Política
O ano todo na sombrinha
O frevo não precisa esperar o próximo carnaval para retomar seu protagonismo, defende Climério Oliveira
pO frevo é, talvez, o ritmo que mais brilha no carnaval de Pernambuco, mas essa intensa popularidade também o mantém confinado a um espaço efêmero e segmentado. No recém-lançado FrevoBook, os músicos e pesquisadores Climério Oliveira, Marcos FM e Spok mostram que o gênero pode ir além do período de folia e se tornar música perene, capaz de alegrar a população ao longo de todo o ano. A obra reúne a história do ritmo, um repertório diverso com autores clássicos e contemporâneos e dezenas de partituras. “Sentimos a necessidade de criar um livro em que as pessoas pudessem pegar as músicas e tocá-las, tanto no carnaval quanto fora dele”, explica Oliveira em entrevista à repórter Fabíola Mendonça.
CartaCapital: Centenário e reconhecido como Patrimônio Imaterial da Humanidade pela Unesco, o frevo continua fortemente associado ao carnaval. O FrevoBook pretende mudar essa percepção?
Climério Oliveira: O Frevo Book surgiu a partir de uma inquietação dos outros dois autores, Marcos FM e maestro Spok: a necessidade de criar um livro que permitisse às pessoas tocar suas músicas tanto no carnaval quanto fora dele. Estudei essa ideia e decidimos levá-la adiante. Simplificamos uma grade de partituras e a adaptamos para qualquer músico que queira tocá-las – seja no teclado, seja na sanfona, violão, flauta ou em outro instrumento melódico. Pensamos em um repertório que contemplasse as três modalidades do frevo: o frevo de rua, instrumental; o frevo-canção, cantado e mais acelerado; e o frevo de bloco, cantado nos blocos líricos ou de pau e corda, mais cadenciado. Selecionamos autores clássicos, como Capiba, Nelson Ferreira, Levino Ferreira, Emílio de Oliveira, Edson Rodrigues, maestro Formiga e Ademir Araújo – todos ícones do frevo – e contemporâneos, incluindo Maurício Cavalcante, Spok, Marcos FM, maestro Forró, Flaira Ferro e Pandora Calheiros, além de músicas de minha autoria, Rogério Rangel e Orquestra Malassombro. O livro une duas épocas, sendo uma obra tanto para músicos quanto para quem se interessa pela história e tradição do frevo.
CC: Qual é a grande marca do frevo na atualidade?
CO: O frevo vive um momento diversificado. No âmbito instrumental, há orquestras que dialogam com o jazz, outras que exploram o minimalismo e extrapolam a linha entre o erudito e o popular. Henrique Albino mistura frevo com a musicalidade de nomes como Hermeto Pascoal. Flaira Ferro vai por outra vertente, ligada ao rock feminista. Há quem dialogue com o frevo tradicional, mas com o frescor da juventude contemporânea. O maestro Forró é um exemplo: ele se apresenta como um clown, um palhaço no sentido circense da expressão, satirizando a figura do maestro sério, com gestos cênicos e acrobáticos – até planta bananeira no palco. André Rio passou por uma fase dialogando com o axé baiano e criou um frevo pop pernambucano nos anos 1990, com Nena Queiroga e Beto Leal, resultando em hits inesquecíveis como Chuva de Sombrinha. Esse tipo de diversidade é fundamental para que o frevo moderno dialogue com o tradicional.
CC: Como tornar o frevo um ritmo perene, não limitado ao carnaval?
CO: O Paço do Frevo, no Recife, tem promovido atividades durante o ano inteiro, colocando o frevo em diálogo com outros ritmos e experimentações. Isso cria um laboratório cultural de intercâmbios e movimentos interculturais. Para que o gênero ganhe mais espaço, ele precisa abordar temas mais cosmopolitas e universais: questões do cotidiano, que toquem as pessoas, e que possam integrar novelas, filmes, séries ou curtas-metragens.
CC: O axé baiano parece fazer isso com maestria.
CO: Exatamente. É preciso criar oportunidades de diálogo com produtores de shows, eventos, hotéis e todos os ambientes que possam tocar o frevo. Quando se trabalha apenas com temas fora da contemporaneidade, o ritmo torna-se exceção. Quando Capiba diz “cala a boca, menino” ou que “numa mulher não se bate nem com uma flor”, ele já lidava com temáticas atuais. Compositores contemporâneos poderiam fazer releituras sonoras, trazendo intercâmbio e diversidade ao frevo, algo que ainda falta.
Obra. Entre Spok e Marcos FM, o músico exibe o FrevoBook – Imagem: Anderson Stevens
CC: Ouvimos muito dizer que o frevo não se renovou, que parou no tempo.
CO: Quem diz isso não percebe o que realmente está acontecendo. Estão ofuscados pelas construções do mercado. Popularidade não se mede apenas por visualizações em redes sociais. Há músicos inovando no frevo agora mesmo, ainda que não sejam amplamente conhecidos. Se o som do frevo for associado apenas ao carnaval, fora dele será visto como música sazonal. Mas se produtores colocarem o frevo em outros contextos – como Kleber Mendonça Filho fez no filme O Agente Secreto –, ele se torna global. Isso mostra a importância de temas universais e de ocupar espaços fora do carnaval. A música deve fazer parte da vida das pessoas, marcar momentos.
CC: Por que o mercado não reconhece o frevo como produto?
CO: A indústria trabalha com investimento, e esse investimento precisa caminhar juntamente com a diversificação temática. Há também a ousadia dos artistas. O frevo já ocupou espaços nacionais. Um exemplo é a música Evocação, de Nelson Ferreira, que por muito tempo foi cantarolada por todos. Asas da América, de Carlos Fernando, foi uma inovação em sua época, embora muitos do frevo tradicional tenham criticado o uso de baixo e guitarra elétrica. Carlos Fernando renovou letras frequentemente saudosistas e utilizou a chamada moderna orquestra de frevo, estruturando baixo, guitarra, bateria e outros instrumentos em uma base rítmica homofônica. Ele ainda convidou músicos da MPB e do rock para cantar frevo. Foi um dos que mais inovaram, e faltam outros como ele em outras frentes de atuação. O frevo deu uma renovada marcante com Asas da América, assim como na ousada experiência de Silvério Pessoa no disco Micróbio do Frevo.
CC: O frevo não é só música, é dança, corpo, luta…
CO: Exato. A música é multifacetada: carrega signos, significados e significantes. É veículo de sentimentos, de afetos, sonoriza o que comunicamos. Como não se pode “pegar” a música, ela não tem cor nem cheiro – fisicamente é muito fugaz, existe apenas enquanto está acontecendo. Só nos damos conta da forma total dela quando começa e termina: aí percebemos que houve um refrão, que existiu a parte A, a parte B. Mas, enquanto acontece, ainda não chegamos ao final dessa forma. A música é uma arte diferente, cheia de particularidades. É uma série de elementos reunidos e, se você retirar qualquer um deles, deixa de ser música. Tudo isso também se aplica ao frevo. •
Publicado na edição n° 1400 de CartaCapital, em 18 de fevereiro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O ano todo na sombrinha’
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