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A nova geração que (re)descobriu o tempo analógico

Não é a primeira vez que falo nessa coluna que a geração Z chega com um saudosismo daquilo que não fez parte de sua realidade. O retorno para hobbies analógicos, desejos de consumo analógicos, até o vício em redescobrir o passado que antecede o nascimento […]

A nova geração que (re)descobriu o tempo analógico
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Não é a primeira vez que falo nessa coluna que a geração Z chega com um saudosismo daquilo que não fez parte de sua realidade. O retorno para hobbies analógicos, desejos de consumo analógicos, até o vício em redescobrir o passado que antecede o nascimento da GenZ. E se esse é o grande mote dos nascidos entre 1995 e 2010, evidentemente não seria diferente com a moda. Entre estilos que fizeram sucesso nas décadas de 90 e 2000, cortes de cabelo das estrelas do século XX e estéticas fotográficas que praticamente só são possíveis via aplicativos que imitam câmeras analógicas, a geração Z descobriu os relógios.

Melhor, relógios não: cronógrafos – que se diferem dos relógios analógicos porque, além de marcar as horas convencionais, funcionam como um cronômetro para medir intervalos de tempo com precisão. E aí surge a grande questão saudosista que eu falei no parágrafo anterior: não seria mais fácil comprar um smartwatch? Bom, talvez, se não fosse um ponto muito importante na história dos jovens adultos: a turma que nasceu na era da tecnologia não aguenta mais se dobrar à ela.

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Você já pode ter se deparado com a crise existencial (ou, melhor, não existencial) dos bancos digitais: você vê o valor na tela, mas quanto dinheiro ele significa? É quase uma falta das moedas e notas, que fazem a gente ter noção do que aqueles números dentro do aplicativo significam. Com o tempo, o raciocínio não é diferente. “Acredito que o retorno aos relógios mecânicos está diretamente ligado ao fato de que nossas vidas hoje são dominadas por um tempo invisível e intangível — notificações, fluxos de dados e métricas em constante atualização. Um relógio mecânico é o oposto disso. Ele torna o tempo visível, físico e humano. Você pode ver o movimento, sentir os botões, dar corda na coroa e, assim, se reconectar à ideia de que o tempo é algo medido, e não apenas exibido”, afirma Nicholas Biebuyck, Diretor de Patrimônio da TAG Heuer, maison de relógios de luxo. 

A marca suíça anunciou, para 2026, mais um relógio analógico e absolutamente vanguardista. E o britânico Nicholas conversou com o ToqueTec justamente para nos ajudar a entender o que explica a estratégia de manter-se fiel a um estilo que, teoricamente, se tornou obsoleto. Para ele, a resistência dos cronógrafos se pauta em todo o sentimentalismo que ele carrega. “Um wearable oferece dados. Um cronógrafo mecânico oferece significado. Um fornece informação; o outro cria uma relação”, comenta.

O tempo como experiência, não como notificação

Para Biebuyck, o ponto central não é uma disputa tecnológica, mas simbólica. Em 2026, quando praticamente tudo é monitorado em tempo real — passos, batimentos, produtividade, sono — o cronógrafo mecânico se consolida como um contraponto cultural. “Em uma era em que tudo é digital, o cronógrafo mecânico se torna algo emocional, quase um ponto de ancoragem. Ele lembra às pessoas que o tempo é experiência, memória e conquista”, afirma.

Historicamente associado à precisão extrema, o cronógrafo nasceu como instrumento técnico. Sua consolidação está ligada ao automobilismo e à medição de performance. A própria TAG Heuer construiu parte de sua identidade nesse território. Segundo Biebuyck, a história da marca sempre esteve relacionada a “dominar o tempo por meio de instrumentos de precisão”, o que ajuda a explicar por que o modelo permanece relevante mesmo fora das pistas.

Hoje, fora do ambiente esportivo, o simbolismo migra. “Historicamente, o cronógrafo estava associado à sobrevivência, desempenho e precisão — cronometrar voltas, medir velocidade, registrar resultados. Hoje, o contexto mudou, mas o simbolismo permanece incrivelmente forte”, diz. Na vida urbana, ele representa controle e disciplina, mas também a ideia de medir momentos significativos — de um treino a um projeto pessoal.

Nicholas Biebuyck, Diretor de Patrimônio da TAG Heuer (Crédito: Divulgação/TAG Heuer)

De instrumento técnico a objeto cultural

A transformação mais evidente talvez esteja na mudança de percepção. Se antes o cronógrafo era essencialmente funcional, agora passa a ocupar um espaço cultural. “Na TAG Heuer, o vemos agora como um objeto cultural, e não apenas técnico”, afirma Biebuyck. O DNA do automobilismo permanece, mas é reinterpretado como linguagem estética e narrativa.

Essa mudança dialoga diretamente com a geração Z. “Os públicos mais jovens não veem os relógios mecânicos como algo ultrapassado, mas como algo autêntico. Eles cresceram em um mundo em que tudo é virtual, rápido e descartável, por isso se sentem atraídos por objetos que parecem reais, engenheirados e feitos para durar”, explica.

Mais do que nostalgia, trata-se de materialidade. Ao contrário dos dispositivos digitais, projetados para ciclos curtos de atualização, o cronógrafo carrega a ideia de permanência. “Há ainda a dimensão da permanência: um cronógrafo mecânico é construído para atravessar gerações. Ele carrega artesanato, história e memória de uma forma que um dispositivo projetado para ser substituído a cada poucos anos simplesmente não consegue”, afirma o executivo.

Participar do tempo

No debate entre analógico e digital, a diferença apontada por Biebuyck é quase filosófica. “Ao acionar um cronógrafo, você participa do ato de medição. Sente o clique do botão, vê os ponteiros se moverem, acompanha o tempo se desenrolando. Essa interação física é algo que a tecnologia digital não consegue replicar”, diz.

Em um cenário dominado por interfaces intangíveis, essa interação manual ganha peso. Não se trata apenas de precisão — algo que wearables oferecem com excelência —, mas de envolvimento. O gesto de pressionar um botão e acompanhar o movimento dos ponteiros transforma a medição em experiência. “Um wearable oferece dados. Um cronógrafo mecânico oferece significado”, reforça. A distinção, segundo ele, não está na eficiência, mas na relação construída com o objeto.

Legado e futuro na mesma engrenagem

Em 2026, ano que a marca define como simbólico, o lançamento de novos modelos integra uma estratégia de continuidade. Sob o tema “Master of Chronograph”, apresentado na LVMH Watch Week, a empresa posiciona o cronógrafo como eixo central de sua identidade. Entre os destaques estão o TAG Heuer Carrera Chronograph, que mantém a legibilidade e a pureza do modelo original de 1963; o TAG Heuer Carrera Chronograph Seafarer, que resgata a função de marés; e o TAG Heuer Carrera Split-Seconds Chronograph, descrito como expressão máxima de domínio técnico.

“São as duas coisas — e esse é exatamente o ponto”, afirma Biebuyck, ao ser questionado se o momento celebra o legado ou redefine o futuro. “Juntos, eles contam uma única história: celebrar a história enquanto a utilizam como base para redefinir o que um cronógrafo pode significar no século XXI — e essa visão continuará moldando os lançamentos de 2026.”

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