Saúde
Polilaminina: o que é, para que serve e em que pé está o tratamento que promete regenerar a medula
Dez pacientes que obtiveram acesso judicial ao medicamento relatam melhora parcial, mas especialistas pedem cautela
A autorização da Anvisa para o início dos estudos clínicos reacendeu a esperança de pacientes com lesão medular. Também abriu espaço para dúvidas, controvérsias e corrida à Justiça. Afinal, a polilaminina já é um tratamento? Funciona mesmo? Está liberada? Entenda o que se sabe até agora.
O que é a polilaminina?
A polilaminina é uma proteína extraída da placenta que vem sendo estudada como base de um medicamento capaz de estimular a regeneração das fibras do sistema nervoso.
A pesquisa é conduzida há quase 30 anos por cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sob coordenação da pesquisadora Tatiana Sampaio.
A ideia central é fazer com que os axônios, os “fios” responsáveis por transmitir os comandos do cérebro ao corpo, voltem a crescer após uma lesão.
Para que ela pode servir?
O foco atual é o tratamento do Trauma Raquimedular Agudo (TRM), lesão grave da medula espinhal que pode provocar paraplegia ou tetraplegia. Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil registra cerca de 8 mil novos casos de lesão medular por ano. Hoje, não há medicamento capaz de reverter esse tipo de dano.
A polilaminina já está liberada para uso?
Não para uso geral. Em janeiro de 2025, a Anvisa autorizou o início da fase 1 dos estudos clínicos, que avalia a segurança do medicamento em humanos. Serão recrutados cinco pacientes, acompanhados por seis meses. O lançamento no mercado está estimado para 2029, se todas as fases da pesquisa forem concluídas com sucesso.
Já houve testes em humanos?
Sim, em caráter experimental. Antes da autorização formal da Anvisa, a UFRJ conduziu estudos preliminares com oito voluntários. Seis apresentaram recuperação de movimentos. Além disso, há pelo menos 14 decisões judiciais autorizando o uso da substância. Dez pacientes já receberam o medicamento por meio de liminares e relataram evolução clínica. Mas é importante destacar: esses dados ainda fazem parte de uma etapa prévia e não substituem estudos clínicos completos.
Os estudos indicam que, para ter chances de resultado, o medicamento precisa ser aplicado em até 72 horas após o trauma. O paciente deve ter entre 18 e 72 anos e não ter comorbidades graves. Lesões antigas, portanto, não estão no escopo atual da pesquisa.
A polilaminina funciona mesmo?
Ainda não é possível afirmar com segurança. Os dados preliminares, contudo, são considerados animadores. Segundo pesquisadores envolvidos no projeto, a taxa de melhora observada nos estudos iniciais foi superior à média histórica de pesquisas na área.
- A fase 1 avalia segurança.
- A fase 2 medirá eficácia.
- Só depois será possível solicitar registro definitivo.
Sem a conclusão dessas etapas, não há comprovação científica consolidada.
Por que especialistas pedem cautela?
Porque, na história da medicina, muitas substâncias promissoras falharam na fase final de testes. O neurocirurgião Andrei Fernandes Joaquim, da Unicamp, reforça que ainda não há evidência definitiva.
“Estamos diante de um medicamento promissor, com grande potencial, mas ainda é preciso concluir todas as etapas da pesquisa”, afirmou ele em janeiro em entrevista a CartaCapital.
“Além da cirurgia, não há outro tratamento eficaz. Várias substâncias foram testadas, como corticoide, minociclina e gangliosídeo, mas nenhuma funcionou. Se a polilaminina ajudar minimamente, será um avanço, mas é preciso ter cautela diante do uso indiscriminado.”
A polilaminina pode virar tratamento no SUS?
Pode, mas depende de várias etapas. Se o medicamento for aprovado pela Anvisa, ele ainda precisará passar pela avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS, que analisa eficácia, segurança, custo-efetividade
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou a CartaCapital que a pesquisa tem potencial para revolucionar o tratamento no sistema público, caso seja comprovada sua eficácia.
Por que pacientes estão recorrendo à Justiça?
Porque ainda não há acesso regular ao tratamento. Diante de resultados considerados promissores, pacientes com lesões recentes têm buscado decisões judiciais para receber a substância fora do protocolo oficial de pesquisa.
Especialistas alertam, porém, que o uso indiscriminado antes da conclusão dos estudos pode trazer riscos, justamente porque a fase atual serve para avaliar segurança.
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