Mundo
Guerra no Oriente Médio se intensifica com ataque de Israel ao Líbano
As autoridades libanesas contabilizam ao menos 31 mortes
A guerra no Oriente Médio foi ampliada nesta segunda-feira 2 ao Líbano, com ataques de Israel em represália a disparos do movimento islamista pró-iraniano Hezbollah, no terceiro dia de conflito regional após os ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã.
A República Islâmica contra-atacou desde o início da ofensiva, tomando como alvo as bases militares americanas e o território israelense. Os mísseis do país, no entanto, também atingiram infraestruturas civis, como edifícios residenciais, hotéis, refinarias, portos e aeroportos em várias monarquias do Golfo consideradas um refúgio de paz no Oriente Médio.
A guerra provocou cenas de caos aéreo, com centenas de voos cancelados, e deixou o estratégico Estreito de Ormuz praticamente paralisado, além de gerar uma disparada dos preços do petróleo e do gás.
Apesar dos ultimatos do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a Guarda Revolucionária, o exército ideológico iraniano, anunciou nesta segunda-feira ataques contra o gabinete do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e contra o quartel-general do comandante da Força Aérea.
Bombardeios com ‘centenas de aviões’
O Exército israelense afirmou um “ataque de envergadura no coração de Teerã” e bombardeios simultâneos “com centenas de aviões” no Irã e também no Líbano.
O porta-voz militar, Effie Defrin, advertiu que o Hezbollah pagará “caro” por lançar “uma salva de mísseis e de drones” contra Israel para vingar a morte do líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, na operação das forças americanas e israelenses.
O Exército israelense anunciou que matou o chefe dos serviços de inteligência do grupo, Hussein Moukalled, e que também busca o líder do movimento, Naim Qassem.
Este foi o primeiro ataque do Hezbollah a Israel desde o cessar-fogo de novembro de 2024, que acabou com mais de um ano de guerra entre as partes.
O governo libanês, que não deseja ver o país arrastado para o conflito, proibiu as atividades militares do Hezbollah e ordenou que o grupo entregue as armas.
Jornalistas da AFP ouviram fortes explosões em Beirute durante a noite e observaram a fuga de muitas famílias do sul do país, algumas delas com colchões amarrados ao teto de veículos.
As autoridades libanesas anunciaram um balanço de pelo menos 31 mortos. No Irã, o Crescente Vermelho local afirmou que pelo menos 555 pessoas morreram desde o início da guerra.
A AFP não conseguiu verificar os números de vítimas com fontes independentes.
Para vingar a morte de Khamenei e de vários dirigentes da República Islâmica, Teerã lança mísseis contra diversos países da região, incluindo vários que abrigam bases americanas.
No Kuwait, uma coluna de fumaça era observada na embaixada dos Estados Unidos e três aviões militares americanos caíram, sem provocar vítimas, devido a um erro das defesas antiaéreas locais.
Explosões sacodem há três dias cidades como Doha, Abu Dhabi e Dubai. Mas também atingem infraestruturas de energia, como uma gigantesca refinaria de petróleo saudita ou instalações de gás no Catar, que forçaram a suspensão da produção de gás natural liquefeito.
‘Muitos dias’
Nada indica que as armas serão silenciadas. Israel afirma que a operação no Irã vai durar “o tempo que for necessário”. O Exército do país afirmou que os ataques no Líbano podem prosseguir por “muitos dias”, mas, no momento, não vê motivos para uma “invasão”.
Em uma entrevista ao jornal New York Times, o presidente americano, Donald Trump, afirmou que a operação durará “quatro ou cinco semanas” e prevê mais baixas, além dos quatro militares americanos mortos em combate.
A guerra no Oriente Médio atingiu nesta segunda-feira o território europeu. Dois drones direcionados contra uma base britânica no Chipre foram interceptados, informou o governo cipriota.
Em um comunicado conjunto, França, Reino Unido e Alemanha ameaçaram adotar “medidas defensivas” para proteger seus interesses e os dos “aliados na região”, além de “destruir a capacidade do Irã de “lançar mísseis e drones”.
Três ‘opções’
O futuro do Irã é uma incógnita. Trump declarou ao NYT que tem “três opções muito boas” para governar o Irã, mas afirmou que não revelaria os nomes “no momento”. Atualmente, o país é comandado por um triunvirato de forma provisória, à espera, segundo Teerã, da eleição do sucessor de Khamenei.
O Irã nomeou nesta segunda-feira um general da Guarda Revolucionária, Majid Ebnelreza, como ministro interino da Defesa, após a morte de seu antecessor nos ataques dos Estados Unidos e de Israel.
Em uma mensagem em vídeo, o presidente americano voltou a conclamar a Guarda Revolucionária e a “polícia militar” a “depor as armas” em troca de imunidade total ou, caso contrário, “enfrentar uma morte certa”.
“Não negociaremos com os Estados Unidos”, respondeu na rede social X o poderoso chefe do Conselho Supremo de Segurança Nacional iraniano, Ali Larijani.
Poucas horas depois, Larijani afirmou que o “Irã, ao contrário dos Estados Unidos, se preparou para uma guerra longa”.
Sem limite
Muitos iranianos comemoraram a morte de Khamenei, mas o anúncio do falecimento do líder supremo também provocou manifestações de protesto.
“Compreendemos que não há absolutamente nenhuma forma de reformar este regime sem uma intervenção estrangeira”, declarou à AFP uma moradora de Teerã. “Tomaram o povo iraniano como refém”, acrescentou a mulher na faixa dos 30 anos, que pediu anonimato.
Em janeiro, o regime reprimiu com extrema violência um grande movimento de protesto. Segundo várias ONGs, milhares de pessoas morreram na repressão.
O conflito bélico tem efeitos colaterais. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, disse que teme a escassez de munições essenciais para conter os ataques russos caso a guerra no Oriente Médio dure muito tempo.
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