Fora da Faria
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Fora da Faria
Inteligência Artificial: você pode não usar, mas vai pagar
A infraestrutura de IA está sequestrando os componentes que deveriam ir para o seu novo celular ou para a sua máquina de lavar
Cansamos de ouvir que a popularização da IA é implacável e veloz. Que a enorme maioria da população já utiliza as ferramentas, de maneira consciente ou não. Mesmo que você ache que está distante da IA, você já está pagando por ela. O que começou como uma revolução tecnológica silenciosa nos centros de dados do Vale do Silício vai chegar à etiqueta de preço dos produtos eletrônicos. A chamada crise dos chips é uma ameaça, mas desta vez o vilão não é uma pandemia global ou um gargalo logístico, mas sim a demanda da Inteligência Artificial. A corrida para treinar modelos de linguagem cada vez mais potentes e sustentar a base de crescimento criou um fenômeno que economistas chamam de crowding-out: a infraestrutura de IA está sequestrando os componentes que deveriam ir para o seu novo celular ou para a sua máquina de lavar. O resultado é uma escalada de preços que promete transformar eletrônicos de consumo em itens cada vez mais caros.
A raiz do problema está no foco dos fabricantes. Essa mudança de foco deixou as fabricantes de eletrônicos tradicionais no “fim da fila”. De acordo com dados recentes da Counterpoint Research, a escassez de memórias DRAM e NAND flash já fez com que o custo dos materiais para smartphones subisse entre 10% e 30% apenas no início deste ano. A consultoria IDC reforça que a era de memórias e meios de armazenamento baratos terminou, sinalizando que 2026 é o ano em que a tecnologia se torna mais cara por restrição de oferta. Os insumos vão encarecer.
O impacto já é visível nas prateleiras. Estimativas da Semiconductor Industry Association (SIA) indicam que a indústria de chips deve ultrapassar a marca histórica de 1 trilhão de dólares em vendas em 2026, mas essa cifra recorde é inflada pela alta demanda de IA, enquanto outros setores sofrem. Os smartphones, principais vítimas dessa crise, devem ficar em média 7% mais caros este ano. Em mercados emergentes como o Brasil, onde a oscilação do dólar pode pressionar os preços, o aumento pode ser ainda mais sensível. Fabricantes de PCs, notebooks e tablets já alertaram para reajustes de até 20% para compensar o custo triplicado de kits de memória RAM DDR5.
Mesmo aparelhos que não usam IA diretamente estão na linha de fogo. Geladeiras inteligentes, máquinas de lavar com sensores e sistemas de entretenimento automotivo dependem de controladores de semicondutores que agora competem por espaço nas mesmas indústrias que fabricam processadores de alto desempenho. No setor automotivo, a ameaça é de atrasos na produção semelhantes aos vividos em 2021, elevando o preço final dos veículos zero quilômetro. O mercado global de semicondutores cresceu 22% em 2025 e projeta um salto de mais 25% para 2026, segundo o Instituto para Estatísticas de Comércio de Semicondutores (WSTS). No entanto, esse crescimento é desigual. Enquanto as empresas de infraestrutura de IA celebram lucros recordes, o consumidor final enfrenta o que especialistas chamam de “inflação tecnológica”.
No Brasil, a situação é agravada pela dependência de componentes importados. A ausência de deflação no setor de eletrônicos, que normalmente ocorre à medida que tecnologias envelhecem, foi substituída por uma rigidez de preços. Ao contrário de ficarem mais baratos, modelos que não são de última geração têm mostrado resiliência nos preços porque o custo de reposição de peças subiu.
Para que o mundo tenha IAs mais rápidas e inteligentes, a sociedade está pagando o preço na forma de aparelhos mais caros e ciclos de atualização de hardware mais longos. Até que novas fábricas de semicondutores entrem em operação plena, a recomendação para o consumidor é cautela. O luxo de ter o celular mais recente no bolso nunca custou tanto silício e dinheiro. Nesse caso o melhor é, com o perdão do trocadilho, ser mais inteligente e aguardar um pouco mais.
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