Josué Medeiros

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Cientista político e professor da UFRJ e do PPGCS da UFRRJ. Coordena o Observatório Político e Eleitoral (OPEL) e o Núcleo de Estudos sobre a Democracia Brasileira (NUDEB)

Opinião

Empate entre Lula e Flávio na pesquisa Atlas não é motivo de alerta. Outros números, sim

Nesta altura do campeonato, simulações de 2º turno ainda são frágeis. Mas outros dados da pesquisa indicam o tamanho do desafio que a extrema-direita impõe à democracia brasileira

Empate entre Lula e Flávio na pesquisa Atlas não é motivo de alerta. Outros números, sim
Empate entre Lula e Flávio na pesquisa Atlas não é motivo de alerta. Outros números, sim
O presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro. Fotos: Ricardo Stuckert/PR e Vinicius Loures/Câmara dos Deputados
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Eleições 2026

O instituto AtlasIntel divulgou nesta quarta-feira 25 uma pesquisa eleitoral que acende alerta aos democratas: pela primeira vez, Flávio Bolsonaro (PL) aparece numericamente à frente de Lula no 2º turno. O candidato da ultradireita marca 46,3% contra 46,2% do atual presidente – um empate técnico mínimo dentro da margem de erro.

Não há motivo para pânico, até porque as simulações de 2º turno, nesta altura do campeonato, ainda são frágeis – falta muito tempo para o início de fato da corrida eleitoral. Mas, analisado em conjunto com outros dados da pesquisa, o dado serve sim de alerta sobre a força da extrema-direita e o perigo real que paira sobre a democracia brasileira.

A primeira dimensão preocupante é a da popularidade do presidente Lula e do governo. Lula segue com desaprovação maior que aprovação: 51,5% desaprovam sua gestão, contra 46,6% que a aprovam. Mais grave é a tendência: a aprovação caiu dois pontos em relação a janeiro de 2026. Na avaliação qualitativa, 48,4% consideram o governo ruim ou péssimo, enquanto 42,7% o classificam como ótimo ou bom — índice que despencou quase cinco pontos em um mês. O “regular”, por sua vez, cresceu 4,5 pontos. Há, portanto, um deslocamento de parte do eleitorado satisfeito para uma posição de hesitação.

É possível recuperar estes reticentes. Mas, para isso, é preciso entender o significado desses números. Parte da oscilação pode ser atribuída a fatores conjunturais, como a polêmica em torno da homenagem recebida por Lula no Carnaval do Rio. Ainda assim, o fenômeno é mais profundo.

Mesmo com todos os bons números da economia que se consolidaram em 2025 – crescimento da renda, inflação controlada, geração de emprego batendo recorde – com a melhora na Secom e com avanços em pautas populares, como o fim da escala 6×1, Lula segue mais desaprovado do que aprovado. E isso só pode ser compreendido a partir de elementos mais estruturais que convergem em favor da extrema-direita.

A polarização limita a conversão de boas notícias econômicas em capital político. Eleitores mais inclinados à direita simplesmente se recusam a associar a melhora dos indicadores às ações do governo. Ao mesmo tempo, crescimento e emprego não têm sido suficientes para produzir sensação difusa de bem-estar, diante de problemas cotidianos como mobilidade urbana precária, violência crescente e eventos climáticos extremos.

Atravessando tudo isso, há ainda a engrenagem das big techs e da dinâmica algorítmica, que reorganiza o debate público, intensifica conflitos e reforça percepções negativas sobre governos e sobre a própria democracia. Trata-se de um fenômeno global, que moldou disputas nas Américas e na Europa na última década e volta a incidir com força no Brasil.

É nesse contexto que a extrema-direita se reorganiza. Nas simulações de primeiro turno — mais eficazes para captar tendências — Lula ainda lidera nos três cenários testados pelo Atlas. Mas a vantagem diminuiu de forma. No melhor cenário de janeiro, a distância era de 13,8 pontos. Agora, caiu para pouco mais de sete. No cenário mais apertado, a diferença é de 5,6 pontos.

Flávio aumenta sua competitividade na medida em que se consolida entre a elite política e o eleitorado em geral como o sucessor de Bolsonaro. Isso permite que a extrema-direita retome sua organização partidária, decidindo palanques, e saia da defensiva socialmente, organizando sua tropa. A marcha organizada por Nikolas e a ofensiva que esse campo protagonizou nas redes por conta da homenagem a Lula no carnaval são exemplos disso.

Novas frentes já se desenham. Segurança pública deve ser um eixo central, com governadores de direita tensionando o debate por meio de agendas punitivistas. Na economia, temas como tributação de componentes tecnológicos podem ser explorados como bandeiras de desgaste.

O campo democrático e a esquerda precisam contra-atacar na mesma moeda. Politicamente, o presidente Lula vem consolidando palanques nos estados e atuando para dividir os partidos de direita, um movimento necessário para enfraquecer o palanque bolsonarista.

Essa dinâmica é insuficiente, contudo, sem a retomada de uma dinâmica de mobilização social e da unidade que marcou a retomada da popularidade de Lula no segundo semestre de 2025, marcada por temas como soberania nacional, rejeição à PEC da Blindagem e a campanha Congresso Inimigo do Povo.

É fundamental que a candidatura de Lula não se limite a defender os feitos do governo — como a ampliação da isenção do Imposto de Renda, a saída do Brasil do mapa da fome e a retomada do emprego e do crescimento econômico. Ela precisa apontar para a frente, incorporando a agenda de novos direitos, como o fim da jornada 6×1 e a implantação da Tarifa Zero no transporte público.

Para isso, o campo democrático e a esquerda terão de ir além da articulação institucional: será necessário aprofundar a unidade política, social e eleitoral e reconstruir a capacidade de mobilização.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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