Política
Benny Briolly de malas prontas para o PT
Primeira vereadora trans de Niterói, ela atribui a decisão de deixar o PSOL não a conflitos internos, mas a uma avaliação estratégica do cenário nacional
Primeira vereadora transexual da história de Niterói (RJ), Benny Briolly está de saída do PSOL, partido onde milita há 13 anos. A parlamentar se filiará ao PT no próximo mês, de olho em uma das 513 cadeiras da Câmara dos Deputados.
A mudança de sigla, disse a parlamentar em conversa com CartaCapital, não decorre de conflitos internos — embora admita ter enfrentado “problemas e perseguições políticas” ao longo da trajetória —, mas de uma avaliação estratégica do cenário nacional. Para Benny, o País vive um momento “decisivo” e exige a construção de uma frente ampla capaz de enfrentar o bolsonarismo e garantir a reeleição do presidente Lula.
Na avaliação da vereadora, a polarização política impacta diretamente os corpos dissidentes e as populações historicamente marginalizadas. “Derrotar o conservadorismo, enfrentar a extrema-direita e reconstruir direitos exige ampliar trincheiras”, declarou.
Ela defende que o PT, por sua capilaridade nacional e inserção em movimentos sociais e sindicais, reúne melhores condições para essa disputa. “Não é sobre sair de um lugar para outro. É sobre qual instrumento político é mais eficaz para enfrentar o fascismo, o racismo estrutural, a transfobia e a intolerância religiosa neste momento histórico”.
A pré-candidatura à Câmara, segundo Benny, também se insere em um projeto coletivo de ampliação da representação trans no Congresso Nacional. A vereadora defende a possibilidade de consolidar uma bancada trans pluripartidária de esquerda, com a reeleição de parlamentares como Erika Hilton (PSOL-SP) e Duda Salabert (PDT-MG), além da eleição de novos nomes. “Isso significa levar para Brasília as vozes que sempre foram silenciadas: a população trans, o povo de axé, as favelas, as mulheres negras, os corpos dissidentes que sobrevivem à violência do Estado todos os dias”.
Entre as prioridades do eventual mandato, Benny elenca políticas estruturantes de geração de emprego e renda para pessoas trans e travestis (sobretudo aquelas que hoje têm na prostituição a única alternativa de sobrevivência), fortalecimento do Sistema Único de Saúde, políticas de moradia, proteção às mulheres e à juventude periférica, além do combate ao racismo religioso.
Também está no radar o enfrentamento às milícias e à “máfia da cafetinagem”, temas que, segundo diz, atravessam diretamente a realidade de mulheres trans nas grandes cidades.
Na Câmara Municipal de Niterói desde 2021, Benny Brioli possui curso técnico em moda, é bacharel em Jornalismo na Uninove e tem 34 anos. Ingressou na política em 2013, quando se filiou ao PSOL, e chegou a assessorar a deputada federal Talíria Petrone quando ela exercia mandato de vereadora na cidade fluminense.
Após ser eleita, Benny passou a receber uma enxurrada de ameaças de morte, razão pela qual teve de sair do Brasil. Atualmente, a parlamentar integra o Programa de Proteção aos Defensores e Defensoras dos Direitos Humanos. Existem ao menos quatro inquéritos em tramitação na Polícia do Rio de Janeiro que investigam os responsáveis pelas intimidações, segundo a vereadora.
Troca de farpas entre diretórios
A possível filiação da vereadora expôs uma aparente divergência entre os diretórios estadual e municipal do PT. Enquanto executiva do partido no Rio, presidida por Diego Quaquá, informou ter chancelado o ingresso de Benny na última quarta-feira 25, a direção da legenda em Niterói, comandada por Edino Simeone, divulgou uma nota na qual diz não ter sido informada das tratativas.
No comunicado assinado pelo filho do prefeito de Maricá, Washington Quaquá, o diretório estadual diz que o aval à entrada da parlamentar em seus quadros ocorreu à luz do Estatuto do PT, “do programa partidário e do histórico compromisso do partido com a democracia, os direitos humanos e a justiça social”. O texto ainda diz que a possível filiação de Benny tende a contribuir para o fortalecimento da sigla no Rio.
“Os diretórios municipais exercem papel fundamental na vida partidária, mas não devem agir como protetorados individuais, submetendo o partido a interesses de grupos políticos, quaisquer que sejam. O PT pertence à sua militância e à classe trabalhadora brasileira, não a projetos individuais ou disputas localizadas”, completou Diego.
Já a representação partidária em Niterói afirmou ser “inaceitável” que as conversas estivessem ocorrendo à revelia da direção municipal. Segundo o diretório, trata-se de prática que desrespeita a “a organicidade partidária, o debate coletivo e os princípios democráticos que historicamente orientam o PT”. Ainda conforme o comunicado, nem mesmo a bancada de vereadores da sigla no município teria sido “comunicada ou ouvida” sobre as trativas.
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