Drauzio Varella

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Médico cancerologista, foi um dos pioneiros no tratamento da AIDS no Brasil. Entre outras obras, é autor de "Estação Carandiru", livro vencedor do Prêmio Jabuti 2000 na categoria não-ficção, adaptado para o cinema em 2003.

Opinião

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De novo, as canetas

Um novo estudo demonstra a relação entre o uso da tirzepatida e o menor risco de instalação definitiva da doença em pacientes pré-diabéticos

De novo, as canetas
De novo, as canetas
Foto: Marcos Santos/USP Imagens
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É difícil encontrar uma família sem nenhum caso de diabetes. É uma condição tão prevalente que as pessoas tendem a considerá-la uma fatalidade, espécie de preço a pagar pelos que insistem em viver mais.

A disponibilidade de medicamentos eficazes no controle da glicemia que permitem viver sem os sobressaltos do passado reforça essa imagem de doença comum, com a qual podemos conviver sem problemas.

Trata-se, no entanto, de uma condição sujeita a complicações graves: infarto do miocárdio, AVC, cegueira, feridas rebeldes que podem levar a amputações, hemodiálise e transplante de rim por insuficiência renal crônica, entre outras. Além disso, não é transtorno exclusivo da velhice. Sua incidência em pessoas mais jovens não para de aumentar.

O diabetes do tipo 2 – a apresentação mais comum – não costuma se instalar de forma abrupta, ou seja, num dia a glicemia de jejum está abaixo de 100, no outro já passou de 300. O aumento é, quase sempre, gradual. A piora depende da genética e de fatores como obesidade, consumo excessivo de doces e de ultraprocessados, sedentarismo, certos medicamentos, e até do estresse dos dias atuais.

Essa evolução lenta cria oportunidades para evitar ou, pelo menos, adiar a instalação do quadro. A maior parte dos pacientes vive uma fase intermediária que a literatura chama de pré-diabetes, na qual a glicemia de jejum fica entre 100 e 125 mg/dL e a hemoglobina glicada entre 5,6% e 6,9%, entre outros critérios diagnósticos.

Segundo a Sociedade Brasileira de Endocrinologia, há cerca de 20 milhões de brasileiros com diabetes, número que certamente subestima o total. Não há como saber quantas pessoas com glicemias de jejum acima de 126 andam pelas ruas sem sentir nada nem ter ideia de que já estão classificadas na faixa de diabetes.

Caro leitor, se o número dos que já apresentam a doença é difícil de estimar, imagine calcular quantos se encontram na faixa do pré-diabetes. Nos Estados Unidos, eles correspondem a 34,5% dos adultos – 90% dos quais desconhecem sua condição. Para dar ideia do risco que eles correm, os estudos mostram que 74% dos que caem na faixa de pré-diabetes desenvolverão a doença no decorrer da vida.

Para reduzir esse risco, as recomendações médicas têm sido as de adotar mudanças no estilo de vida e de administrar metformina, medicamento hipoglicemiante.

A relação íntima entre obesidade e diabetes tem levado à indicação das chamadas canetas emagrecedoras, para os que estão na faixa de pré-diabetes com a finalidade de prevenir a instalação definitiva da doença.

Num estudo publicado na revista médica de maior circulação, a The New ­England Journal of Medicine, foram analisados pacientes que faziam parte do estudo SURMOUNT-1, conduzido para avaliar o impacto da tirzepatida (nomes comerciais: Mounjaro e Zepbound) na perda de peso de mulheres e homens adultos.

Nesse estudo foi separado um subgrupo de 1.032 participantes com obesidade e pré-diabetes. A metade deles recebeu injeções de tirzepatida semanais, durante 176 semanas, seguidas por um período de 17 semanas sem nenhum tratamento. Os demais funcionaram como grupo-placebo.

Em três anos, 36 participantes (13,3%) do grupo-placebo desenvolveram diabetes do tipo 2. No grupo da tirzepatida, apenas dez participantes (1,3%) tiveram esse desfecho no mesmo período. A redução de risco do grupo tratado foi de 93%.

Dependendo das doses do medicamento empregadas, a perda de peso corpóreo variou de 12,3% a 19,7%. Como em outros estudos, houve recuperação parcial do peso perdido, durante o período de 17 semanas em que a medicação foi interrompida: 7% em média.

Antes da existência dessas drogas que estão revolucionando o tratamento da obesidade, o único recurso medicamentoso de que dispúnhamos para a prevenção do diabetes para os que estavam na faixa de pré-diabetes, era a metformina. Os resultados, entretanto, eram modestos.

A demonstração recente de que na fase na qual as glicemias de jejum estão entre 100 e 125 já podemos encontrar alterações discretas nas funções renal e cardiovascular que se agravarão caso o diabetes se instale, a tirzepatida e a semaglutida são boas opções para reduzir o peso corpóreo e os níveis de glicemia. •

Publicado na edição n° 1402 de CartaCapital, em 04 de março de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘De novo, as canetas’

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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