Mundo

Como foi o 1º dia da ofensiva dos EUA e Israel contra o Irã

Forças israelo-americanas lançam ampla ofensiva contra o Irã, que responde com ataques a Israel e países do Golfo. Trump mira mudança de regime, e morte do aiatolá Ali Khamenei é confirmada

Como foi o 1º dia da ofensiva dos EUA e Israel contra o Irã
Como foi o 1º dia da ofensiva dos EUA e Israel contra o Irã
Segundo o Crescente Vermelho, foram registrados ataques a 24 das 31 províncias do Irã. Foto: Atta Kenare/AFP
Apoie Siga-nos no

Forças militares dos Estados Unidos e de Israel lançaram na manhã do sábado 28 uma ampla campanha aérea contra o Irã, numa operação batizada como “Fúria Épica” por Washington e que logo passou a incluir alvos em dezenas de províncias do país persa.

Na noite de sábado, o braço iraniano da organização Crescente Vermelho contabilizava cerca de 200 mortes em todo o Irã.

Horas após o início da ofensiva, o governo israelense sugeriu que o líder do regime teocrático do Irã, Ali Khamenei, teria sido morto na primeira salva de ataques. Pouco depois, foi a vez do presidente dos EUA, Donald Trump, afirmar explicitamente que Khamenei havia sido morto. “Khamenei, uma das pessoas mais maléficas da história, está morto”, disse Trump.

Horas depois, a mídia estatal do Irã confirmou a informação, após membros do regime passarem o dia tentando espalhar desmentidos.

O regime iraniano respondeu à ofensiva com o lançamento de mísseis contra Israel e bases militares dos EUA na região. Alguns dos mísseis atingiram zonas civis em diversos países do Golfo, como em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.

Como a ofensiva começou?

No início da manhã, o ministro da Defesa israelense, Israel Katz, anunciou que seu país estava iniciando uma série de “ataques preventivos” contra o Irã. Explosões foram ouvidas em Teerã a partir de 9h30 no horário local (3h10 em Brasília). Logo imagens passaram a mostrar colunas de fumaça sobre a capital e relatos davam conta de ataques em províncias.

Israel também declarou estado de emergência e sirenes soaram pelo país enquanto o governo alertava seus cidadãos a permanecerem em áreas protegidas.

Pouco depois, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, confirmou que as ações faziam parte de uma ampla ofensiva conjunta israelo-americana.

Durante a tarde, imagens captadas por satélites mostraram danos no complexo residencial e governamental do líder supremo Ali Khamenei. Segundo os israelenses, o complexo foi atingido por forças do país logo nas primeiras ações da ofensiva.

De acordo com as Forças de Defesa de Israel, 200 aeronaves do país atacaram 500 alvos no Irã.

Já os Estados Unidos haviam concentrado nas últimas semanas no Oriente Médio uma imensa força militar, a maior deslocada para a região desde a invasão do Iraque, em 2003.

Ao longo do dia, se multiplicaram relatos de amplos ataques no Irã. Segundo o Crescente Vermelho, foram registrados ataques a 24 das 31 províncias do Irã.

Na cidade de Minab, no sul do país, um ataque israelense atingiu uma escola primária para meninas, matando dezenas de escolares, noticiou a mídia estatal do regime. A informação não pôde ser verificada de forma independente.

Quais são as justificativas para o ataque?

Em sua primeira declaração na manhã de sábado, Katz disse que seu país havia “lançado um ataque preventivo contra o Irã para eliminar ameaças”

Pouco mais de uma hora depois, Trump postou um vídeo afirmando que o objetivo da ofensiva era “defender o povo americano, eliminando ameaças iminentes do regime iraniano”. Ele também explicitou que a ofensiva mirava a marinha iraniana e os programas nuclear e de mísseis do país.

“Vamos destruir seus mísseis e arrasar sua indústria de mísseis. Ela será totalmente destruída novamente. Vamos aniquilar sua marinha. Vamos garantir que os representantes terroristas da região não possam mais desestabilizar a região ou o mundo e atacar nossas forças”, disse Trump. “E vamos garantir que o Irã não obtenha uma arma nuclear.”

O Irã sempre declarou que seu programa nuclear é inteiramente pacífico e que não busca obter armas atômicas. No ano passado, após a guerra de 12 dias entre o Irã e Israel em junho, Trump já haviam declarado que os EUA haviam “obliterado” as principais instalações nucleares do Irã e que o regime fundamentalista não seria capaz de construir armas nucleares em um futuro próximo.

Queda do regime

Neste sábdo, Trump disse aos membros das forças armadas do Irã que eles poderiam depor as armas e receber “imunidade total” ou “enfrentar a morte certa”.

Ele também exortou os civis iranianos a se levantarem contra o regime. “Quando terminarmos, assumam o controle do seu governo. Ele será seu. Esta será provavelmente sua única chance por gerações.”

O premiê de Israel, Benjamin Netanyahu, fez declarações semelhantes. “Nossa ação conjunta criará as condições para que o corajoso povo iraniano assuma o controle de seu próprio destino”, disse.

Ele também mencionou as etnias que compõem o Irã. “Chegou a hora de todas as partes do povo iraniano – persas, curdos, azeris, balúchis e ahwazis – se livrarem do jugo da tirania e construírem um Irã livre e em busca da paz.”

Como o Irã respondeu?

O Ministério do Exterior do Irã prometeu que seu país responderia “com firmeza” aos ataques americanos e israelenses. Pouco depois do início da ofensiva israelo-americana, mísseis e drones iranianos começaram a ser disparados contra Israel e bases dos EUA em países aliados na região.

