CartaCapital
Além do umbigo
As relações exteriores ganham peso inesperado nas eleições presidenciais brasileiras deste ano
A pré-campanha presidencial brasileira deste ano começou de um jeito diferente: em vez de viajar pelo interior do País, comendo pastel de feira e pegando crianças no colo, os dois principais pré-candidatos fizeram a opção incomum de internacionalizar suas agendas. O fenômeno é raro, e contradiz um mantra repetido por muitos cientistas políticos, segundo o qual as relações internacionais não interessam ao eleitor brasileiro na hora de decidir diante da urna.
O presidente Lula, em busca do quarto mandato, tem focado sua agenda internacional no antagonismo com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A estratégia caiu no colo de Lula depois que o agora ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro incitou o governo norte-americano a impor sobretaxas, embargos e sanções contra produtos e cidadãos brasileiros. O tiro dado pelo 03 acabou saindo pela culatra, e o petista conseguiu vocalizar ao menos parte de um discurso patriótico e nacionalista que havia sido monopolizado pela extrema-direita desde o início dos protestos de rua contra Dilma Rousseff, em 2015 e 2016, quando as cores da bandeira e as camisas da Seleção foram sequestradas pelo lado oposto.
Flávio Bolsonaro, pré-candidato que busca herdar o espólio do pai e levar a extrema-direita de volta ao poder, também tem tentado conectar-se com líderes de países estrangeiros que pensam como ele. No fim de 2025, Flávio e Eduardo – aos quais o próprio pai chama por números: 01 e 03 – deram início a um giro internacional pelos Estados Unidos e El Salvador. Em 2026, a turnê seguiu por Israel, Bahrein, Emirados Árabes Unidos e França, com possibilidade de incluir em breve o Chile, onde o líder pinochetista José Antonio Kast toma posse em março, e a Argentina, governada pelo ultraliberal Javier Milei desde dezembro de 2023.
Lamentação. Flávio Bolsonaro em roteiro nada original – Imagem: Redes Sociais
É verdade que “o caso brasileiro tem esse paradigma, de que as questões de relações internacionais importam pouco para os resultados eleitorais. Porém, elas vêm tendo importância crescente nos últimos anos”, afirma Laura Waisbich, internacionalista e doutora em Geografia pela Universidade de Cambridge. Waisbich dá duas explicações para essa quebra de paradigma. Primeiro, o contexto internacional tornou-se cada vez mais incerto e turbulento, com implicações diretas para a vida nacional, como prova o episódio das tarifas impostas pelos Estados Unidos contra o Brasil em 2025. Depois, há a história e o perfil dos dois principais pré-candidatos e de seus setores de origem.
Waisbich diz que, no caso de Lula e do PT, a internacionalização da agenda faz parte do DNA, pois ambos “sempre buscaram alianças do campo socialista mundial, construindo uma história muito articulada fora do Brasil”. O presidente, aliás, “apostou, desde seu primeiro mandato, num papel internacional ativo” do País.
No caso da família Bolsonaro, “a construção dessa rede internacional é algo muito mais recente” quando comparada a Lula e ao PT, diz a internacionalista, citando os contatos com expoentes da extrema-direita em países como Estados Unidos, El Salvador, Israel e Hungria, entre outros. Na eleição presidencial de 2018, lembra Waisbich, Bolsonaro “já fazia um paralelo entre Brasil, Venezuela e Cuba, para se diferenciar do PT e construir uma identidade política doméstica que fizesse contraponto a um adversário petista apresentado por ele como comunista” no exterior.
A agenda de Flávio Bolsonaro foca nas críticas a Lula e ao STF
Flávio terceiriza ao irmão Eduardo a gestão dessa rede internacional de contatos. O ex-deputado vive nos Estados Unidos desde março de 2025, quando deixou o Brasil para se dedicar a instigar o governo Trump a agir contra autoridades do Supremo Tribunal Federal e integrantes do governo Lula, que ele acusa de perseguirem o pai, preso por participação na tentativa frustrada de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023. “Graças a Deus temos um craque em casa nessa parte de relações internacionais”, disse Flávio sobre o irmão, ignorando o fato de que 57% dos brasileiros reprovam o que 03 tem feito contra o Brasil em Washington, de acordo com pesquisa Datafolha de julho de 2025.
