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A IA entrou na guerra em uma batalha que destrói vidas mas garante o lucro
A evolução da Inteligência Artificial ultrapassou rapidamente a fase de surpresa pelo uso na geração de textos, imagens ou do simples atendimento automatizado em chatbots. Hoje, a vanguarda tecnológica opera na esfera mais letal da sociedade: a máquina de guerra. A IA consolidou-se como o […]
A evolução da Inteligência Artificial ultrapassou rapidamente a fase de surpresa pelo uso na geração de textos, imagens ou do simples atendimento automatizado em chatbots. Hoje, a vanguarda tecnológica opera na esfera mais letal da sociedade: a máquina de guerra. A IA consolidou-se como o cérebro do campo de batalha moderno, possuindo a capacidade ímpar de gerar e processar múltiplas camadas de informações simultâneas sobre qualquer acontecimento, interligando desde a captação de sinais de satélite e dados de radares até a movimentação de tropas inimigas. Muito mais do que um sistema de suporte logístico, os algoritmos atuam agora como um elemento de interferência qualitativa direta nos resultados dos conflitos, acelerando a vigilância, a seleção de alvos e o próprio ciclo de extermínio sem as limitações de velocidade do processamento humano.
Se compreendermos a indústria bélica primariamente como um negócio estupidamente lucrativo, a Inteligência Artificial desponta como o principal fator de viabilidade econômica e de eficiência de custos. O ataque coordenado entre os Estados Unidos e Israel contra o Irã no final, batizado de Operation Epic Fury (EUA) e Operation Roaring Lion (Israel), expôs brutalmente essa realidade. É uma das campanhas aéreas mais caras e avançadas da história. A ofensiva custou entre 1,5 bilhão de dólares e 2 bilhões de dólares apenas em seus primeiros dias. As estimativas são de sites especializados.
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Essa fatura evidencia a consolidação de um novo superciclo de segurança global baseado em tecnologia. Com os gastos militares globais atingindo o recorde absoluto de 2,71 trilhões de dólares (dados de abril de 2025). Segundo o Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), as cinco maiores corporações de defesa do planeta, conhecidas como Big Five (Lockheed Martin, Northrop Grumman, General Dynamics, RTX e Boeing), colhem os frutos de um mercado onde as 100 maiores empresas faturaram o recorde de 679 bilhões de dólares (valores de dezembro de 2025). A IA entra nesse cálculo como a ferramenta que otimiza onde e como essa verba trilionária será gasta.
A grande revelação sobre a ofensiva contra o Irã foi o nível de integração das ferramentas de IA na engrenagem militar. O Comando Central dos EUA (Centcom) utilizou ativamente o Claude, da Anthropic e rival direto do ChatGPT, para orquestrar etapas críticas do ataque. Alimentada com volumes maciços de dados, a IA processou avaliações táticas, identificou alvos precisos e simulou múltiplos cenários de batalha antes mesmo que as aeronaves decolassem. Essa capacidade de analisar o caos da guerra e convertê-lo em previsões e diretrizes táticas exatas é um novo passo no universo dos conflitos. Em negócios isso significa dizer que a IA aumenta a eficiência e controla as despesas. Nessa conta a vida é um detalhe. O que vale vai aparecer no demonstrativo de resultados e no EBTIDA das empresas ou nas ações da bolsa. A intervenção dos algoritmos cria a oportunidade de tomada de decisões em menor tempo, o que barateia o processo e garante um retorno sobre o investimento militar muito mais letal e cirúrgico. Isso não tem preço. Mortes são um detalhe não contabilizado.
Siga o dinheiro
A eficiência algorítmica é a face fantasma dos números da guerra. Para penetrar o espaço aéreo iraniano, os aliados utilizaram os caríssimos bombardeiros furtivos B-2 Spirit (2 bilhões de dólares por unidade) da Northrop Grumman e caças invisíveis F-35i “Adir” da Lockheed Martin, cujo custo de voo atinge 10.000 dólares por hora. Para atacar bunkers, os cofres americanos queimaram milhões lançando mísseis Tomahawk (2 milhões de dólares cada) da RTX e gigantescas bombas GBU-57 MOP (3,5 milhões de dólares a unidade) da Boeing. As estimativas são se sites especializados em armamentos.
A defesa do território também tem custo. Para conter os mísseis balísticos iranianos, Israel precisa disparar interceptadores de alta tecnologia, como o Arrow 3 e o David’s Sling. Cada lançamento custa entre 700 mil dólares e 4 milhões de dólares, podendo consumir até 200 milhões de dólares diários apenas para proteger os céus, transformando a linha de produção da RTX em um ponto de estrangulamento estratégico.
É exatamente para reverter essa assimetria que a IA autônoma foi invocada no campo tático. Como um alívio financeiro, os EUA estrearam no conflito as munições LUCAS (Low-Cost Unmanned Combat Attack System). Operando como enxames autônomos inspirados nos drones kamikazes Shahed-136, essas pequenas aeronaves controladas por algoritmos custam irrisórios 35 mil dólares por unidade. Lançadas em massa para saturar e destruir radares iranianos sem intervenção humana contínua, elas representam o futuro definitivo do combate.
A guerra do Irã prova a cada relatório, ação e disparo, que a Inteligência Artificial transcendeu a análise de dados. Hoje, ela é o elemento que dita as vitórias táticas e, fundamentalmente, assegura que o negócio da guerra e da destruição continue sendo altamente escalável e lucrativo. O resto, bem, como diz a gíria, o resto que se exploda.
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