulo; o The Elisa, edifício residencial em Manhattan, Nova York; e a Casa Cubo, na região dos Jardins, em São Paulo – Imagem: Fernando Guerra e Ivane Katamashvili, Bob Wolfenson e Redes Sociais
Apoie Siga-nos no

As datas redondas se prestam a reminiscências e celebrações. Mas, no caso de Isay Weinfeld, os 50 anos de seu escritório de arquitetura não servirão nem a uma coisa nem a outra. Etcétera, aberta na quinta-feira 5 no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, é, sobretudo, um passeio por aquilo que o constitui.

Da mesma forma que nega ter um estilo, Weinfeld nega ser apenas um arquiteto. Os filmes em Super-8 feitos com Márcio Kogan nos tempos de faculdade; o longa-metragem Fogo e Paixão (1988); as obras de arte; e as músicas, que não cria, mas ouve de forma onívora, se deixam adivinhar entre os cerca de 180 itens expostos. Entre eles há, é claro, maquetes.

Uma semana antes da abertura da mostra, o autor do projeto do restaurante Four Seasons, em Nova York, dos hotéis da Rede Fasano e do Petit Afrique, edifício residencial no coração de Montecarlo, em Mônaco, recebeu ­CartaCapital em seu escritório, no Edifício Lacerda, no Sumarezinho, para uma conversa. Embora contido na fala, Weinfeld é solto na risada e trafega de maneria fluida por vários temas. Sobre a arquitetura, parece ter uma certeza: “Ela não pode passar em branco. Você pode até detestar, mas aquilo tem de mexer com você”.

“O trabalho me levou a lugares e me permitiu conhecer pessoas com que um menino saído do Bom Retiro jamais poderia sonhar”

CartaCapital: Vou começar pelo título da exposição: Etcétera. Você, em entrevistas, sempre fala sobre ter múltiplos interesses e não ser só arquiteto. O nome remete a esses três pontinhos da sua vida – todo o resto além da arquitetura?
Isay Weinfeld: Exatamente. Como tinha os 50 anos do escritório, a gente (ele e o curador Agnaldo Farias) começou a conversar e viu que daria para juntar os caquinhos. Porque o que eu fiz em cinema ficou lá para trás. Às vezes, os filmes voltam a ser exibidos, mas é para uma turma. Aí tem as artes plásticas, que é outra turma. A exposição é uma maneira de juntar tudo isso.

CC: Repassando e revisitando esse material, você conseguiu ver sentidos que ainda lhe escapavam?
IW: Para mim, é muito claro o percurso, assim como é clara a maneira como as coisas saem e por que saem. O meio de expressão depende do que quero comunicar. Carrego na minha personalidade um humor forte que não posso expressar através da arquitetura. E aí sai uma exposição, um curta-metragem… Vejo tudo isso também como um jeito de mostrar que todos podemos qualquer coisa. Não me preocupa fazer alguma coisa que as pessoas achem ridícula.

CC: No site do escritório há alguns textos seus, que também parecem ser formas de expressão. E são muito bons.
IW: Fico mais feliz que você ache os textos legais do que se falasse isso dos projetos.

Arte. Colar, Brinco e Anel Viário é uma das obras da série Arquitetura e Humor, na qual Weinfeld e Márcio Kogan brincam com “propostas” para o caos urbano – Imagem: Redes Sociais

CC: É que no caso dos projetos isso é meio óbvio (risos). Tem uma crônica sobre o projeto do gabinete da prefeitura de São Paulo, feito a convite de Marta Suplicy, em que você fala da origem do seu pai. Você foi um menino do Bom Retiro, filho do dono de uma tecelagem. Voltando esses 50 anos no tempo, o que mais o espanta na sua trajetória?
IW: Olha, apesar de ter sempre sabido que faria alguma coisa nessas áreas que faço, a arquitetura me levou a lugares que eu realmente não poderia imaginar. O trabalho, não a minha pessoa, me levou a lugares e me permitiu conhecer pessoas com que um menino saído do Bom Retiro, de uma família simples, jamais poderia sonhar. Não falo isso no sentido de “olha onde cheguei”, não é nada disso, mas de pensar sobre as vivências que o trabalho me proporcionou. Sou quietinho, fechado, e a conquista do cliente se dá de maneira mais formal, dentro do limite da minha timidez. Vem daí minha surpresa: mesmo com esse limite, o trabalho foi me levando a lugares, me conectando a pessoas. Isso eu não esperava.

