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Uma arma contra a opressão social

Hélio Pellegrino foi um dos primeiros psicanalistas do País a entrar no debate político e levar sua prática para a periferia

Uma arma contra a opressão social
Uma arma contra a opressão social
Pellegrino lutou em várias frentes contra a ditadura – Imagem: Acervo/IMS-SP
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A história da psicanálise brasileira é, em larga medida, marcada por compromissos de classe.

Em um belo estudo sobre a formação das sociedades de psicanálise no Brasil, lançado há alguns anos, Psicanálise e Ditadura (1964–1985): História, Clínica e Política (Editora Perspectiva, 448 págs., 129,90 reais), Rafael Alves lembra como a grande maioria dos psicanalistas brasileiros, nos anos 1960 e 1970, vinha das famílias urbanas abastadas e das oligarquias rurais.

Seria abstração imaginar que tal procedência não fosse redundar em uma psicanálise que pensava o Brasil em chave de modernização conservadora, perguntando-se como a “desordem familiar”, a “carência paterna” ou o “déficit institucional” seriam causas de uma sociedade pretensamente afundada no atraso e na letargia.

Nesse sentido, não é estranho descobrir que a psicanálise cresceu na época da ditadura e que descobrimos, nessa mesma época, psicanalistas trabalhando em centros de tortura.

Tampouco é estranho constatar a enorme dificuldade que a psicanálise brasileira teve para entender a racialização como matriz fundamental de sofrimento psíquico entre nós, mesmo que psicanalistas tenham tido papel importante na constituição de políticas públicas de saúde mental.

Por isso, a publicação de textos de Hélio Pellegrino (1924–1988) reveste-se de uma importância que não pode ser relativizada.

Figura de exceção no cenário psicanalítico brasileiro, Pellegrino foi aquele que praticamente inaugurou entre nós a figura do psicanalista público, esse que entra não apenas nos debates de sociedade e de costumes, mas também na discussão política, agindo politicamente tanto na clínica quanto fora dela.

A Burrice do Demônio. Hélio Pellegrino. Editora Rocco (304 págs., 89,90 reais)

Foi Pellegrino quem criou as Clínicas Sociais de Psicanálise, que visavam levar a escuta psicanalítica para classes economicamente desfavorecidas, recuperando um modelo clínico que encontramos na Viena dos anos 1930, com Wilhelm ­Reich (1897–1957), ou na Argentina dos anos 1960, com Maria Langer (1910–1987) e o Grupo Plataforma.

Foi ainda Pellegrino o homem preso por enfrentar a ditadura e lutar em várias frentes contra o regime. Por essas e outras, ele forneceu um capítulo brasileiro importante naquilo que devemos chamar de “história popular da psicanálise”.

Desde seu início, a psicanálise tem uma dupla cabeça. A primeira olha para sua inserção social enquanto prática de adaptação a horizontes normativos em colapso. Ela se alegra em ser uma prática de escuta das elites globais em sua tentativa de lidar melhor com os males que as afligem.

Essa cabeça está entre nós até hoje, ainda mais neste momento, no qual a psicanálise é convocada para, mais uma vez, ocupar espaços no debate da cultura, principalmente para promover a “escuta” em um mundo onde nos querem empurrar as lágrimas da pretensa “ausência de diálogo” que marcaria nossa época.

No entanto, sempre houve uma segunda cabeça que procurou vocalizar a consciência de que procurar adaptar sujeitos a uma sociedade doente é só uma maneira, ainda mais brutal, de adoecê-los. Essa segunda cabeça, muitas vezes, se voltou às periferias dos grandes centros para permitir que a psicanálise se tornasse uma arma contra uma ordem social opressiva.

Para entender como isso se deu no Brasil, o recém-lançado A Burrice do Demônio, de Hélio Pellegrino, é um documento importante.

O livro é uma compilação de textos escritos pelo autor para a imprensa brasileira, de 1968 a 1988. Nele, encontramos, primeiro, um psicanalista que levanta sua voz contra a tortura – e cabe aqui lembrar que, há não muito tempo, vimos psicanalistas renomados relativizando a tortura para casos onde “torturar um poderia salvar a vida de muitos”.

Encontramos ainda um profissional que tem um vínculo profundo com as dimensões mais progressistas da Teologia da Libertação e com a crítica social marxista. Ele era alguém que podia ir à imprensa criticar o conservadorismo reacionário de João Paulo II e terminar o artigo lembrando que “o prazer nos livra da loucura”.

Não faz sentido esperar um “pacto edípico” em uma sociedade incapaz de promover um pacto social integrador de classes desprivilegiadas

Esses textos guardam as marcas de sua época, por isso são um documento histórico tão significativo. Eles têm o tom da época, com tudo o que isso pode significar. Mas, principalmente, eles mostram um psicanalista público em sua tentativa de utilizar a prática clínica e a teoria para pensar um país que lutava pela redemocratização.

Nessa luta, Hélio Pellegrino encontrava os mesmos núcleos reacionários que agora afloram com força. Contra eles, o psicanalista apostava na mobilização da religião como força transformadora. Uma aposta, ao mesmo tempo, bela e arriscada.

O conjunto de escritos nos mostra também um psicanalista engajado na busca pela construção de um pensamento sobre a produção cultural de seu tempo, em contato constante com a literatura e as artes visuais.

Pellegrino não temia assumir posições que, certamente, “dividiam”, e lembrava o quanto não fazia sentido esperar alguma forma de “pacto edípico” de restrição de impulsos (principalmente os violentos e destrutivos) em uma sociedade que não era capaz de prometer nenhum pacto social integrador de classes desprivilegiadas.

Nesse contexto, não cabia à psicanálise ser alguma versão fracassada de contenção de danos, mas uma das vozes mais duras a lembrar à sociedade as promessas que ela não realizou e o sofrimento que ela teima em não cessar de produzir. •

Publicado na edição n° 1402 de CartaCapital, em 04 de março de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Uma arma contra a opressão social’

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