Do Micro Ao Macro
Mulheres ganham 21% menos e representam 60% dos casos de burnout no país
Recorde de 546 mil afastamentos por transtornos mentais expõe impacto da desigualdade de gênero na saúde feminina
O burnout feminino avança no Brasil enquanto a desigualdade salarial persiste e os afastamentos por transtornos mentais batem recorde.
Em 2025, o país registrou 546 mil licenças relacionadas a problemas psíquicos.
Ao mesmo tempo, dados do IBGE e do DIEESE indicam que mulheres recebem, em média, 21% menos que homens na mesma função. Entre mulheres negras, a diferença pode alcançar 47%.
Para a médica do trabalho Ana Paula Teixeira, autora do livro “Quando o Trabalho Dói”, a desigualdade ultrapassa a questão salarial. “No Brasil, a desigualdade de gênero não é apenas um número no contracheque; é um fator de risco epidemiológico”, afirma.
Burnout feminino e sobrecarga
Estudos recentes mostram que mulheres concentram cerca de 60% dos diagnósticos de Síndrome de Burnout. Segundo Ana Paula, o quadro está ligado à sobrecarga e à jornada tripla.
Além da atividade profissional, muitas acumulam tarefas domésticas e cuidados familiares. Soma-se a isso a pressão constante por desempenho em ambientes corporativos ainda dominados por homens.
Na Bahia, o problema apresenta recorte adicional. “A mulher negra, que ocupa a base da pirâmide produtiva, enfrenta maior precarização e menor rede de apoio. Sob pressão contínua, a saúde física e mental entra em colapso”, afirma.
Maternidade e mercado de trabalho
A penalização da maternidade também aparece como gatilho para o burnout feminino. Dados da Fundação Getúlio Vargas indicam que 48% das mulheres perdem o emprego até dois anos após o parto.
De acordo com Ana Paula, a maternidade ainda é tratada como custo nas organizações. “Muitas mulheres têm receio de engravidar ou adiam o plano de ser mãe por medo de demissão”, diz.
Além disso, políticas corporativas raramente consideram ciclos hormonais e necessidades específicas de saúde feminina. “Não se trata de privilégio, mas de garantir produtividade sustentável”, explica.
Mudança estrutural nas empresas
Especialistas defendem auditorias salariais com recorte de raça e gênero, programas de acolhimento no pré e pós-parto e políticas de flexibilidade em períodos de maior vulnerabilidade física.
Também são citadas ações de combate ao racismo corporativo e revisão de critérios de avaliação de desempenho.
Para Ana Paula Teixeira, o sofrimento no trabalho não pode ser naturalizado. “Acolher as especificidades femininas é estratégia de sobrevivência econômica e humanitária”, afirma. Segundo ela, enfrentar o burnout feminino exige liderança capaz de integrar desempenho e competências socioemocionais.
Dra. Ana Paula Teixeira, médica do trabalho e especialista em saúde e bem-estar. Créditos _divulgação.
Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome
Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.
O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.
Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.
Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.
Leia também
Esgotamento silencioso: 4 dicas para identificar burnout no empreendedor
Por Do Micro ao Macro
O trabalho chegou ao limite? Burnout se espalha e redesenha carreiras
Por Do Micro ao Macro
Burnout em lideranças afeta decisões e clima nas empresas
Por Do Micro ao Macro
Você já ouviu falar em Rust Out? Não é burnout
Por Do Micro ao Macro
Licença paternidade estendida pode reduzir casos de depressão e burnout materno
Por Do Micro ao Macro



