Fora da Faria
Uma coluna de negócios focada na economia real.
Fora da Faria
Uma disfunção cultural
Tema de marchinhas e sabor de energético, a tadalafila vira consumo recreativo e atalho para uma masculinidade performática
O lançamento do energético Baly sabor ‘Tadala’ no Carnaval joga luz sobre um fenômeno que vinha crescendo em silêncio: a transformação de medicamentos para disfunção erétil em produto de consumo recreativo entre jovens. O energético, edição limitada da Baly, é uma bebida regular registrada na Anvisa, sem fármacos na fórmula, mas com um nome que faz alusão direta à tadalafila, remédio indicado para homens com disfunção erétil. A marca explora a expressão comum entre os homens jovens, o apelido “tadala”, para o medicamento tadalafila.
A tadalafila, desenvolvida para tratar disfunção erétil e alguns problemas circulatórios, saiu do consultório médico e virou febre, sendo usada como pílula do fim de semana. Quando usada sob prescrição, é considerada relativamente segura. Mas especialistas alertam que, automedicação, doses erradas, combinações com álcool e outras drogas e uso sem avaliação cardiovascular prévia abrem espaço para efeitos graves.
Levantamento do Conselho Federal de Farmácia (CFF), com base em números da Anvisa, mostra que o consumo de tadalafila no Brasil cresceu cerca de 2.000% em nove anos, saltando de pouco mais de 3 milhões de unidades em 2015 para quase 65 milhões em 2024, o que colocou o genérico entre os remédios mais vendidos do país. Uma parcela expressiva dos usuários está na faixa de 18 a 34 anos, usando o fármaco sem indicação clínica, movida por insegurança, pressão por desempenho e apelos de influenciadores digitais que banalizam o comprimido em vídeos e podcasts.
A cultura da tadalafila ultrapassou os limites dos consultórios e está entrando no universo da performance sexual demonstrando que, apesar de tudo, os jovens ainda são os mesmos e vivem com seus pais. Constroem a ideia de que a performance sexual pode contribuir para uma imagem de superioridade. A diferença é que antes os homens não contavam usar um produto para disfunção erétil, algo que ofenderia (na opinião deles) sua masculinidade. Agora o tema é tratado em stand-ups, verbalizado por homens e mulheres e tratado de maneira cotidiana e bem-humorada.
A substância aparece no campo que já foi do álcool nos carnavais (eu vou beber, beber até cair) surgindo, por exemplo, na Marchinha da Tadala, de Boca Nervosa. E também na voz do grupo Barões da Pisadinha com Alanzim Coreano que têm uma música com nome Tadalafila. No clipe, cartelas de comprimidos são apresentadas e consumidas livremente. A música deixa patente uma situação já comum no final das baladas e nas ruas em que existem muitos bares frequentados por jovens. Muitas embalagens do produto aparecem no chão indicando consumo intensivo.
A Anvisa publicou alertas específicos sobre o uso indiscriminado de medicamentos para disfunção erétil, como sildenafila e tadalafila, por homens jovens sem diagnóstico, destacando riscos de hipotensão súbita, arritmias, infarto e acidente vascular cerebral, sobretudo quando há associação com álcool, drogas recreativas ou outros remédios cardiovasculares.
Há ainda o efeito menos visível: a dependência psicológica. Muitos jovens passam a acreditar que só conseguem ter uma relação “boa o suficiente” com ajuda do comprimido, o que agrava a ansiedade de desempenho e pode até desencadear problemas de ereção em quem não os tinha, por reforçar a ideia de que o corpo, sozinho, não dá conta.
O marketing de produtos mais eficiente e com menos investimento não cria tendências. Identifica uma onda e surfa nela. A Baly faz isso e, embora questionável, a estratégia não é incomum dentre as empresas de produtos de consumo. Em períodos anteriores, marcas de bebidas alcoólicas, de cigarro, automóveis, moda e outros associaram suas comunicações ao aumento de poder de sedução e desempenho sexual. O que impressiona é que, em pleno século XXI, enquanto se discute a existência de uma geração mais consciente em relação a seu corpo, seus limites e características, o truque mais antigo do mundo ainda prospere. Expõe ainda uma contradição evidente: textos falam de uma geração que reduz o consumo de álcool, porém, contraditoriamente, aumenta o grau de medicalização. Sempre para tratar uma disfunção, mesmo que imaginária.
Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome
Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.
O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.
Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.
Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.



