Augusto Diniz | Música brasileira
Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.
Augusto Diniz | Música brasileira
Vitória da Viradouro com Mestre Ciça é a redenção do Carnaval do ‘sequestro’ da rua
Em meio à ocupação desordenada das vias públicas por megablocos, a conquista a partir de um tema que aborda a alma da folia é simbólica
O mais antigo mestre de bateria em atividade no carnaval do Rio de Janeiro, o Ciça, foi o escolhido pela Viradouro para ser homenageado no seu desfile no grupo especial. Com o tema, a escola de samba se sagrou campeã de 2026 com uma passagem pelo sambódromo à altura e à importância de um digno regente de bateria de Carnaval.
Num ano marcado pelo “sequestro” do Carnaval de rua nas principais capitais brasileiras, com a apresentação desorganizada de megablocos patrocinados, caracterizados por shows de artistas do mainstream, distanciando a folia da cena carnavalesca local, a vitória de Ciça é muito simbólica.
Mestre Ciça começou em 1988 na Estácio de Sá e passou pelo comando das baterias da Unidas da Tijuca, Grande Rio e União da Ilha. Na Viradouro teve duas passagens, entre 1999 a 2009 e de 2019 para cá. Ciça é o símbolo do Carnaval numa atividade central da folia. A bateria é a identidade e a alma de qualquer agremiação.
Os blocos de Carnaval, quando começaram antes mesmo das escolas de samba, incluíam tambores e capoeira no cortejo. Depois, foram incorporados instrumentos musicais diversos. Formaram-se bandas e baterias, valorizando o espírito comunitário em bairros e cidades.
Coletivos carnavalescos com a participação efetiva da população na criação de fantasias, adereços e alegorias, tocando instrumentos, carregando estandartes, participando de ensaios e dos cortejos oficiais foram e são uma das maiores expressões de nossa cultura.
Estruturas carnavalescas pouco diferem das escolas de samba, um centro de sociabilização por excelência, para a atividade de convivência, canto, batucada e criação artística. Mestre Ciça surge nesse contexto extraordinário, com a responsabilidade de conduzir centenas de pessoas que se entregaram ali, na quadra, o ano inteiro, para colocar a escola na avenida.
Enquanto isso, vemos o crescimento desordenado dos megablocos, que não tem relação atávica com o carnaval, desarticulando estruturas carnavalescas que passam o ano inteiro contribuindo para o fortalecimento da identidade cultural e comunitária.
O que a gente quer é mais Mestre Ciça e menos K-Pop e Calvin Harris.
Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome
Depois de anos bicudos, voltamos a um Brasil minimamente normal. Este novo normal, contudo, segue repleto de incertezas. A ameaça bolsonarista persiste e os apetites do mercado e do Congresso continuam a pressionar o governo. Lá fora, o avanço global da extrema-direita e a brutalidade em Gaza e na Ucrânia arriscam implodir os frágeis alicerces da governança mundial.
CartaCapital não tem o apoio de bancos e fundações. Sobrevive, unicamente, da venda de anúncios e projetos e das contribuições de seus leitores. E seu apoio, leitor, é cada vez mais fundamental.
Não deixe a Carta parar. Se você valoriza o bom jornalismo, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal da revista ou contribua com o quanto puder.



