Política
Os filhos da repressão
Grupo de familiares de perseguidos pelo regime lutam por uma anistia coletiva e pela memória
Uma frase de Wagner Moura durante a cerimônia de premiação do Globo de Ouro, em janeiro, calou fundo no coletivo Filhos e Netos por Memória, Verdade e Justiça. “O Agente Secreto”, afirmou o ator premiado, “é um filme sobre memória, ou a falta de memória, e trauma geracional. Eu penso que se trauma pode ser passado por gerações, valores também podem.”
Traumas transgeracionais estão justamente no cerne dos assuntos abordados pelo grupo de familiares de perseguidos políticos pela ditadura. Depoimentos documentados comprovam que os descendentes foram atingidos por atos de exceção do Estado e sofreram consequências como separações familiares, prisão, clandestinidades, tortura, exílio, vigilância constante, estigmatização social, doenças físicas e psicológicas, interrupção de estudos e perdas materiais. Longe de serem danos isolados, são transmitidos entre gerações por meio de mecanismos psíquicos, sociais e biológicos cientificamente comprovados.
Por décadas ignorados pela política de reparação brasileira, os efeitos transgeracionais da ditadura ganharam os holofotes recentemente por conta do cinema, em especial de Ainda Estou Aqui, dirigido por Walter Salles e baseado no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, e O Agente Secreto, escrito e dirigido por Kleber Mendonça Filho. “O impacto foi profundamente emocional, antes de ser político”, diz a jornalista Jana Sá, do grupo Filhos e Netos, sobre o filme de Mendonça. “A última cena me atravessou de um jeito muito íntimo. Quando o filho adulto demonstra desinteresse, quando a memória do pai parece diluída, quase apagada… aquilo não é apenas uma cena sobre uma família. Aquilo é uma metáfora poderosa sobre o esquecimento.” Sá continua: “Ali senti um nó na garganta, porque o que está em jogo não é apenas a perda de uma memória individual. É a demonstração de como o esquecimento se transformou em política do Estado. O Brasil construiu, ao longo de sua transição, uma espécie de pacto silencioso de não elaboração. Uma interpretação da Lei da Anistia que funcionou como manto de impunidade: arquivos fechados, crimes não responsabilizados, mortes e desaparecimentos sem resposta. Quando o Estado não promove a memória, ele produz o esquecimento. E o esquecimento não é neutro, ele protege os perpetradores”.
Nascida em 1983, em Natal, Rio Grande do Norte, a jornalista conviveu desde a infância com a repressão infligida a seu pai, Glênio Sá. Filiado ao PCdoB e militante na Guerrilha do Araguaia, ele foi perseguido mesmo após o fim da ditadura. Documentos do Serviço Nacional de Informações, convertido na Agência Brasileira de Informação, apontam uma vigilância contínua até 1990, ano de sua morte em um suposto acidente automobilístico, cujas circunstâncias permanecem controversas.
O coletivo do qual Sá faz parte foi fundado em 5 de dezembro de 2014, data de uma audiência pública na qual familiares de perseguidos políticos receberam um pedido oficial de desculpas do Estado. O pedido foi verbalizado por meio de representantes da Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro. O grupo Filhos e Netos por Memória, Verdade e Justiça surgiu como um desdobramento das Clínicas do Testemunho, projeto articulado pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, por meio das quais eram oferecidos atendimentos psicológicos. Terapeutas começaram, porém, a observar os efeitos transgeracionais e propuseram estender a iniciativa aos filhos e netos.
O coletivo quer envolver Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho na causa
Embora tenha se desdobrado de um projeto com objetivos mais terapêuticos, o coletivo atua em diversas frentes. No ano passado, o grupo encaminhou, com o apoio da Defensoria Pública da União, um pedido de anistia coletiva à Comissão de Anistia, órgão vinculado ao Ministério de Direitos Humanos. A anistia simbólica inclui um conjunto de medidas reparatórias: retratação pública, atendimento psicológico especializado, retorno das Clínicas de Testemunho, facilitação de acesso a arquivos e documentos, gratuidades cartoriais, assessoramento técnico e jurídico, além de medidas educativas como a criação de um memorial virtual.
Ainda em 2025, o coletivo passou a atuar como amicus curiae na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 320, de 2014, que tramita no Supremo Tribunal Federal e busca a reinterpretação da Lei de Anistia de 1979. Em novembro, o grupo enviou ao governo outro requerimento com recomendações ampliadas sobre reparações, feito em conjunto com o Conselho Nacional de Direitos Humanos. Entre outras medidas, pede a abertura dos arquivos das Forças Armadas.
Após entregar o pedido de anistia coletiva ao relator especial de Direitos Humanos da ONU, Bernard Duhaime, o coletivo Filhos e Netos planeja novos passos para divulgar suas reivindicações, dessa vez, em consonância ao apreço pela arte e cultura. O desejo do historiador Felipe Lott é promover um evento no qual possa entregar o requerimento de anistia a Moura e Mendonça, para que possam conhecer as propostas do coletivo. Neto da deputada estadual cassada Edna Lott e sobrinho do ex-militar e preso político Nelson Lott, Felipe sonha alto: “O ideal é que a entrega de uma carta e do pedido de anistia seja feita numa cerimônia no Cinema São Luiz, no Recife, onde se passa parte do filme. E que o evento possa contar com a presença de parlamentares e outros coletivos”.
Para Sá, a declaração de Moura não é apenas artística, é política e ética. “É poderosa porque toca numa ferida que o Brasil nunca quis olhar de frente. Quando fala de trauma que atravessa gerações, ele está dizendo algo muito simples e profundo, o que não é enfrentado não desaparece. Fica, circula e se instala nos vínculos, nas famílias, nas instituições. Se o trauma pode atravessar gerações, a consciência histórica também pode. A coragem de nomear também pode. O compromisso com a democracia também pode.” A jornalista conclui: “Memória não é permanecer na dor. É impedir que ela continue a ser transmitida como destino”. •
Publicado na edição n° 1403 de CartaCapital, em 11 de março de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Os filhos da repressão’
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