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Fardo ou dádiva?

Estudo comprova que a presença de imigrantes é benéfica para a economia dos Estados Unidos

Fardo ou dádiva?
Fardo ou dádiva?
Protestos contra a política migratória de Trump se espalham pelos EUA. Foto: Dimitar DILKOFF / AFP
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Governos europeus de extrema-direita têm adotado políticas restritivas à entrada e permanência de estrangeiros, utilizando argumentos populistas que associam criminalidade e dificuldades econômicas à presença de imigrantes ilegais. É nesse tipo de narrativa que também se apoia o governo Trump, ao implementar medidas anti-imigração nos Estados Unidos.

Trump tem associado os estrangeiros a ameaças terroristas e os acusa de drenar recursos públicos que, em sua visão, deveriam ser destinados prioritariamente aos norte-americanos. No entanto, a violência empregada na repressão aos imigrantes já resultou em mortes até de cidadãos natos, e tais atos extremos começam a ser cada vez mais rechaçados pela população.

Análises mais criteriosas indicam que, ao contrário do defendido por discursos simplistas, reducionistas e tendenciosos, a presença de imigrantes tem se mostrado altamente benéfica para a economia estadunidense. É o que aponta um estudo divulgado no início de fevereiro pelo Cato Institute, uma das instituições de pesquisa mais respeitadas dos EUA.

No artigo “Efeitos Recentes dos Imigrantes nos Orçamentos Governamentais: 1994–2023”, os pesquisadores avaliaram os impactos fiscais de imigrantes, legais e ilegais, ao longo de três décadas nos orçamentos federais, estaduais e locais, com o objetivo de determinar como esses estrangeiros influenciaram a dívida pública. Segundo o levantamento, eles reduziram o déficit dos EUA em quase um terço, em termos reais.

O superávit fiscal gerado por todos os imigrantes no país, entre 1994 e 2023, foi de 14,5 trilhões de dólares. Sem a presença deles, o déficit teria atingido 48 trilhões de dólares. Ao contrário do que se propaga, esses indivíduos pagam mais impostos do que recebem em benefícios governamentais.

É preciso salientar ainda, como bem destaca o trabalho do Cato Institute, que parte do orçamento dos EUA é composta de bens públicos que envolvem o setor militar e o pagamento de juros de dívidas que precedem a entrada dos imigrantes. Tais custos não estão ligados ao crescimento populacional ocasionado pela chegada de estrangeiros.

Além disso, a taxa de desemprego tem aumentado a despeito da saída de imigrantes da força de trabalho. Dessa forma, cai por terra o argumento de que, com menos concorrência às vagas disponíveis, mais nativos se manteriam no mercado. A explicação para a queda da empregabilidade é lógica: mais deportações também implicam queda da demanda para as empresas, que assim produzem menos e passam a empregar menos gente.

Quando Trump fecha fronteiras, desvia criminosamente o foco de um problema realmente prioritário para o país: os níveis alarmantes da dívida pública norte-americana. O tema da imigração, evidentemente, exige muito mais do que um olhar superficial, excludente e indiferente aos direitos humanos, como o demonstrado pelo atual presidente dos EUA. Trata-se de um desafio que requer estratégia, propósito e coragem, como recentemente demonstrou o premier da Espanha, Pedro Sánchez.

Na contramão do endurecimento da política migratória europeia, Sánchez anunciou um plano para regularizar cerca de 500 mil estrangeiros residentes no país, em sua maioria latino-americanos. Trata-se, segundo a ministra de Inclusão, Segurança Social e Migrações, Elma Saiz, de um modelo baseado nos direitos humanos e compatível com o crescimento econômico. Como destacou o premier espanhol em um artigo para o New York Times, os governos que seguirem o receituário da extrema-direita fatalmente “recuarão para o isolamento, escassez, egoísmo e declínio”.

No texto, Sánchez afirma ser partidário de uma política que aproveite a capacidade dos imigrantes de contribuir para a prosperidade da sociedade espanhola, destacando que 80% do crescimento econômico da Espanha nos últimos seis anos e 10% das receitas da segurança social do país se devem aos movimentos migratórios. Para ele, abordar o tema a partir de uma perspectiva atenta à dignidade humana é uma questão de escolha. É lamentável que essa visão de bom senso não ressoe no horizonte limitado de outros governantes – ou, pior, seja deliberadamente ignorada por eles.

Em tempos em que tanto se difundem conceitos como economia colaborativa e globalização, é preciso entender com mais profundidade os desafios que os fenômenos migratórios representam, buscando soluções benéficas para todas as partes envolvidas. Fechar portas é fechar os olhos tanto para a realidade de imigrantes que buscam acolhimento como para as oportunidades que eles oferecem a quem os recebe. •

Publicado na edição n° 1402 de CartaCapital, em 04 de março de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Fardo ou dádiva?’

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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