Roberto Amaral

robertoamaral@cartcapital.com.br

Cientista político, ex-ministro da Ciência e Tecnologia e ex-presidente do PSB. Autor de História do presente- conciliação, desigualdade e desafios (Editora Expressão Popular e Books Kindle)

Opinião

Quando o recuo vira destino

Nós, brasileiros, supondo-nos grandes e poderosos, não identificamos como ameaça o isolamento para o qual caminhamos na América do Sul

Quando o recuo vira destino
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“A inação diante de Cuba repete o erro fatal de Munique: apaziguar o agressor só adia a guerra e a torna mais devastadora — a história não perdoa os que se calam diante do fascismo renascente.” 

Gabriel Cohn (Cuba, a Espanha no século XXI)

Em 1938, regressando de Munique, aonde fôra negociar com Adolf Hitler, o primeiro-ministro Neville Chamberlain declara ao Parlamento britânico haver conquistado o que denominava como “a paz para o nosso tempo”. Enganado ou não, enganava os ingleses e despistava o mundo, em especial o mundo europeu, mal saído da Primeira Guerra Mundial e já se vendo ameaçado por um novo conflito para o qual não estava preparado, como se veria logo depois. 

Eram tempos de medo, dominados pela retórica do pacifismo para enfrentar as ameaças do rearmamento alemão comandado pela ascensão do nazifascismo. Ao entregar os Sudetos (parte da então Tchecoslováquia) à Alemanha como compensação pela promessa de Berlim de não reivindicar mais territórios (mote da doutrina do “espaço vital”, que tudo justificava), a monarquia decadente aplainava os avanços das tropas de Hitler: o “acordo de paz” é firmado em 1938 e, já em 1939, a Polônia era invadida. Avança a guerra que a Inglaterra, não podendo enfrentar, tentava evitar, simplesmente ignorando a agressão que vinha a galope.

É história contada. Aquele não era, porém, o primeiro recuo, nem seria o último registro nos conflitos do século passado e nos conflitos de nossos dias, ensinando que nem sempre a estratégia do passo atrás, anunciando outro passo atrás, é a melhor arte da guerra dos que se veem ameaçados por agressores mais poderosos. O agressor sempre avança onde há menor custo. Como ensinavam os argonautas, “navegar é preciso”.

Quando se entrega tudo, ou quase tudo, chega-se a um ponto em que não há nada mais a entregar, nem mais ninguém para resistir, como lembra Bertolt Brecht: “Primeiro levaram os comunistas… Depois os social-democratas… Depois vieram me levar, e não havia mais ninguém para protestar”. O silêncio da comunidade internacional em face da política dos EUA não é neutro. A indiferença ante a dor de suas vítimas, países e povos é escolha.

Em 1936, a “Frente Popular”, liderada por Léon Blum, com forte apoio socialista e comunista, aderiu à política de “não intervenção”, fechando oficialmente a fronteira com a Espanha, temerosa da desestabilização interna que via em seus calcanhares, a tiracolo da Segunda Guerra Mundial. Essa foi sua contribuição para a vitória do franquismo. Caso isolado foi a intervenção cautelosa, mas real, da URSS, ao lado dos republicanos. 

Na mesma linha de omissão, os EUA — nada obstante nutrirem simpatias com o governo republicano (ou ainda enxergarem as implicações do enclave fascista na Europa ibérica às vésperas da grande guerra já anunciada) — enclausuram-se na política isolacionista que vinha da Primeira Guerra Mundial. Era o receio de reações internas, especialmente congressuais.

Guernica não é obra exclusiva dos bombardeios alemães, assim como o genocídio palestino — ainda em curso — não é, tão só, o fruto do crime continuado perpetrado pelo sionismo israelo-estadunidense, tanto quanto os tantos crimes que se cometem contra o povo cubano, desde a revolução de 1959, não se podem contar apenas como engenho e paranoia do imperialismo norte-americano. 

O que a humanidade – nossos povos, nossos governos, nossos partidos, cada um de nós — está fazendo para defender suas vítimas? 

Todas as ditas democracias, todos os governos ditos de esquerda e centro-esquerda, todas as nossas organizações têm que assumir sua cota-parte de responsabilidade. Não há inocentes nesta guerra.

Retornemos a Munique, como recomendado por Gabriel Cohn. Começava, em 1939, após o fracasso do “acordo” e a invasão da Polônia, a Segunda Guerra Mundial — que seria vencida, como se sabe, ao preço que se sabe. Seguem-se, ao seu fim formal (1945), a Guerra Fria e a vitória do capitalismo, anunciada com a queda do Muro de Berlim e o melancólico suicídio do projeto socialista, com a autodissolução da URSS gorbatchoviana, em 1991. 

A polaridade Leste-Oeste, presente o fantasma do Armagedom nuclear, foi conduzida pelo que se chamou, primeiro, de “convivência pacífica” e, ao final, de “entente”, um xadrez de pesos e contrapesos entre as potências e seus projetos de domínio, que compreendiam a cartografia mais ou menos respeitada de suas respectivas áreas de influência e controle. Mesmo mantendo a tensão e as disputas geopolíticas e estratégicas, os dois blocos, ao tempo em que conservavam a acordada monitoria sobre o mundo, afastavam os riscos dos impasses diretos. 

