

Opinião
Risco estrutural
Mudanças climáticas pressionam o setor de seguros e afetam o preço das apólices
Cada vez mais recorrentes, os eventos climáticos extremos abalam o setor de seguros. Seja nas fortes chuvas, seja nas ondas de calor, os prejuízos se acumulam em apólices que cobrem propriedades, automóveis ou saúde. Isso tem gerado pressões enormes sobre seguradoras, resseguradoras e consumidores em todo o mundo, além de alterar os modelos atuariais.
O setor de seguros, historicamente o pilar de estabilidade do sistema financeiro global, enfrenta em 2026 sua crise mais aguda em décadas. O que antes ocorria a cada cem anos tornou-se rotina, forçando uma reescrita completa das tabelas atuariais e deixando milhões de proprietários em um limbo de vulnerabilidade financeira.
No Brasil, o mercado de seguro residencial cresceu 16,5% em 2024, segundo a Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg). Os preços das apólices dispararam, e o impacto tornou-se ainda mais agudo após as catástrofes climáticas de 2024 e 2025, que alteraram a percepção de risco tanto de consumidores quanto de seguradoras.
Globalmente, as perdas decorrentes de catástrofes naturais atingiram o recorde de 145 bilhões de dólares em 2025, aponta um relatório do Swiss Re Institute. No entanto, o dado mais alarmante é o chamado “gap de proteção”: cerca de 60% dos prejuízos não estavam cobertos, o que força governos e indivíduos a arcarem com os custos. Na reconstrução do Rio Grande do Sul, o governo federal gastou perto de 81 bilhões de reais.
No Brasil, a CNseg aponta 2025 como um ano de virada. As enchentes históricas em municípios gaúchos e a seca severa na região Centro-Norte não apenas geraram indenizações recordes, mas também impulsionaram a demanda por coberturas específicas contra eventos extremos. No agronegócio, os prêmios passaram por uma revisão rigorosa, devido à imprevisibilidade das safras, com o setor em busca de novas soluções de seguro paramétrico.
O setor reage em duas direções. De um lado, há investimento crescente em modelagem climática avançada, uso de big data e parcerias com centros de pesquisa para recalibrar cenários de risco. De outro, observa-se uma estratégia de “reprecificação estrutural”, termo empregado por analistas para descrever a adaptação permanente das carteiras às novas realidades climáticas.
Um fenômeno que se intensificou recentemente é o abandono de mercados de alto risco. Grandes seguradoras globais estão deixando de renovar apólices em regiões costeiras e áreas propensas a incêndios florestais – como partes da Califórnia e da costa da Flórida – por considerarem o risco “tecnicamente inaceitável”. Isso cria um efeito dominó: sem seguro, as hipotecas tornam-se inacessíveis, os valores dos imóveis despencam e a estabilidade econômica regional é posta à prova.
O agronegócio é o setor que sente o impacto de forma mais direta. A imprevisibilidade do regime de chuvas e as quebras de safra sequenciais mudaram o jogo. Uma das soluções tem sido o chamado seguro paramétrico, em que, em vez de esperar que um perito vá ao campo, o seguro paga automaticamente se um índice (por exemplo, milímetros de chuva ou temperatura) atingir um gatilho predefinido, medido via satélite. Mesmo assim, algumas culturas em regiões específicas estão deixando de ser aceitas pelas seguradoras, devido à instabilidade climática.
Os seguros de vida e saúde também têm sido impactados, uma vez que as mudanças climáticas afetam diretamente a condição humana. As mortes relacionadas ao calor extremo já influenciam as tabelas atuariais em áreas urbanas densamente povoadas. Além disso, há um aumento de casos de doenças tropicais, em que a expansão de vetores – como os mosquitos da dengue e da malária – para novas latitudes e altitudes intensifica a pressão sobre os planos de saúde. A poluição do ar em áreas urbanas e rurais também aumenta, devido ao crescimento de partículas provenientes de incêndios florestais, ampliando custos com tratamentos respiratórios.
O grande desafio dos próximos anos será evitar que o seguro se torne um privilégio exclusivo dos mais ricos. A colaboração entre os setores público e privado, por meio de fundos de catástrofe e incentivos à construção resiliente, é um caminho para manter a sociedade protegida. Uma coisa é certa: as mudanças climáticas deixaram de ser um risco emergente e passaram a ser um risco estrutural. A forma como o setor de seguros e os governos responderem a essa transformação terá implicações profundas para a estabilidade econômica nas próximas décadas. •
Publicado na edição n° 1403 de CartaCapital, em 11 de março de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Risco estrutural’
Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
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