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O “sucesso” de Milei

Queridinho dos ultraortodoxos, o presidente empurra o país para a estagflação, misto de recessão e alta de preços

O “sucesso” de Milei
O “sucesso” de Milei
Realidade e fantasia. Enquanto a população enfrenta o desemprego e a queda na renda, o “libertário” ataca a oposição no Congresso e arrocha os trabalhadores – Imagem: Tomas Cuesta/Getty Images/AFP e Alejandro Pagni/AFP
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Na abertura das sessões do Congresso em 1º de março, o presidente argentino, ­Javier Milei, animado com a aprovação da reforma trabalhista e da redução da maioridade penal pelos parlamentares, dedicou boa parte da sua participação a distribuir insultos à oposição peronista. A ferocidade do “libertário” produziu manchetes e atiçou a base radical, mas não escondeu o iceberg contra o qual a economia do paí­s está prestes a se chocar – se é que já não se chocou. A inflação permanece acima de 30% ao ano e, todos os dias, uma fábrica fecha as portas, devido às importações ou à queda da demanda interna. Um fantasma assombra a Argentina: o da “estag­flação”. Estagnação somada à inflação.

Milei insiste que, graças ao seu governo, iniciado em 10 de dezembro de 2023, o país foi salvo da hiperinflação. Ele chega a citar um número mágico, 17.000%. Seria essa a taxa de alta de preços que ele evitou. Nenhum especialista ou estudioso, da esquerda à direita, confirma, porém, essa variação. Ao contrário. Os dados oficiais mostram a persistência do índice acima de dois dígitos, elevadíssimo em comparação aos vizinhos, entre eles Paraguai (3,1%), Brasil (4,26%), Peru (1,5%) e Chile (3,5%). Detalhe: nenhuma dessas outras economias foi empurrada precipício abaixo como na Argentina.

Curiosamente, ou não, o primeiro economista renomado a alertar sobre a estagflação não foi um keynesiano heterodoxo, mas um liberal, Carlos Melconian, presidente do Banco Central no governo de Mauricio Macri, no início de 2015, e consultor de grandes grupos empresariais. “Eu, que ando pelas ruas, vejo que tudo está rangendo por causa da estagflação”, disse Melconian ao saber da última taxa de inflação, de 2,9%. Segundo ele, “o crescimento econômico não tem nada a ver com a reforma trabalhista”, um projeto baseado em demissões com baixo ­custo que Milei conseguiu aprovar nas duas casas do Congresso. “Os empresários contraem empréstimos se houver demanda. Do contrário, perguntam por que precisam de crédito se não há demanda.” O ex-comandante do BC argentino prossegue: “O importante é que a moeda esteja estável e que haja investimento, e isso ainda não está acontecendo na Argentina”. E acrescentou, em tom mais crítico: “Todo mundo sabe que a equipe econômica deste governo tem expertise financeira e que Milei acredita estar construindo um país com Inteligência Artificial, agricultura e Vaca Muerta (extração de hidrocarbonetos por fracking)”. Mas “algumas pessoas se sentem excluídas, e 40 pontos porcentuais de estagflação do PIB estão muito abaixo dos níveis de 2023 e 2011”.

A consultoria Audemus relatou que a indústria argentina “acumulou queda média de 7,9% em comparação com 2023”. Segundo a empresa, esta é a segunda maior retração industrial no mundo, conforme dados da Organização para o Desenvolvimento Industrial da ONU (Onudi), atrás apenas da Hungria. A consultoria observou que Brasil e Chile registraram crescimento industrial de 3,5% e 5,2%, respectivamente, no mesmo período. O declínio argentino resultou no fechamento de 2.436 fábricas e se aproxima dos números do primeiro ano da pandemia de Covid-19, em 2020. O setor perdeu 72.955 trabalhadores registrados e o emprego industrial caiu 16% nos dois primeiros anos do governo.

A indústria demitiu perto de 73 mil trabalhadores e caiu 8% em comparação a 2023

Até mesmo um economista ortodoxo como o ex-ministro Domingo Cavallo alertou para a situação. Cavallo foi ministro nos governos de Carlos Menem, de 1991 a 1996, e de Fernando de la Rúa, em 2001, de triste memória.

Juan Pablo Costa, do Centro de Economia Política Argentina, analisou os dados e constatou que a atividade econômica se baseia em setores que quase não geram empregos: agricultura extensiva, intermediação financeira e mineração. O ex-presidente do Banco Central Alejandro­ Vanoli destacou, por sua vez, que o setor da construção civil teve queda de 16% em 2024 e 2025. Uma das medidas mais significativas de Milei foi o corte de programas de obras públicas em todo o país. A redução inclui da construção e manutenção de rodovias a projetos de saneamento básico e água potável.

O símbolo da estagnação foi o fechamento da fábrica de pneus FATE, com 80 anos de atividade e que, na década de 1960, havia se diversificado a ponto de fabricar calculadoras eletrônicas. “Esses eram verdadeiros industriais”, disse com nostalgia um engenheiro aposentado, que pediu para não ser identificado. O fechamento da FATE gerou 920 demissões.

Juan Carlos de Pablo, economista veterano de 82 anos a quem Milei chama de el profe (o professor), e que se encontra aos domingos com o presidente para escutar ópera, defendeu publicamente as demissões. Escreveu uma coluna no jornal La Nación na qual oferece três conselhos aos trabalhadores demitidos: receber suas indenizações, reduzir as despesas a dois terços do nível anterior e procurar emprego. Recomendou não lutar pela reabertura da fábrica e, ao contrário, “procurar, procurar e procurar”.

Em alguns setores, os trabalhadores da FATE não teriam qualquer chance. Só nos três primeiros dias de março, empresas de todo o país fecharam as portas, incluindo a Panpack (75 demissões), o Frigorífico San Roque (140 demissões), a ­Peabody (artigos para o lar, em concordata devido ao aumento das importações), a Beer Market (distribuidora de bebidas, com 300 demissões) e a Bioceres (em falência). As maiores cidades exibem um cenário de lojas fechadas nos centros comerciais. Em Córdoba, uma das três maiores cidades argentinas, estima-se que haja três negócios fechados a cada 100 metros.

Alguns economistas argumentam que a Argentina não atingiu a estagflação justamente por causa do setor agrícola e da intermediação financeira, mas esse grupo acrescenta uma palavra: “ainda”. De acordo com Florencia Fiorentin, economista-chefe da consultoria Epyca, há uma “desaceleração do crescimento e uma aceleração da inflação, portanto é evidente que a economia caminha no rumo da estagflação”. Fiorentin enfatizou que o declínio continua nos setores da indústria fabril, construção e comércio, onde também se observa uma queda no poder de compra dos salários. •


*Martín Granovsky, jornalista argentino, é codiretor do site de análises político-econômicas www.yahoraque.com.ar e colunista do programa de tevê QR. Foi vice-diretor do jornal Página/12, funcionário do Ministério das Relações Exteriores e presidente da Agência Nacional de Notícias Télam.
Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves.

Publicado na edição n° 1403 de CartaCapital, em 11 de março de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O “sucesso” de Milei ‘

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