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Do #Knittok ao handmade: por que a Gen Z voltou às agulhas
A geração Z, dos nascidos entre 1995 e 2010, trouxe em seu pacote de itens básicos, invariavelmente, um celular. Sendo a primeira geração nascida na era da internet, os jovens adultos já enxergam os resultados de nascer com um smartphone em mãos: uma pesquisa da […]
A geração Z, dos nascidos entre 1995 e 2010, trouxe em seu pacote de itens básicos, invariavelmente, um celular. Sendo a primeira geração nascida na era da internet, os jovens adultos já enxergam os resultados de nascer com um smartphone em mãos: uma pesquisa da Deloitte Insights aponta que cerca de 40% dos membros da Geração Z relatam sentir-se estressados ou ansiosos “sempre ou na maior parte do tempo”; além disso, 46% já relataram ter um diagnóstico de algum problema de saúde mental — e ansiedade foi a condição mais comum relatada dentro desses diagnósticos, de acordo com a Harmony Healthcare IT.
Então soma-se uma sociedade hiper conectada com um mercado em constante busca por tendências, inovações, lançamentos do mais novo celular, a mais nova tecnologia, a inteligência artificial em pleno voo… A linha entre o óbvio e o absurdo é tênue quando você visita a casa de um Gen Z e, onde devia estar uma caixa de som de última geração, encontra-se uma vitrola. Ou uma viagem de amigas onde a mais velha tem no máximo 25 anos é fotografada por uma câmera descartável. O sonho de consumo de um recém adulto é um celular flip, que foi lançado antes mesmo de ele nascer. Por que?
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A volta para o mundo real
15% dos jovens declaram que prefere pensar no passado em vez do futuro, segundo um levantamento da plataforma GWI. E, como publicado na StudyFinds, 63% da Geração Z agora se desconecta intencionalmente, a maior taxa de qualquer geração. Parte disso pode se dever ao fato de que, enfim, os jovens se deram conta de que a vida nas redes sociais não é vida. “É cansativo. Você está na internet o tempo todo exposto rapidamente a vários tipos de mensagens, tudo muito superficial, muitas notícias. Você está sempre exposto”, comenta Aida Fonseca, psicóloga e proprietária da Novelaria, que além de ser a maior loja do Brasil de lãs, fios, agulhas e acessórios para diversos tipos de artes manuais, também conta com cursos de tricô, crochê, bordado, corte e costura, entre outros.
Ela enxerga a vontade dos mais novos em fugir, especialmente, da inteligência artificial. “Porque não é real, né? Então eu acho que eles (jovens) estão percebendo que estão sendo consumidas demais. Muitas pessoas vêm pra Novelaria por curiosidade, porque é divulgado pela rede social, e acabam descobrindo que é um outro mundo. E tem pessoas que fogem da IA. Fogem dessa coisa da internet, do TikTok, para concretizar um trabalho manual”, comenta.
Ao mesmo tempo, é possível afirmar que a própria rede social está impulsionando a tendência de sair da rede social: a #knittok – uma mistura entre knitting (tricô) e TikTok – conta com quase 345 mil vídeos publicados. “Tem muita gente que chega influenciada pelas redes, que vê TikTok, Instagram. Às vezes as pessoas vêm fazer aula porque viram um colete, alguma coisa de crochê ou tricô, e se interessam em aprender. Mas é tudo mais pelo que vê nas redes sociais”, diz Leonora Pimentel, professora de tricô e crochê da Novelaria. Aida concorda: “Eu acho que a pessoa é incentivada pela internet, mas quando ela chega e faz alguma coisa manual, faz a coisa física, ela entende que está offline, que está realmente descansando”. Isso revela o maior paradoxo dos GenZs: ver na internet algo que incentiva a geração da internet a sair da internet.

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Não é terapia, mas é terapêutico
Não precisa ser só tricô ou crochê. Tocar um instrumento, produzir peças de cerâmica, preparar uma receita ou até pintar Bobbie Goods – que entraram tão em moda que até música viraram em 2025 – vale para desopilar os cérebros completamente exaustos pelas telas. E isso quem está dizendo não sou eu – é a ciência. O Australian Occupational Therapy Journal revisou 19 estudos clínicos/experimentais que avaliaram atividades manuais como potenciais tratamentos para a ansiedade. Todos os estudos relataram melhora temporária no humor e na satisfação com a vida após intervenções baseadas em artes e craft. Mas os trabalhos com lã não ficam de fora.
“Quando você começa a fazer tricô ou crochê, você praticamente entra em um estado meditativo. Você repete, você se concentra, você tem foco, você sai um pouco dos seus problemas, porque você está ali, imbuída do seu trabalho. Não é terapia, como todo mundo sabe, mas é terapêutico. E a gente recebe muitas pessoas que vêm por indicação médica, ou para tratar síndrome do pânico, ou para tratar déficit de atenção”, conta Aida.
