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Udenismo na avenida

Na passarela, o surrado enredo “é preciso mudar tudo que está aí”

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A Acadêmicos de Niterói voltou ao grupo de acesso do Carnaval carioca, mas roubou a cena nos desfiles deste ano. As motociatas de Bolsonaro não provocaram tanta indignação. Fachin, presidente do STF, parece não ter compreendido o samba atravessado que mira a Corte sob seu comando – Imagem: Alexandre Macieira/Riotur/GOVRJ, Marcos Corrêa/PR e Antonio Augusto/STF
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No carnaval, segundo a máxima, “quem sobe, desce”. Tradução: escolas recém-promovidas são candidatíssimas a voltar ao lugar de onde vieram. A Acadêmicos de Niterói não fugiu à sina, dirão os experts. Mas o histórico dos desfiles cariocas não explica tudo. O rebaixamento era uma barbada. A nota oficial divulgada após o desfile na Marquês de Sapucaí, na qual a escola de samba pedia uma análise estritamente técnica do seu desempenho no percurso até a Praça da Apoteose, revelava o temor, talvez a certeza, do destino anunciado. É difícil afirmar até que ponto o “medo venceu o amor” na decisão dos jurados. O tribunal das redes sociais havia dado seu veredicto antes mesmo de a escola atravessar a Sapucaí na noite do ­domingo 15. O bloco do udenismo estava na rua e a marchinha da “indignação seletiva” contagiava os cidadãos de bem, que saltaram das suas latas em conserva para protestar contra a “campanha eleitoral antecipada” em favor do presidente Lula, embora o petista tenha sido tema de enredo no passado sem que a homenagem revirasse as entranhas dos foliões da moralidade. A Acadêmicos ficou na lanterna, mas conquistou os holofotes no sambódromo, no Brasil e no exterior. Um feito.

Enquanto isso, no mundo das latas em conserva, ouve-se o grito do narrador: ­deeezzz, nota deeezzz. A campanha contra a escola de Niterói proporcionou um efêmero triunfo. Não deixa de ser alguma coisa. Sem um projeto para o País, na ausência de uma única e escassa ideia a não ser retirar Lula do topo do carro alegórico chamado Brasil, a estratégia da oposição tem sido tumultuar a avenida. E eis que voltamos a escutar o samba batido de outros carnavais: mar de lama, esquindô, falência das instituições, esquindô, e vamos “acabar com tudo isso que está aí”, ziriguidum. Salve, salve, comunidade. O lavajatismo pede passagem. Para os saudosistas, só falta fantasiar Sergio Moro e Janaína Paschoal de mestre-sala e porta-bandeira, seguidos de uma motociata cívica de Bolsonaro financiada com dinheiro público. E se não for possível chegar à Apoteose, há sempre a chance de convidar os patriotas para um after ­party, uma reedição da Festa da Selma.

Para sambar até a rampa do Palácio do Planalto, o udenismo precisa, antes, fazer do Supremo Tribunal Federal a Acadêmicos de Niterói da Praça dos Três Poderes. Nesta fanfarra, admitamos, a própria Corte tem dado uma contribuição inestimável. O ministro José Dias Toffoli ofereceu confetes e serpentinas ao achincalhe. A despeito de uma campanha orquestrada e interessada de quem visa subjugar o STF, os conflitos de interesse eram mais que suficientes para levar o magistrado a se declarar impedido de conduzir as investigações sobre o Banco Master. Toffoli se expôs e expôs o colegiado e colocou o tribunal no centro do palco onde deveriam estar os verdadeiros cúmplices da tramoia: governadores bolsonaristas que arriscaram as aposentadorias de servidores estaduais, políticos do Centrão, pastores da Igreja Lagoinha e o ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto.

O ministro Dias Toffoli forneceu confetes e serpentinas a quem visa “rebaixar” o Supremo

A relutância de Toffoli elevou o terrivelmente evangélico André Mendonça ao posto de rainha da bateria. Por sorteio, Mendonça conduzirá os dois inquéritos mais explosivos da República, a quebra do Master e os descontos indevidos do INSS. O ministro assumirá ainda a vice-presidência do Tribunal Superior Eleitoral, em dobradinha com Kássio Nunes Marques, o outro magistrado indicado por Bolsonaro. O ex-presidente, entre soluções e ataques de pânico, assiste aà evolução dos acontecimentos do camarote da Papudinha e seus aliados preparam as fantasias para o carnaval fora de época.

Nessa pipoca o Brasil promete pular até outubro. Os Poderes serão arrastados pela multidão, atrás do trio elétrico? O STF, que abriga atualmente seis de dez ministros indicados pelo PT, vai superar a ressaca? Toffoli saiu, por ora, da berlinda, mas Alexandre de Moraes continua com um alvo na careca. O presidente da Corte, Edson Fachin, parece tentado a ceder à demagogia e à banalidade, vide a proposta de se discutir um supérfluo código de ética, enquanto o Conselho Nacional de Justiça prefere premiar com aposentadoria compulsória no lugar de punir devidamente magistrados corruptos e desembargadores fazem procissão a Brasília para derrubar a decisão de Flávio Dino de cortar o pagamento dos mal chamados “penduricalhos” (gratificações exorbitantes que multiplicam por quatro, cinco vezes os paupérrimos salários do Judiciário).

Dino tem sido uma honrosa exceção. Último indicado pelo presidente Lula ao Supremo (falta o presidente enviar o nome de Jorge Messias para sabatina no Senado), o ministro é, sem medo de ser feliz, o solitário acerto do petismo. Lula e Dilma Rousseff conseguiram uma proeza inigualável. Os dois foram responsáveis por nomear, ao longo dos mandatos, 15 integrantes do STF. A lista de equívocos assombra e vai do “humanista” Eros Grau, que validou a Lei da Anistia imposta pelos militares, ao “herói” Joaquim Barbosa, que distorceu a tese do domínio do fato para corroborar as condenações do Mensalão. Sem esquecer a “racional” Rosa Weber e seu indecifrável voto a favor de uma maioria inexistente na rejeição ao habeas corpus a Lula, Luiz “mato no peito” Fux, recém-convertido ao garantismo, e do próprio Toffoli, cuja reflexão intensa e conversas esclarecedoras com generais o levaram a chamar o golpe de 1964 de “revolução”. Se os homens – e mulheres – se medem nas circunstâncias, Dino é um Gulliver na ilha de Lilliput. •

Publicado na edição n° 1401 de CartaCapital, em 25 de fevereiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Udenismo na avenida’

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