CC: Fazer um projeto é mergulhar num universo? Penso, por exemplo, em como foi seu trabalho para a Livraria da Vila.
IW: Esse é um exemplo muito peculiar, mas é uma síntese do pensamento do escritório. Quando fui chamado, em vez de assinar um contrato, pedi para pensar um pouco. Eu não sabia se teria uma ideia boa o suficiente para fazer um trabalho público dessa importância, num tema que me agrada tanto – os livros. Tinha de ser algo que me desse prazer e que ajudasse o proprietário a vender mais livros através da arquitetura. A primeira coisa que faço é ouvir o cliente – muito, não pouco. Também me perguntei: o que gosto numa livraria? Gosto do jeito e da bagunça dos sebos, da sensação de estar envolto ali. Então, a primeira coisa foi essa: não vai ter uma só parede que não esteja forrada de livros. Mas uma livraria não pode ser bagunçada. Como crio aquela sensação sem ter cara de bagunça? Outra coisa: as livrarias em que me sinto melhor têm um pé-direito alto? Não. Têm um pé-direito baixo? Têm. Então, vou abaixar mais ainda o pé-direito. Se o teto for branco, vai ficar bonito? Vai. Mas e se for escuro, vai ficar mais aconchegante? Você vai colocando item após item, milhões deles – mobiliário, tecido, sofá, tato, forma da escada. Assim vai se formando o projeto.

CC: Passadas duas décadas do primeiro Hotel Fasano, tão emblemático, o que você tem a dizer desse projeto?
IW: Acho que ele levou a hotelaria do Brasil para outro nível, com a realidade do ­Fasano, mas acho também que a gente conseguiu, com o Rogério Fasano, dar uma cara específica para o conceito de hotelaria.

CC: Seu nome ficou muito ligado a uma certa ideia de luxo. Como foi a experiência de fazer o Bem Viver Marquês de Itu, habitação popular no Minhocão?
IW: As pessoas são bitoladas. Elas o colocam numa gaveta e pensam: que arquiteto tem aí de luxo? Isso é muito bobo. Mas sabe que, logo que terminei o Fasano,­ recebi um telefonema para fazer um McDonald’s? Eles entenderam que um escritório que consegue fazer o restaurante mais luxuoso da cidade também pode fazer o mais popular. Para mim, sempre foi óbvio que eu poderia fazer um trabalho de habitação pública. Mas eu não vou atrás das coisas, fico aqui esperando o telefone tocar. E só tocou uns anos atrás. Foi um enorme prazer, e eu gostaria de fazer mais.

CC: Você falou da relação que estabelece com o cliente. E a cidade, como ela entra no seu pensamento?
IW: De forma fortíssima. Se não é espontâneo no cliente, exerço uma pequena pressão para que isso aconteça (risos). Uma coisa que buscamos é ter conexão com os vizinhos. Um edifício não pode dar as costas para os vizinhos. Ele é feito para se relacionar com o entorno e, especialmente, a rua.

“Eu não conseguiria morar em outro lugar que não São Paulo. Tenho uma fascinação por essa evolução atabalhoada da cidade”

CC: Bom, e aí a pergunta que sempre fazem a você: como é viver em São Paulo, uma cidade que você já definiu como “feia, mas interessante”. Você nasceu aqui, vê há décadas as transformações, e aqui segue.
IW: Sabe o que acho bacana? Você ver tudo isso passar na sua frente e tentar, dentro da sua possibilidade, fazer o possível para a cidade se tornar melhor. Lembro que, depois de sair do Bom Retiro, minha família foi para a Avenida Eusébio Matoso, que era uma várzea. No fim do dia, tinha um padeiro que passava pelas casas, com uma cesta, vendendo pães doces. E vi coisas antes. Sinto que, mesmo que de forma totalmente atabalhoada, esse percurso da cidade resultou em alguma coisa, que é este lugar onde a gente vive. Eu não conseguiria morar em outro lugar que não São Paulo. Tenho uma fascinação pela evolução da cidade.