Para além disso, algo que a rede social não oferece é a pluralidade do processo: a felicidade não vem só em ver o produto pronto, mas em ver ele surgir aos poucos. “Você tem uma satisfação depois que faz o trabalho, porque não é só o trabalho pronto em si, é o processo que te leva até a conclusão do trabalho. ” Então, por exemplo, a gente ouve frases aqui como: “Aqui eu posso errar, porque eu posso começar de novo”, “Aqui eu consigo fazer perfeito”. Isso dá uma satisfação muito grande, principalmente quando você apresenta um projeto que você fez ou alguém elogia algo que você fez e você fala: “Não, fui eu que fiz”, né?”, afirma Aida. E Leonor complementa: “A pessoa fica muito encantada desde o começo, de ver que conseguiu fazer uma coisa que achou que nunca ia conseguir. E vê crescendo, e depois vê o resultado que deu”.
A arte de olhar com as mãos
Se o uso dos smartphones incentiva um, no máximo dois, sentidos do corpo humano, fazer um trabalho manual pode ativar todos – e isso é parte essencial da mágica da produção de algo real. “Quando você vem para cá, você se conecta com o real. Com o toque, por exemplo. O fio, a lã, a linha, são coisas que você precisa tocar. A gente fala que vê com as mãos. Porque você sente a maciez, se é mais áspero, se é mais quente ou mais frio, se é algodão ou linho”, diz Aida.
E essa ativação dos sentidos não é só uma reconexão com o mundo, mas também com o ser. “Aqui as pessoas entram em outra dimensão. Elas se reconectam, encontram no grupo uma sensação de pertencimento. Porque não é só a pessoa vir para fazer o seu trabalho manual. Quando as pessoas vêm para cá, como a gente tem aulas em grupo, elas se reconectam, são ouvidas, veem o trabalho do outro que está sendo feito, se interessam. Aqui é um lugar de calma, de relaxamento. É um lugar onde a gente convida as pessoas a virem, fazerem seu trabalho manual, aprenderem alguma técnica, se dedicarem a isso”, complementa.

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Saudosismo do não vivido
Apesar de ser possível se conectar com qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo em apenas dois ou três cliques, 80% das pessoas da Geração Z relataram ter sentido solidão entre 2024 e 2025, de acordo com pesquisa do aplicativo BeFriend. Esse é mais um desafio que passa a ser mais facilmente vencido com a volta ao mundo físico. “A gente acaba batendo papo. Você vê como a diferença de idades diversifica, e o pessoal escuta muito os mais velhos, tira opinião dos mais velhos, ouve os mais velhos, ficar ouvindo a conversa dos mais velhos, o que cada um fala, entendeu… Os mais velhos aprendem com os mais novos e os mais novos com os mais velhos. Inclusive eu, como professora, aprendo muito com todo mundo. É democrático. Todo mundo conversa com todo mundo. E a gente aprende com os alunos muitas coisas”, relata Leonor.
Não é por acaso. Um estudo realizado pelo New York Times com 2 mil estadunidenses da geração Z mostrou que 68% dos jovens relatam sentir nostalgia por épocas anteriores à sua vida, e 73% sentem atração por mídia, estilos e hobbies de períodos anteriores. Junta essa vontade pelo antigo com a necessidade de fugir do novo e o resultado é uma conexão intensa com o passado. A Aida acredita que essa tendência “é um reconectar com você mesmo, um reconectar com raízes antigas. Por exemplo, quase todo mundo tem uma avó, uma mãe que já fez tricô e crochê. Não é só a pessoa vir para fazer o seu trabalho manual. Quando as pessoas vêm para cá, como a gente tem aulas em grupo, elas se reconectam, são ouvidas, veem o trabalho do outro que está sendo feito, se interessam”.
“Nós recebemos todo mundo com muito carinho”, ela disse. É verdade. Eu fiz uma aula de tricô no mesmo dia que conheci e conversei com a dona e a professora da Novelaria. Fiquei agoniada com a ideia de passar três horas – que é o tempo que dura um curso por lá – fazendo um trabalho manual, sem pegar no celular. É fácil imaginar a minha surpresa quando eu, achando que mal tinham se passado 20 minutos, estava há mais de duas horas tricotando. Não me lembro quando foi a última vez que consegui passar tanto tempo desconectada, e nem se tinha noção do quanto precisava disso. “Existe essa vontade da pessoa sair um pouco dessa loucura, da correria do dia a dia, para se reconectar e desenvolver algo, criar algo. Porque também é uma criação, né? A criatividade é aflorada”, finaliza Aida.
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