Política
Herança colonial
A literatura indígena ainda precisa ser publicada em português para ter reconhecimento, lamenta Ailton Krenak
Em 1987, de terno branco e com o rosto coberto de tinta de jenipapo, Ailton Krenak fez um discurso histórico na Assembleia Constituinte, que mobilizou a opinião pública e foi decisivo para o reconhecimento dos direitos dos povos originários na Carta Magna. Ambientalista, filósofo, poeta e escritor, com obras publicadas em mais de dez idiomas e 15 países, Krenak tornou-se, em 2024, o primeiro indígena a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Nesta entrevista, lamenta que, em um “país colonizado até o osso” como o Brasil, sua literatura precise ser publicada em português para ser reconhecida e critica o desinteresse dos partidos em promover maior diversidade étnica: “Só querem cumprir a cota eleitoral”.
CartaCapital: Até hoje, seu discurso na Assembleia Constituinte ecoa no movimento indígena. Qual lembrança você guarda dessa época?
Ailton Krenak: Foi um período em que esboçamos a ideia de um movimento pluriétnico. Mário Juruna havia sido eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro, e o antropólogo Darcy Ribeiro fez um grande esforço para acolhê-lo no PDT e projetá-lo nacionalmente. Se hoje ainda sentimos um mal-estar danado com os militares, imagine há 40 anos. Eles nomeavam os diretores da Funai. Eram todos coronéis ou oficiais do Serviço Nacional de Informações (SNI), os mesmos que perseguiam nossas lideranças, infiltrando arapongas, até mesmo durante o governo Sarney. O Estado brasileiro mudou muito desde os anos 1980. Naquela época, nem se cogitava ter um Ministério de Povos Indígenas. Sem o reconhecimento dos direitos previstos no artigo 231 da Constituição, não sei o que seria de nós. Havia uma ideia de emancipação que ignorava identidades e reivindicações étnicas, transformando quem vivia nas aldeias em meros trabalhadores: assalariados, desempregados, longe da universidade. A maior conquista do movimento é ter hoje mais de 50 mil estudantes indígenas cursando o ensino superior.
“Quem não domina o idioma, não disputa espaço com os brancos”
CC: Hoje temos vários doutores indígenas, muito respeitados em seus campos de conhecimento, como o advogado Eloy Terena.
AK: Temos expoentes como o nosso querido Eloy, que possui formação rigorosa e consegue nos defender no Supremo Tribunal Federal em termos que deixam os ministros sem palavras. Ele apresenta um conhecimento muito bem estruturado, historicamente, juridicamente e politicamente. É um lugar de fala que os povos originários conquistaram. Há diversos outros expoentes na arte, na literatura, em várias áreas, e também na política. Vinte anos atrás, era de se admirar um indígena prefeito. Hoje, há vários deles pelo Brasil.
CC: Finalmente, a Funai ganhou uma presidente indígena.
AK: Sim, é verdade. Aliás, vale lembrar que Juruna defendia a extinção da Funai. Dono de uma consciência viva e crítica, ele costumava dizer que a sigla significava “Funerária Nacional do Índio”, tamanho era o abandono das aldeias. Aqueles caras da ditadura ficavam furiosos. A Funai precisou se educar e se transformar para continuar existindo, assim como o Estado brasileiro passou por um desafio para consolidar a democracia. Antropólogos, historiadores e cientistas sociais passaram a ocupar os lugares antes ocupados por coronéis, amansando a máquina da Funai, porque os militares eram muito violentos e tratavam comunidades e lideranças como inimigas: espionavam, vigiavam, perseguiam. Joênia Wapichana faz um trabalho maravilhoso à frente da Funai, que passou a se chamar Fundação Nacional dos Povos Indígenas (e não mais “do Índio”). Reestruturaram todas as diretorias internas, mas o desafio é enorme. Um terço das terras demarcadas ainda aguarda reconhecimento oficial. O presidente Lula tem poder formal para reconhecer todas por decreto, não apenas uma a uma. Isso mostra a complexidade da situação: há um governo progressista, mas muitos entraves precisam ser superados.
Transformação. Na época da ditadura, Juruna apelidou a Funai de “Funerária Nacional do Índio”. Wapichana faz um “trabalho maravilhoso” de reconstrução – Imagem: Estevam Rafael/PR e Arquivo Agência Câmara
CC: É a bancada do agronegócio que impede um avanço maior?
AK: Após ser eleito, Lula viajou ao Uruguai e Pepe Mujica recomendou que ele governasse de maneira imperial. O presidente deveria estar fazendo isso, foi eleito para cumprir o seu programa. No entanto, fez muitas concessões para Arthur Lira e essa escória que manda no Congresso, e eles foram ocupando espaço. Estão subordinando ao Legislativo as decisões do Executivo, constrangendo o presidente, que governa com a faca no pescoço. Se Lula tivesse radicalizado desde o início, vários desses parlamentares talvez estivessem na cadeia, pois quase todos têm rabo preso, enfrentam processos. Nos EUA, Donald Trump manda investigar prefeitos e governadores, e ninguém acha isso antidemocrático. Aqui, todo mundo pisa em ovos.
