Letícia Cesarino

Antropóloga, professora e pesquisadora na Universidade Federal de Santa Catarina. Autora de 'O Mundo do Avesso: Verdade e Política na Era Digital'

Opinião

O que esperar do cenário tecnopolítico em 2026

Desinformação, inteligência artificial e vácuo regulatório ameaçam um ano eleitoral decisivo para o Brasil

O que esperar do cenário tecnopolítico em 2026
O que esperar do cenário tecnopolítico em 2026
Mark Zuckerberg, CEO da Meta. Foto: Reprodução/Facebook
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Eleições 2026

Passado o Carnaval, retomamos esta coluna no alvorecer de um ano que promete ser crucial, e até mesmo um divisor de águas, no que se refere a temas tecnopolíticos. Nos últimos anos, boa parte dos eventos e tendências de relevo no Brasil e no mundo tiveram a ver com a imbricação entre a tecnologia e sociedade: da política à economia, da religião aos relacionamentos, da saúde às mudanças climáticas.

Isso não é fortuito: os ambientes digitais plataformizados produzem efeitos de desorganização do mundo offline que a literatura especializada chamou de colapso de contextos, reorganizando os sistemas sociais segundo sua própria lógica de dataficação, vigilância e economia da atenção.

Embora isso seja verdade desde o advento, há duas décadas, do que Shoshana Zuboff chamou de capitalismo de vigilância, a pandemia da covid-19 acelerou esses processos, desencadeando novos problemas tecnopolíticos e nos empurrando para um possível limiar de impasses históricos. Nosso propósito nessa coluna é lançar luz sobre as complexidades da recursividade entre tecnologia e sociedade hoje, e para isso começarei destacando cinco domínios tecnopolíticos que nos prometem um ano agitado, com desdobramentos ainda imprevisíveis.

A banalização das inteligências artificiais generativas promete aumentar a entropia de um ambiente digital onde evidências já significam muito pouco

Desinformação e negacionismo eleitoral

Nos últimos anos, a desinformação sobre pleitos eleitorais se aprofundou a ponto de ter se banalizado num negacionismo crônico: um espectro que ronda o cenário de toda e qualquer eleição em países democráticos, pronto para ser conjurado por perdedores pouco compromissados com o Estado de direito. Neste ano de 2026, atenção redobrada será dada não apenas às eleições brasileiras de outubro, mas às midterms (eleições de “metade do mandato”) nos Estados Unidos em novembro. Donald Trump e aliados próximos vêm dando sinais cada vez mais inequívocos de que esta não será uma eleição sem turbulências, o que poderá afetar diretamente o cenário nas eleições brasileiras, a depender da conjuntura da época.

No Brasil, possivelmente teremos uma atuação com mão leve da Justiça Eleitoral, não apenas pela futura composição do Tribunal Superior Eleitoral mas pelo fato de o Legislativo não ter avançado na regulação da responsabilidade das plataformas sobre os crimes e infrações reiteradamente cometidos em ambientes sobre os quais elas têm soberania praticamente exclusiva.

A banalização – ou poderíamos dizer, a quase imposição goela abaixo – das inteligências artificiais generativas junto ao público mais amplo promete aumentar a entropia de um ambiente digital onde evidências já significam muito pouco e usuários tomam decisões de forma pouco reflexiva e com base em convicções preexistentes. Algo que o filósofo canadense Brian Massumi chamou de fatos afetivos.

Assim, o caminho para as eleições presidenciais de 2026 escreverá mais um capítulo sobre os desafios tecnopolíticos que as plataformas colocam para a integridade da democracia no Brasil, e nos informará se o delicado arranjo construído para defendê-la em 2022 continua de pé.

A regulação de plataformas segue sendo uma pauta importante, mas a nova configuração catalisada pelo segundo governo Trump sugere que ela possa já ter sido parcialmente ultrapassada

Proteção de crianças e adolescentes

O vácuo regulatório que se consolidou como a infeliz regra no campo digital do Brasil tem como rara exceção o chamado ECA Digital, Lei nº 15.211/2025, sancionada em setembro de 2025. Trata-se da única regulação de escopo mais amplo que logrou avançar em um Congresso Nacional altamente permeável aos lobbies das grandes empresas de tecnologia e auto-interessado em manter os ambientes digitais como espaços de exceção. A proibição de celulares nas escolas em janeiro de 2025 foi outro passo importante, que não chegou nem perto de causar o alvoroço propalado por muitos no campo bolsonarista – mães, pais e cuidadores souberam reconhecer a importância da medida.

Entretanto, os riscos às crianças, adolescentes e outros sujeitos vulneráveis nas plataformas digitais parece prosseguir num ritmo muito mais acelerado que os poucos e lentos passos da legislação. A cada semana, vemos notícias de alguma nova restrição, em algum país do mundo, à idade mínima para acessar redes sociais e outras tentativas de mitigar, ou ao menos adiar, a exposição a esses riscos. Nos EUA, encontra-se em curso um julgamento histórico contra Meta e outras plataformas acionado por uma jovem que sofreu desde criança efeitos de um vício em tela que, esperamos, seja reconhecido pela justiça estadunidense pelo que todos já sabemos que ele é: feito por design.