CC: A gente está na Vila Madalena, num prédio projetado por você. Nesta mesma rua tem outro projeto seu. E toda esta região, incluindo Pinheiros, é um canteiro de obras. Tem grupos se mobilizando e muita gente sofrendo com as demolições. Como você lida com isso?
IW: Não sofro. E as pessoas que estão sofrendo vão se acostumar. A cidade vai se transformando e a gente tem de seguir junto e tentar, cada vez mais, fazer o melhor com isso. Todo mundo acha a casinha fofinha – eu também acho! –, mas não estamos numa cidade do interior, onde você fica pensando “Ai, que saudade da pracinha em que eu jogava futebol”. Quando foram derrubar a Livraria da Vila da Alameda Lorena, escolhida uma das dez mais bonitas do mundo, a imprensa veio pedir minha opinião. O que vou fazer? Vou lá na frente com um cartaz para falar mal da imobiliária ? Já derrubaram. Vira a página.

CC: As construções na cidade vêm em ondas. Teve a onda do terraço gourmet­, da raia de 25 metros…
IW: Agora tem o Garden… É uma coisa comercial, que pega e vira o desejo de muita gente. Mas o problema não é esse, e sim a falta de qualidade dos projetos. Pode ser uma bobagem, mas se for bem-feita, com uma proposta arrojada, pode tornar-se interessante. O problema é quando essas ideias encobrem a falta de projetos. As construtoras começam a fazer tudo igual, com equipes internas. Mas eu também acho que, de 20 anos para cá, o mercado mudou. Alguns jovens passaram a não se identificar com os produtos oferecidos, e isso pressionou o mercado a elevar o nível dos projetos de arquitetura.

CC: Para terminar, queria saber um pouco da dinâmica do escritório. Você faz questão de acompanhar todos os projetos de perto, né?
IW: Eu delego. Aliás, quem trabalha é a equipe toda do escritório. Mas, francamente falando, se eu não participar, vou para casa me aposentar, né? Só pego uma coisa pelo tesão de fazê-la, então participarei de tudo, lógico, como sempre participei. •


Casa de Tomie Ohtake vira espaço expositivo

Ruy Ohtake – Percursos do Habitar, sobre o filho da artista, inaugura a programação

Casa-ateliê. A residência, em São Paulo, projetada por Ruy Ohtake, receberá mostras de arte, arquitetura e design – Imagem: Cristiano Mascaro

Enquanto em sua sede, em Pinheiros, na Zona Oeste de São Paulo, o Instituto Tomie Ohtake revisita a trajetória de Isay Weinfeld­, na Zona Sul, no Bairro do Campo Belo, a instituição usa a arquitetura como marco da inauguração da Casa-Ateliê Tomie Ohtake.

O espaço, onde Tomie Ohtake (1913–2015) viveu e trabalhou, passa a integrar a programação do Instituto, com foco em arte, arquitetura e ­design. Para inaugurar a nova fase, será aberta, no sábado 7, a exposição Ruy Ohtake – Percursos do Habitar.

Ruy (1938–2021), filho de Tomie, é o autor do projeto dessa residência onde o que importa são, sobretudo, os espaços comuns. Às grandes salas, voltadas para o jardim e a piscina, se contrapõem os minúsculos quartos pensados para os dois filhos da artista – Ruy e Ricardo.

É nessa casa única que outros seis projetos residenciais desenvolvidos pelo arquiteto – entre as décadas de 1960 e 2010 – serão relembrados por meio de maquetes, desenhos e croquis. Entre os projetos estão as residências de Chiyo Hama e Zuleika Halpern, e o Condomínio Residencial Heliópolis, projeto de habitação popular cujos prédios foram apelidados de redondinhos. – APS

Publicado na edição n° 1403 de CartaCapital, em 11 de março de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Construtor de mundos ‘

ENTENDA MAIS SOBRE: , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Depois de anos bicudos, voltamos a um Brasil minimamente normal. Este novo normal, contudo, segue repleto de incertezas. A ameaça bolsonarista persiste e os apetites do mercado e do Congresso continuam a pressionar o governo. Lá fora, o avanço global da extrema-direita e a brutalidade em Gaza e na Ucrânia arriscam implodir os frágeis alicerces da governança mundial.

CartaCapital não tem o apoio de bancos e fundações. Sobrevive, unicamente, da venda de anúncios e projetos e das contribuições de seus leitores. E seu apoio, leitor, é cada vez mais fundamental.

Não deixe a Carta parar. Se você valoriza o bom jornalismo, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal da revista ou contribua com o quanto puder.

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo