Daniel Camargos
Repórter especial na 'Repórter Brasil', venceu diversos prêmios por reportagens, entre eles o Vladimir Herzog. Dirigiu o documentário 'Relatos de um correspondente da guerra na Amazônia' e participou da Rainforest Investigations Network, do Pulitzer Center.
Daniel Camargos
A ‘Folha de S. Paulo’ acha que você trabalha pouco
Em meio à disputa política pela extinção da escala 6×1, a manchete do jornal reduz o debate sobre estrutura produtiva e custos de transição a um juízo moral sobre os trabalhadores
Passado o Carnaval, a escala 6×1 deixou de ser apenas rotina exaustiva de milhões de trabalhadores e entrou formalmente no Congresso. A proposta de redução da jornada aguarda indicação de relator na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara para começar a tramitar, enquanto mobiliza sindicatos, empresários, governo e, é claro, pauta a imprensa.
No domingo 22, a Folha de S. Paulo estampou na edição impressa do jornal a manchete “Brasileiro trabalha menos que a média mundial, aponta ranking”. No primeiro parágrafo do texto, o jornal afirma que o trabalhador brasileiro não “pode ser considerado particularmente esforçado”. Mais que apresentar um dado, a formulação introduz um juízo moral no centro de uma discussão que deveria ser sobre produtividade, estrutura econômica e distribuição dos custos da transição.
O cerne da reportagem da Folha é um levantamento do economista Daniel Duque, do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas), feito a partir de um novo banco de dados global de horas trabalhadas, com informações de 160 países e cobertura de 97% da população mundial.
Na metáfora citada pelo economista, o Brasil teria “descido a serra” antes de enriquecer, isto é, reduzido jornada antes de alcançar o nível de renda dos países desenvolvidos. Faltou dizer que alguns sobem a serra de escada rolante e outros carregando as malas dos privilegiados e bem-nascidos.
O cálculo aponta que os trabalhadores no mundo destinaram, em média, 42,7 horas semanais a atividades remuneradas em 2022 e 2023. No mesmo período, os brasileiros, somando empregos formais e informais, teriam dedicado 40,1 horas por semana ao trabalho.
Na comparação direta com 86 países com dados por mais de duas décadas, o Brasil fica na 38ª posição em horas trabalhadas. Quando entra o ajuste por produtividade e estrutura demográfica, o país cai para o terço de menor esforço global, 60ª posição.
Na prática, o enquadramento do jornal e da pesquisa sugere que o Brasil deveria mirar a régua dos países no topo do ranking bruto de horas trabalhadas semanais, como Butão, Emirados Árabes Unidos e Sudão, e não a dos países ricos que reduziram jornadas, como França, Alemanha e Noruega.
O vereador Rick Azevedo (PSOL), criador do movimento civil que trouxe a pauta de redução de jornada para o debate público, questionou: “Bora lá no ponto de ônibus comigo, às 4 da manhã, explicar pro trabalhador que acorda antes do sol que ele trabalha menos que a média mundial, Folha de São Paulo?”. Para ele, a manchete trata o trabalhador como preguiçoso e ignora informalidade, horas extras não pagas, transporte público precário e o tempo consumido nos deslocamentos diários. “Comparar número frio sem contexto é defender privilégio de patrão e atacar trabalhador. A informação jogada assim não ajuda ninguém, só os mesmos exploradores de sempre”, completou.
Os jornais têm o direito de reportar dados e produzir rankings, é evidente. O problema é quando a forma de apresentar o dado se converte em juízo moral travestido de neutralidade técnica. Dizer que o país não é “particularmente esforçado” funcionou como eufemismo para chamar o trabalhador de preguiçoso no momento em que se discute a redução da jornada.
Entre o alarmismo patronal e os dados setoriais
Na mesma cobertura, a Folha destaca vozes do empresariado contrárias à proposta. O presidente da CNT (Confederação Nacional do Transporte), Vander Costa, afirma que o debate precisa ser feito com mais calma e condena uma votação rápida com finalidade eleitoreira. No setor de bares e restaurantes, a reportagem menciona estimativa de aumento de 20% nos gastos para contratar um trabalhador adicional e cumprir a escala, com impacto de 7% nos preços finais ao consumidor.
Nesta segunda 23, a própria Folha publicou na seção Tendências/Debates um artigo assinado por Felipe Pateo e Joana Costa, técnicos do Ipea, que estimam aumento médio de 7,84% no custo da hora trabalhada, mantidos os salários nominais, com variações entre setores.
Serviços financeiros, saúde e educação teriam impactos menores, enquanto atividades como vestuário, construção e agropecuária registrariam aumentos mais elevados no custo da hora. O texto aponta que, quando se considera o peso do trabalho na estrutura de despesas setoriais, o impacto potencial sobre o gasto total das empresas ficaria abaixo de 5% na maior parte dos casos.
Em nota técnica anterior, o próprio Ipea ressalta que os efeitos dependem da capacidade de reorganização produtiva, do ritmo de implementação e de ganhos de produtividade, e registra que a literatura internacional não apresenta consenso empírico de que a simples redução da jornada produza automaticamente colapso econômico.
Do lado patronal, estudo da Fiemg (Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais) trabalha com cenários mais severos e projeta que as perdas de emprego poderiam chegar a 16 milhões de trabalhadores e que a retração acumulada do PIB poderia alcançar 16%, na hipótese de ausência de ganhos de produtividade.
Em debate exibido no sábado 21 pela TV Band Minas, ao lado do economista João Pio, da Fiemg, a professora de Direito do Trabalho da UFMG, Daniela Murada, contestou a associação direta entre produtividade e esforço individual. “Quando se diz que o brasileiro não tem a mesma média de produtividade, isso é menos culpa do trabalhador e mais da falta de investimentos em tecnologia e formação, que está na mão do patronato”, afirmou.
Murada lembrou que reduções anteriores de jornada, como a passagem de 48 para 44 horas semanais após a Constituição de 1988, não produziram o colapso econômico anunciado à época. Também mencionou experiências internacionais em que a redução da jornada foi acompanhada de ganhos de produtividade e menor rotatividade, sustentando que o debate não pode partir do pressuposto automático de que menos horas significam menos riqueza.
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