Outros temas que atravessam a experiência digital de crianças e adolescentes e que podem manter ou ganhar relevância pública neste ano incluem bets e apostas digitais, maus-tratos e violência contra animais, abuso sexual infantil, riscos do excesso de pornografia online, saúde mental e violência auto-infligida, além de uma série de questões relativas à formação de personalidade e confusões entre o real e o ficcional.

Radicalização para além da política

Os termos radicalização e extremismo são muito associados a suas manifestações clássicas ligadas a ideologias políticas e religiosas, como o supremacismo branco e o jihadismo. Porém, isso também tem mudado rapidamente com a plataformização da internet. Em especial após a pandemia da covid-19, novas vertentes da radicalização online têm se destacado, como a radicalização misógina, o chamado niilismo violento extremista e a auto-radicalização junto a chatbots e outras câmaras de eco algorítmicas.

As áreas temáticas da radicalização também vêm se diversificando, extrapolando os domínios da política e da religião para incluir temas como gênero, saúde, economia e meio ambiente. Cada vez mais, qualquer um de nós está vulnerável a ser capturado num vórtex algorítmico de radicalização. As plataformas, tal qual existem hoje, são propiciadoras do que na cibernética poderíamos chamar de retroalimentação extremizante (runaway), que infla artificialmente a percepção dos usuários sobre crises e ameaças, impede a consolidação de uma relação estável e adaptativa com o ambiente, empurra trajetórias para posicionamentos cada vez mais extremos e reforça câmaras de eco cada vez mais auto-referenciais.

No mesmo sentido, os sujeitos-alvo têm se diversificado e se expandido para além do perfil típico de homens jovens solteiros, passando a incluir novas demografias como crianças, mulheres, pessoas idosas e até identidades minoritárias outrora vítimas de discursos e violências extremistas. Muitas dessas tendências mais recentes já ganharam tração em solo digital brasileiro, embora permaneçam em larga medida fora do radar da mídia mainstream. A radicalização de crianças e pré-adolescentes em círculos de abusos e violências auto- e alter-infligidas promete ser a grande patologia tecnopolítica neste campo em 2026.

A bolha da IA

 Entre os observadores da indústria tech e da sua atual obsessão com as Inteligências Artificiais, não resta muita dúvida de que está sendo cultivada uma das maiores bolhas tecnológico-financeiras jamais vistas na história do capitalismo financeiro. E no entanto, esta pode ter características diferentes de bolhas anteriores como a dot-com de 2001 e a bolha imobiliária de 2008. Se esta última envolveu o resgate governamental de grandes fundos e empresas que seriam “grandes demais para fracassar” (too big to fail), a crise da IA pode ter sido gestada de modo que as empresas e suas ramificações financeiras se tornassem “grandes demais para estourar” (too big to burst).

Não está claro quando, como e com quais consequências o estouro dessa bolha ocorrerá. Ela pode se parecer mais como um esvaziamento do que como uma explosão, ou pode seguir inflando a ponto de se imiscuir tanto com processos políticos, geopolíticos e outros setores econômicos que sua expressão não se parecerá com um estouro de bolha financeira convencional. Seguiremos acompanhando as várias facetas desse processo: da promiscuidade escancarada entre a indústria tech e o segundo governo Trump à relação ambivalente do público com as IAs e seus riscos emergentes; da corrida neocolonial pelos datacenters (e resistências a ela) aos esquemas financeiros “inovadores” sendo desenhados pela indústria; da preparação dos oligarcas do Vale do Silício para a exit (saída) da democracia à sua guerra existencial contra a China.

 Soberania digital

 Até recentemente, dizia-se que regular plataformas digitais era como trocar o pneu com o carro andando, dado o grau de aceleração do desenvolvimento tecnológico em comparação com o passo lento da burocracia legislativa e do debate público. Acredito não ser um exagero dizer que, hoje, nem essa metáfora faz mais sentido: é como se o carro já estivesse anos-luz à nossa frente – possivelmente porque seus fabricantes não fazem questão de que, se o pior acontecer, nós estejamos com eles lá dentro. Precisamos acordar para a realidade de que precisamos do nosso próprio veículo, por mais difícil que seja construí-lo sem contar, ainda, com nossas próprias fábricas.

A boa notícia é que, nesse esforço, não sairíamos tão do zero como a maioria das pessoas pensa. Desde os inícios da internet, sempre houve um repositório de criatividade e cultivo de tecnologias abertas e livres, fora do modelo hegemônico das big techs. Essa potencialidade ainda existe e pode ser revivida, diversificada e escalonada, se e quando governos, sociedade e setor privado nacional se reunirem num esforço compartilhado para garantir a soberania digital do povo brasileiro. Outro ponto promissor é o fato de outros países democráticos, notadamente na Europa, também terem se lançado nessa busca pela redução da dependência com relação às big techs.

A regulação de plataformas segue sendo uma pauta sem dúvida importante, mas a nova configuração tecnopolítica catalisada pelo segundo governo Trump sugere que ela possa já ter sido parcialmente ultrapassada pelos eventos. Seguiremos acompanhando as crescentes vulnerabilidades colocadas para países hiper-dependentes tecnologicamente como o Brasil, na medida em que as empresas de tecnologia nos parecem cada vez menos confiáveis, bem como publicizando as alternativas existentes e os esforços de ativistas, desenvolvedores, gestores e representantes políticos para avançar na pauta da soberania digital.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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