Lula conseguiu reverter em grande medida as ações. Ele e Trump dizem ter “rolado uma química” no primeiro encontro, nos bastidores da última Assembleia-Geral da ONU, em Nova York, em setembro do ano passado. Desde então, ambos conversaram ao telefone, revertendo grande parte das tarifas e levantando sanções, até culminar com um encontro esperado para ocorrer em Washington em março. A aparente afinidade não arrefeceu, no entanto, o discurso do brasileiro, que segue fustigando o homólogo norte-americano, em tom eleitoral: “Eu sou muito teimoso e muito tinhoso, sabe? Se o Trump conhecesse o que é a sanguinidade de Lampião de um presidente, ele não ficaria provocando a gente”, discursou em 9 de fevereiro, em uma cerimônia oficial no Instituto Butantan, em São Paulo.
Em Paris, onde esteve em fevereiro, Flávio foi recebido por Marion Maréchal, neta de Jean-Marie Le Pen, conhecido antissemita e notório vichysta, e sobrinha de Marine Le Pen, a dama de ferro da extrema-direita francesa impedida de disputar eleições por causa de uma condenação por malversação de fundos. Na ocasião, falou à CNews, equivalente francesa da Jovem Pan brasileira ou da Fox News norte-americana, e ao jornal conservador Le Figaro, ao qual declarou que “Lula deixará uma herança de corrupção, miséria, fome e violência”. Ironicamente, logo abaixo da entrevista de Flávio, o site do jornal apresentava como leitura sugerida uma matéria cujo título era “Um exemplo para o mundo inteiro: no Brasil, a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro”.
Órfãos. Os bolsonaristas depositaram esperanças na intervenção dos EUA, mas Trump, pragmático, só enxergou um modo de tirar proveito da situação – Imagem: Nelson Almeida/AFP
Em dezembro, Flávio havia participado de uma conferência sobre antissemitismo em Israel, na qual esteve presente o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, desafeto declarado de Lula. Em janeiro, a passagem foi pelo Bahrein e pelos Emirados Árabes Unidos. Antes, no fim de 2025, ele, o irmão e outros expoentes da extrema-direita brasileira tinham visitado, em El Salvador, o Centro de Confinamento do Terrorismo (Cecot), local onde o presidente Nayib Bukele mantém presos, sob forte crítica de organizações de direitos humanos, supostos integrantes de facções criminosas locais.
A estratégia, no caso bolsonarista, parece ser também uma busca por reabilitar a figura de Eduardo, depois da ideia desastrada de fazer Trump impor castigos comerciais à economia brasileira. Só que a dupla tem perdido poder de influência e persuasão em Washington. Em 16 de outubro, Flávio esteve nos Estados Unidos e postou foto ao lado do irmão, na frente dos portões da Casa Branca, no meio da rua. Naquele mesmo dia, Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores do governo Lula, era recebido pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio.
A agenda internacional da extrema-direita tem sido focada nas críticas a Lula e ao Supremo, e na busca por apoio a uma anistia a Jair Bolsonaro. O petista, por sua vez, foca na questão comercial. O presidente brasileiro anoiteceu na segunda-feira na Sapucaí e amanheceu no aeroporto, onde embarcou para Túnis, capital da Tunísia, para fazer a única escala que o levará à sua segunda visita à Índia neste mandato. Em Nova Délhi, participará, em companhia de outros 20 chefes de Estado, da Cúpula sobre o Impacto da Inteligência Artificial. Também pretende anunciar a abertura de um escritório de representação comercial brasileira, que contribuirá para temas tão diversos quanto a possibilidade de venda de 80 aviões militares de carga KC-390 fabricados pela Embraer, para a Força Aérea indiana, e a possível adoção de um memorando de entendimento sobre o comércio internacional de minerais críticos. De lá, Lula ainda vai à Coreia do Sul, onde se encontra com o presidente Lee Jae-myung.
A corrida para fora das fronteiras mostra que “a eleição brasileira deste ano é importante no xadrez da geopolítica internacional”, avalia Waisbich, que destaca um fato em particular: o aparente acerto entre Lula e Trump, que podem encontrar-se em março, “é muito frágil, porque ainda não sabemos quais as próximas jogadas do presidente norte-americano, mas sabemos do interesse dele em moldar o destino político dos países da região, o que, claro, pode aplicar-se ao Brasil também”. •
Publicado na edição n° 1401 de CartaCapital, em 25 de fevereiro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Além do umbigo’
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