São os muitos anos dos “conflitos por procuração”, a marca mais significativa da Guerra Fria, quando a violência — política, militar e ideológica — se desloca para a periferia, nomeadamente para a Ásia (e nada mais significativo do que a invasão do Vietnã pelos EUA), a África e o Oriente Médio. A América Latina, nela incluído o Caribe, conservava o destino de “quintal”, o fardo que sobre nós pesa desde os amargos tempos da Doutrina Monroe, agora reclamados por Peter Hegseth, secretário de Guerra (já não mais Defesa) dos EUA.

Com o colapso da URSS, o imperialismo, guerreiro sem adversário, livre de freio sistêmico, assume as rédeas do mundo desregulado. A diplomacia cede ao tacape. Regressamos, em termos planetários, ao regime do big stick

Desde logo, os EUA — nada do que estamos a assistir sob a fase trumpista pode ser considerado fato novo — confrangem a ordem estatuída em regras de direito internacional, levam à falência fática as organizações fundadas no pós-guerra com o frustrado objetivo de manter a paz e a segurança internacionais, caso exemplar da ONU. Retiram-se ou esvaziam agências multilaterais, como a UNESCO e a OMS, fragilizando mecanismos de cooperação internacional construídos ao longo de décadas.

A polaridade cede vez à hegemonia econômica, militar, política e ideológica do imperialismo norte-americano, o regime de hoje, belicoso, agressivo, sem limites para seu expansionismo, tanto inquestionado quanto facilitado pelo vazio da resistência.

Na paranoia do regime, ensandecido e mais perigoso quanto mais decadente, o “après moi le déluge” de Luís XV, ou, mais precisamente, a “Grande Alemanha” (Grossdeutschland) nazista, fundem-se no Make America Great Again (MAGA), o nexo entre o trumpismo (a contrapartida do fracasso do ensaio social-democrata) e o “destino manifesto” dos fundadores do “A América para os americanos”. Formulação que, hoje, mais do que nunca, deve ser vista em sua acepção mais ampliada possível: o espaço no qual Washington divise, imagine ou desconfie da sombra de uma ínfima partícula de interesse ou ameaça à sua integridade, na estrita lógica do diálogo do cordeiro com o lobo, consagrado na fábula de La Fontaine. 

À ausência de freios de qualquer ordem — freios morais, diplomáticos, geopolíticos, estratégicos, como aqueles que, no curso da polaridade e da Guerra Fria, condicionavam o belicismo das potências — os EUA, autoinstituídos xerifes do mundo, implantam a lei do “Velho Oeste”. Todos os seus reais, supostos ou inventados adversários são peles-vermelhas em tocaia contra o branco cristão e civilizador, selvagens sem cura e sem salvação, criminosos irrecuperáveis, que precisam ser eliminados. 

A Europa, nau sem rumo, navegando ao sabor dos acontecimentos nos quais não consegue intervir, carente de futuro, cuida de seu esvaziamento e da ameaça de balcanização. As potências nucleares com pretensões hegemônicas para amanhã cuidam de suas demandas. A Rússia, ameaçada pela OTAN e pelo cerco econômico-político dos EUA — que inclui o bloqueio de reservas em dólar, restrições comerciais e limitações às exportações de petróleo — tenta salvar-se de uma guerra de desgaste que, projetada para cumprir-se em poucos meses, entra em seu quarto ano. Pode ser seu Vietnã, ou seu novo Afeganistão. A China trabalha com o tempo há mais de quatro mil anos. Enquanto faz negócios mundo afora, pode esperar pelo fim do ciclo hegemônico dos EUA. É a nova “convivência pacífica”.

A série de crimes em desenvolvimento pelos EUA é extensa e está muito longe de concluir seu repertório. Fixemo-nos na América Latina, e o primeiro registro é o da invasão da Venezuela, transformada em protetorado sob a regência da Casa Branca, depois de ter seu presidente (não vem ao caso que seja)  sequestrado e transferido para uma prisão em NY. Antes, durante e depois, seu bloqueio aéreo e naval e, ao fim e ao cabo, o sequestro de suas reservas de petróleo.

Mas o que mais me toca é o garrote vil, extraordinariamente covarde, que ameaça matar de fome e doenças o povo cubano. Sim: o objetivo, hoje, não é mais destruir a resistência do regime tentativamente socialista, mas eliminar sua gente. A pequena Cuba, desde 1959, padece sob isolamento político e bloqueio econômico, invasões e sabotagens. Trata-se de estrangular a economia como forma de disciplinar um governo eleito como adversário, ainda que o custo recaia sobre a população.

Nós, brasileiros, supondo-nos grandes e poderosos, na ilusão da incolumidade, não identificamos como ameaça o isolamento para o qual caminhamos na América do Sul, nem consideramos como precedente perigoso a invasão da Venezuela. Lembrando, uma vez mais, Bertolt Brecht: nosso país não é socialista e nosso presidente não é acusado de traficante. Nada a temer.

***

Reacionarismo digital — É certo que nada se pode esperar dos ainda chamados jornalões brasileiros, cuja linha editorial (no singular, pois é uma só) reflete a mentalidade do patriciado aqui instalado. No entanto, não deixa de espantar que, numa mesma semana, a Folha de S. Paulo (em campanha contra a escala 5×2) alardeie que o trabalhador brasileiro é ocioso, valendo-se de dados enviesados, e O Globo, em editorial, xingue de “chantagem” a luta indígena que fez o governo Lula recuar, momentaneamente, da privatização de rios amazônicos. Parafraseando Millôr Fernandes, os grupos familiares de comunicação sediados no Brasil têm um grande passado pela frente…

*Com a colaboração de Pedro Amaral

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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