CC: A literatura indígena tem sido cada vez mais reconhecida. Inclusive, o senhor agora é um imortal da Academia Brasileira de Letras.
AK: Quando refletimos sobre a literatura dos povos originários, precisamos pensar também na questão da língua. Vivemos num país colonizado até o osso. A literatura brasileira é baseada no português: quem não domina o idioma, não disputa espaço com os brancos. Por isso, há uma reivindicação forte pelo reconhecimento das línguas maternas nas escolas, aldeias e municípios. Em lugares como São Gabriel da Cachoeira (AM), elas já são oficiais. No México, há uma vasta produção literária em idiomas indígenas, mas acessível apenas aos próprios membros da etnia. No Brasil, com 200 milhões de habitantes, seria interessante que essas obras pudessem ser lidas por todos. Vivemos numa tradição de oralidade que Conceição Evaristo e Leda Maria Martins chamam de “oralitura”. Sinto-me herdeiro dessa tradição de contadores de histórias capazes de escrever em português. Meus livros são traduzidos em dezenas de países. Quando falam que sou “imortal”, penso que é uma referência à circulação dessas obras – que sobrevivem a nós, autores. E acho muito importante que as mulheres das aldeias escrevam e publiquem mais, pois ainda ocupam pouco espaço na literatura.
CC: Na política, as mulheres indígenas conquistaram mais espaço, não?
AK: Depois da experiência pioneira de Mário Juruna, por muito tempo nenhum representante se destacou na política nacional. Os partidos também discriminaram candidaturas indígenas. O fenômeno eleitoral de Célia Xakriabá e Sônia Guajajara está muito ligado ao crescimento do PSOL e da Rede Sustentabilidade, fundada por Marina Silva. Outras legendas lançaram candidatas, mas sem real interesse em elegê-las – apenas cumpriam cotas. Houve avanços que chegaram a insinuar a formação de uma “bancada do cocar”, mas ela não se consolidou. Quantos representantes temos hoje no Congresso? A representação não deveria estar submetida ao controle de lideranças partidárias, mas essa é a realidade. Quem quiser se fazer representar no Parlamento terá de continuar apoiando candidaturas capazes de transformar a política.
“Não precisamos trabalhar 500 horas por mês. Seria suficiente dedicar três horas por dia”
CC: Vivemos em uma sociedade cada vez mais acelerada, marcada por ansiedade, angústia e depressão. Como o senhor avalia nossa relação com o tempo?
AK: Para os povos indígenas que ainda vivem a experiência direta da terra e dos territórios onde se sustentam, essa pressão global tem menos impacto. Eles demonstram maior resiliência e proteção contra o sentimento de prostração e a ausência de perspectivas sobre o futuro. Não vivem presos a um futuro linear ou objetivo. Eles possuem diversas cosmovisões e um conhecimento profundo do lugar onde habitam, juntamente com a confiança de que podem cuidar de si mesmos. Essa perspectiva oferece um alento, uma esperança diante da confusão global que enfrentamos.
CC: Alguns pensadores, como o italiano Domenico De Masi (autor do livro O Ócio Criativo) e o sul-coreano Byung-Chul Han (A Sociedade do Cansaço), destacam a importância de “saber parar” diante do ritmo acelerado da vida moderna. Como os indígenas percebem essa necessidade de pausa?
AK: Durante a pandemia, precisei refletir sobre isso, como todos que enfrentavam o aperto e o medo de morrer confinados. Também busquei comparar com experiências históricas, quando povos precisaram encontrar saídas em situações extremas. Dessa reflexão nasceu o livro A Vida Não É Útil, que propõe escapar da ansiedade ao deixar de considerar que nossas rotinas e ações precisam ser sempre produtivas. Basta experimentar a vida como um dom, como fruição, sem discurso místico ou religioso, apenas como o sentido de estar vivo. Não precisamos trabalhar 500 horas por mês para sobreviver. Seria suficiente dedicar talvez três horas por dia, algo que qualquer indivíduo poderia sustentar. Dentro do capitalismo, no entanto, isso é impossível: ele quer extrair tudo que podemos oferecer em 24 horas, e pagando pouco. A uberização da vida banalizou esse processo: ao chamar um transporte desses, não percebemos que estamos precarizando a vida de quem dirige. Eles trabalham até 16 horas por dia, com seus próprios equipamentos, enquanto enriquecem os donos dos aplicativos. Apenas uma pequena parte do rendimento fica para os trabalhadores e suas famílias. •
Publicado na edição n° 1401 de CartaCapital, em 25 de fevereiro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Herança colonial’
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