Os ataques retaliatórios iranianos ao longo do dia incluíram toda uma faixa do Oriente Médio, com explosões relatadas no Bahrein, Síria, Iraque, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Arábia Saudita.

Os Emirados Árabes Unidos afirmaram que 137 mísseis e 209 drones foram lançados contra o seu território a partir do Irã.

Em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, explosões foram observadas em áreas civis, incluindo o principal aeroporto, o segundo mais movimentado do mundo, e na Palm Jumeirah, a ilha artificial em formato de palmeira da cidade. Centenas de voos foram cancelados em Dubai.

No Bahrein, um edifício residencial foi alvo de uma forte explosão. O Irã confirmou ter atacado o quartel-general da 5ª Frota da Marinha dos EUA em Manama, a capital do arquipélago. Esse comando é responsável por garantir a segurança das rotas marítimas ao redor do Oriente Médio, que é uma região rica em petróleo.

Segundo o governo de Israel, mais de cem drones e mísseis iranianos foram disparados contra seu território. Em Tel Aviv foi registrada a morte de uma pessoa.

O governo da Jordânia, por sua vez, afirmou que interceptou mais de quatro dezenas de mísseis e drones iranianos sobre seu território.

Qual é a situação do regime iraniano?

O regime iraniano entrou na guerra já fragilizado, tanto no plano militar quanto econômico e social. Nos últimos dois anos, Teerã viu aliados como os grupos Hezbollah e Hamas serem seriamente enfraquecidos por ataques israelenses na esteira da guerra na Faixa de Gaza. Além disso, o regime fundamentalista não contava mais com seus antigos aliados na Síria, derrubados em 2024 por rebeldes.

Impopular entre grande parte de população iraniana e castigado por uma crise econômica, o regime também foi alvo de intensos protestos no início do ano, que foram reprimidos com ferocidade.

No plano militar, o governo de Teerã também já havia dado sinais de fragilidade, especialmente após a guerra de 12 dias lançada por Israel em junho de 2025, que expôs deficiências nas defesas aéreas iranianas.

Para especialistas, Israel e os Estados Unidos calcularam que o regime islâmico estava enfraquecido e que esta era a oportunidade ideal para uma ampla ação militar.

Morte de Khamenei

Na noite de sábado, Trump declarou que Khamenei foi morto na ofensiva militar israelo-americana.

Mais cedo, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, já havia sugerido que havia indícios de que Khamenei, de 86 anos, havia sido morto. A imprensa israelense também citou membros do governo israelense que haviam comentado que o líder supremo havia morrido mais cedo num ataque ao seu complexo residencial em Teerã e que seu corpo havia sido recuperado entre os destroços.

Membros do regime iraniano passaram horas tentando desmentir as informações, mas na madrugada deste domingo a mídia estatal do país finalmente confirmou que o líder tinha mesmo morrido.

Segundo a agência AFP, notícias sobre a morte de Khamenei estavam provocando celebrações na capital, Teerã.

Já as Forças de Defesa de Israel afirmaram ter “eliminado” a liderança de defesa do regime iraniano numa “salva inicial” de ataques.

De acordo com as IDF, a lista inclui Ali Shamkhani, conselheiro para assuntos de segurança, Mohammad Pakpour, comandante da Guarda Revolucionária Iraniana, e Aziz Nasirzadeh, ministro da Defesa, entre outros.

Outro personagem influente que não havia sido mais visto até a noite de sábado era o presidente do Irã, Massoud Pezeshkian. A sede presidencial do Irã, em Teerã, também foi alvo dos ataques deste sábado.

Na mensagem na qual afirmou que Khamenei havia sido morto, Trump instou setores do regime iraniano a buscarem colaborar com os EUA, prometendo imunidade caso decidam não resistir. “Esse processo deve começar em breve, pois não só Khamenei morreu, mas o país foi, em apenas um dia, muito destruído e até mesmo obliterado.”

Quais foram as reações na comunidade internacional?

A Rússia denunciou os ataques contra o Irã como uma “aventura perigosa” que ameaça o Oriente Médio com uma “catástrofe”. Segundo o seu Ministério do Exterior, a ação busca destruir o governo iraniano, “que tem se negado a se submeter ao ditado da força e do hegemonismo”.

A China, por sua vez, pediu um “cessar imediato das ações militares” e urgiu “que se evitem futuras escaladas das tensões”.

O governo brasileiro condenou e expressou “grave preocupação” com os ataques lançados contra o Irã. “O Brasil apela a todas as partes que respeitem o Direito Internacional e exerçam máxima contenção, de maneira a evitar a escalada de hostilidades e a assegurar a proteção de civis e da infraestrutura civil”, declarou o Ministério das Relações Exteriores.

Numa declaração conjunta da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e do presidente do Conselho Europeu, António Costa, ambos pediram “a máxima moderação” a todas as partes e a garantia da “segurança nuclear”.

Já Alemanha, a França e o Reino Unido afirmaram que “condenam os ataques iranianos aos países da região” e apelaram à retomada das negociações entre os EUA e o Irã. A declaração não comentou os ataques iniciais dos EUA e de Israel ao Irã mais cedo neste sábado.

Os três países europeus afirmaram que Teerã “deve abster-se de ataques militares indiscriminados”. “Apelamos à retomada das negociações e instamos a liderança iraniana a buscar uma solução negociada. Em última análise, o povo iraniano deve ter o direito de determinar seu futuro”, afirmaram.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, por sua vez, condenou “a escalada” da violência e pediu “o cessar imediato das hostilidades”.

ENTENDA MAIS SOBRE: , , , , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.

O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.

Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.

Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.

Quero apoiar

Leia também

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo