Mundo
O “sucesso” de Milei
Queridinho dos ultraortodoxos, o presidente empurra o país para a estagflação, misto de recessão e alta de preços
Na abertura das sessões do Congresso em 1º de março, o presidente argentino, Javier Milei, animado com a aprovação da reforma trabalhista e da redução da maioridade penal pelos parlamentares, dedicou boa parte da sua participação a distribuir insultos à oposição peronista. A ferocidade do “libertário” produziu manchetes e atiçou a base radical, mas não escondeu o iceberg contra o qual a economia do país está prestes a se chocar – se é que já não se chocou. A inflação permanece acima de 30% ao ano e, todos os dias, uma fábrica fecha as portas, devido às importações ou à queda da demanda interna. Um fantasma assombra a Argentina: o da “estagflação”. Estagnação somada à inflação.
Milei insiste que, graças ao seu governo, iniciado em 10 de dezembro de 2023, o país foi salvo da hiperinflação. Ele chega a citar um número mágico, 17.000%. Seria essa a taxa de alta de preços que ele evitou. Nenhum especialista ou estudioso, da esquerda à direita, confirma, porém, essa variação. Ao contrário. Os dados oficiais mostram a persistência do índice acima de dois dígitos, elevadíssimo em comparação aos vizinhos, entre eles Paraguai (3,1%), Brasil (4,26%), Peru (1,5%) e Chile (3,5%). Detalhe: nenhuma dessas outras economias foi empurrada precipício abaixo como na Argentina.
Curiosamente, ou não, o primeiro economista renomado a alertar sobre a estagflação não foi um keynesiano heterodoxo, mas um liberal, Carlos Melconian, presidente do Banco Central no governo de Mauricio Macri, no início de 2015, e consultor de grandes grupos empresariais. “Eu, que ando pelas ruas, vejo que tudo está rangendo por causa da estagflação”, disse Melconian ao saber da última taxa de inflação, de 2,9%. Segundo ele, “o crescimento econômico não tem nada a ver com a reforma trabalhista”, um projeto baseado em demissões com baixo custo que Milei conseguiu aprovar nas duas casas do Congresso. “Os empresários contraem empréstimos se houver demanda. Do contrário, perguntam por que precisam de crédito se não há demanda.” O ex-comandante do BC argentino prossegue: “O importante é que a moeda esteja estável e que haja investimento, e isso ainda não está acontecendo na Argentina”. E acrescentou, em tom mais crítico: “Todo mundo sabe que a equipe econômica deste governo tem expertise financeira e que Milei acredita estar construindo um país com Inteligência Artificial, agricultura e Vaca Muerta (extração de hidrocarbonetos por fracking)”. Mas “algumas pessoas se sentem excluídas, e 40 pontos porcentuais de estagflação do PIB estão muito abaixo dos níveis de 2023 e 2011”.
A consultoria Audemus relatou que a indústria argentina “acumulou queda média de 7,9% em comparação com 2023”. Segundo a empresa, esta é a segunda maior retração industrial no mundo, conforme dados da Organização para o Desenvolvimento Industrial da ONU (Onudi), atrás apenas da Hungria. A consultoria observou que Brasil e Chile registraram crescimento industrial de 3,5% e 5,2%, respectivamente, no mesmo período. O declínio argentino resultou no fechamento de 2.436 fábricas e se aproxima dos números do primeiro ano da pandemia de Covid-19, em 2020. O setor perdeu 72.955 trabalhadores registrados e o emprego industrial caiu 16% nos dois primeiros anos do governo.
A indústria demitiu perto de 73 mil trabalhadores e caiu 8% em comparação a 2023
Até mesmo um economista ortodoxo como o ex-ministro Domingo Cavallo alertou para a situação. Cavallo foi ministro nos governos de Carlos Menem, de 1991 a 1996, e de Fernando de la Rúa, em 2001, de triste memória.
Juan Pablo Costa, do Centro de Economia Política Argentina, analisou os dados e constatou que a atividade econômica se baseia em setores que quase não geram empregos: agricultura extensiva, intermediação financeira e mineração. O ex-presidente do Banco Central Alejandro Vanoli destacou, por sua vez, que o setor da construção civil teve queda de 16% em 2024 e 2025. Uma das medidas mais significativas de Milei foi o corte de programas de obras públicas em todo o país. A redução inclui da construção e manutenção de rodovias a projetos de saneamento básico e água potável.
O símbolo da estagnação foi o fechamento da fábrica de pneus FATE, com 80 anos de atividade e que, na década de 1960, havia se diversificado a ponto de fabricar calculadoras eletrônicas. “Esses eram verdadeiros industriais”, disse com nostalgia um engenheiro aposentado, que pediu para não ser identificado. O fechamento da FATE gerou 920 demissões.
Juan Carlos de Pablo, economista veterano de 82 anos a quem Milei chama de el profe (o professor), e que se encontra aos domingos com o presidente para escutar ópera, defendeu publicamente as demissões. Escreveu uma coluna no jornal La Nación na qual oferece três conselhos aos trabalhadores demitidos: receber suas indenizações, reduzir as despesas a dois terços do nível anterior e procurar emprego. Recomendou não lutar pela reabertura da fábrica e, ao contrário, “procurar, procurar e procurar”.
Em alguns setores, os trabalhadores da FATE não teriam qualquer chance. Só nos três primeiros dias de março, empresas de todo o país fecharam as portas, incluindo a Panpack (75 demissões), o Frigorífico San Roque (140 demissões), a Peabody (artigos para o lar, em concordata devido ao aumento das importações), a Beer Market (distribuidora de bebidas, com 300 demissões) e a Bioceres (em falência). As maiores cidades exibem um cenário de lojas fechadas nos centros comerciais. Em Córdoba, uma das três maiores cidades argentinas, estima-se que haja três negócios fechados a cada 100 metros.
Alguns economistas argumentam que a Argentina não atingiu a estagflação justamente por causa do setor agrícola e da intermediação financeira, mas esse grupo acrescenta uma palavra: “ainda”. De acordo com Florencia Fiorentin, economista-chefe da consultoria Epyca, há uma “desaceleração do crescimento e uma aceleração da inflação, portanto é evidente que a economia caminha no rumo da estagflação”. Fiorentin enfatizou que o declínio continua nos setores da indústria fabril, construção e comércio, onde também se observa uma queda no poder de compra dos salários. •
*Martín Granovsky, jornalista argentino, é codiretor do site de análises político-econômicas www.yahoraque.com.ar e colunista do programa de tevê QR. Foi vice-diretor do jornal Página/12, funcionário do Ministério das Relações Exteriores e presidente da Agência Nacional de Notícias Télam.
Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves.
Publicado na edição n° 1403 de CartaCapital, em 11 de março de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O “sucesso” de Milei ‘
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