Maria Rita Kehl

Opinião

assine e leia

Maternidades

Cada mãe vivencia experiências tão singulares que é arriscado, ou mesmo temerário, falar delas no singular

Maternidades
Maternidades
Ato pela humanização do parto, em frente ao Hospital Maternidade Maria Amélia Buarque de Hollanda, no Rio de Janeiro
Apoie Siga-nos no

E importante escrever no plural: a experiência da maternidade não é a mesma para todas as mulheres, assim como a paternidade não é vivida da mesma forma pelos homens. ­Jacques Lacan, aquele pedante genial, dizia que as mulheres precisam ser compreendidas uma a uma. A diferença subjetiva entre elas torna impossível pensá-las no coletivo. Não sei se concordo integralmente com esse raciocínio, mas, no que se refere à maternidade, sim: essa experiência é realmente muito diferente para cada mulher.

Vejamos alguns exemplos, e começo pelo pior. Como será a experiência da maternidade para uma vítima de estupro? Algumas haverão de abortar, decisão que considero legítima. Outras, por questões religiosas, talvez se sintam obrigadas a levar a gestação até o fim. Infelizmente, com alguma frequência, mulheres que tiveram filhos de seus agressores, para não sofrer algum castigo divino, acabam por castigar, elas próprias, as pobres crianças indesejadas. Seria Deus um déspota incapaz de compreender os problemas enfrentados por suas criaturas? E o que dizer das mães impelidas a parir fetos anencéfalos, sem chance de sobreviver fora do ventre materno?

“Ser mãe é padecer no paraíso.” O ditado popular talvez tenha sua razão de existir: a chegada do bebê pode representar, para muitas mulheres, uma experiência paradisíaca e, ao mesmo tempo, dolorosa. De fato, padeci no nascimento de minha filha: urrava de dor no parto. Já na vez de meu filho, anos antes, a cesariana com anestesia poupou-me de sofrimento maior.

As experiências são tão distintas, mesmo quando nos referimos à mesma mulher, que não há mesmo como tratar a maternidade no singular. Cada mãe vivencia seus momentos de enlevo e de ­desamparo, até porque os bebês não chegam ao mundo com bula ou manual de instruções. É comum que uma mãe oscile entre a alegria intensa e a extrema impaciência, quando não a raiva, sobretudo quando o bebê não dá trégua no choro. Ah, as cólicas dos primeiros dias… que dificuldade em confortá-los nesse período!

Nessas ocasiões, é igualmente comum que as mulheres sejam acometidas por um forte sentimento de culpa. Sim, as mães são muito mais suscetíveis à culpa do que os pais: a cada pequeno erro no trato com o bebê, submetemo-nos a uma série de chibatadas morais.

Mães não podem errar? Penso exatamente o contrário: o pior que pode acontecer a uma criança é ter uma mãe impecável, “perfeita”. Ou, em termos psicanalíticos, “não castrada”. A fantasia de onipotência materna frequentemente dificulta a autonomia dos filhos e produz culpa naqueles que, eventualmente, precisam confrontar a mãe controladora.

Cada mulher pode experimentar múltiplas formas de maternidade ao longo da vida. Que o digam meus filhos: o mais velho encontrou em mim, ao menos nos primeiros tempos, uma “piloto de provas” inexperiente. Felizmente, pude contar com o auxílio luxuoso da avó dele, que adorava ter sido mãe – minha e de meus três irmãos. Graças a ela, tive enorme amparo. Minha filha, nascida de outro pai seis anos depois, teve desde os primeiros meses uma mãe melhor: menos aflita e um tiquinho mais experiente.

Evidentemente, a experiência da maternidade não se resume ao parto nem aos primeiros meses de vida dos filhos. Vai muito além, atravessada pelas lindas surpresas do crescimento – desde as primeiras palavras balbuciadas até os raciocínios, ora confusos, ora precisos, daqueles que começam a dominar a fala. Certa vez, depois de levar uma bronca, meu filho se afastou um pouco e, em seguida, voltou, alarmado: “Mãe, por que, quando você briga comigo, eu fico pensando que você vai morrer?” Eu o abracei, assegurei-lhe minha “imortalidade” e não lhe contei o pensamento que me ocorreu: talvez, magoado ou irritado pela bronca, ele não tenha conseguido evitar de pensar: “Eu quero que você morra!”

Imagino isso porque minha infância ficou marcada por discussões seriíssimas com meu pai. Ele tinha a generosidade de debater comigo “de igual para igual”. Sem repertório, é claro que eu perdia todas as contendas. Saía da sala humilhada, desejando a morte dele – e, nesse caso, não sentia culpa nem medo de que meu “desejo” se realizasse. O lugar do pai, em nosso inconsciente, é muito menos vulnerável que o da mãe. A não ser… no caso das mães onipotentes. Perigosíssimas: à sombra delas, dificilmente o embrião de um adulto autônomo consegue crescer.

P.S.: Mais tarde, um amigo riponga me ensinou a deitar meu filhote de bruços sobre minha barriga: o calor materno acalmaria as cólicas. Funcionou! •

Publicado na edição n° 1402 de CartaCapital, em 04 de março de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Maternidades’

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

ENTENDA MAIS SOBRE: , , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.

O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.

Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.

Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.

Quero apoiar

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo