Cultura
Leonilson em seus três anos finais
O conteúdo de 19 fitas cassete gravadas pelo pintor e desenhista cearense é transformado em material impresso
O Projeto Leonilson, que consegue, de maneira continuada, manter em evidência o trabalho do pintor, desenhista e escultor cearense José Leonilson (1957-1993), lançou no mês passado o livro Leonilson: Diários de Uma Voz – Trechos Transcritos (232 págs., 100 reais).
O volume, com um quê de objeto de arte, reúne o conteúdo de 19 fitas cassete gravadas pelo artista entre 1990 e 1993, ou seja, em seus três últimos anos de vida. Nesse período, ele conviveu com o vírus do HIV, que acabaria por matá-lo, aos 36 anos.
“O meu cabelo está caindo demais hoje. Eu passo a mão e tiro uns tufos. Tufos. Estou com medo”, escreve, em 1992. Mas, ao mesmo tempo que a doença estava à espreita, a vida seguia seu curso, com as observações sobre o cotidiano, a arte, as amizades, o amor, a esperança e o desalento.
Tudo isso, graças ao bom trabalho de transposição da linguagem oral para a escrita, ressurge alinhavado no papel. A fala, na edição, comporta silêncios, e soa fluida e sincera – “Eu falo muito quando estou gravando”, admite, a certa altura.
A seleção de João Anzanello Carrascoza foi organizada a partir de seis temas: Nada direi, tudo direi; Um artista com fogo nas mãos; Costura da solidão; A visão exterior; Anjos da guarda; e As bordas da dor. Cada um deles foi impresso em pequenos cadernos feitos de folhas em tamanho A4 dobradas ao meio e grampeadas , compostas também por pequenas ilustrações.
O Projeto Leonilson, que reúne, de acordo com o material de divulgação, um acervo de 4 mil trabalhos e já realizou ao menos 650 exposições, é um dos mais bem-sucedidos exemplos de gestão de um legado artístico do País. •
Publicado na edição n° 1401 de CartaCapital, em 25 de fevereiro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Leonilson em seus três anos finais’
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