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Esqueletos da Guanabara

Por determinação judicial, o governo fluminense inicia a remoção do “cemitério de embarcações” da Baía

Esqueletos da Guanabara
Esqueletos da Guanabara
Queixas. As carcaças dificultam a locomoção dos pescadores, diz Adalberto Ferreira. As dragagens poderiam melhorar o fluxo de água, sugere João Paulo Silva – Imagem: Luca Meola
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Na tarde de céu aberto, mas com tempestade no horizonte, o pequeno barco a motor conduzido pelo pescador João Paulo Silva navega pela Guanabara entre um cemitério de carcaças. Dos pequenos e médios barcos pesqueiros aos gigantes de ferro abandonados ao relento, são pelo menos 80 embarcações sem condições de uso, segundo um mapeamento da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Capitania dos Portos. Parcialmente submersos ou ainda flutuando, eles estão concentrados principalmente entre a região do Gradim, em São Gonçalo, o Canal de São Lourenço e a Ilha da Conceição, em Niterói. Um passivo social, econômico e ambiental que faz o plano de despoluição da Baía – iniciado em 1994 e jamais concluído – parecer uma piada de mau gosto.

À exceção de um arremedo de solução no governo de Sérgio Cabral, que drenou dinheiro público e retirou algumas embarcações às vésperas das Olimpíadas de 2016, os governadores que se seguiram no Palácio Guanabara ignoraram a questão. O termo “cemitério de embarcações” foi cunhado pelo histórico ambientalista Elmo Amador, já falecido, durante o encontro global Rio-Eco92. Quatro décadas depois, pescadores, caiçaras e outros atores econômicos afetados veem­ renovada a esperança de que o problema seja finalmente resolvido. Por determinação da Justiça Federal, o governo do Rio formou, em dezembro, um Comitê Científico para coordenar a remoção das carcaças, com promessa de início dos trabalhos em agosto.

O colegiado realizou sua primeira reunião em janeiro. Liderado pelo Instituto Estadual do Ambiente (Inea), é formado, entre outros, por Ibama, Marinha (Capitania dos Portos), prefeituras dos municípios do entorno da Baía, UFF e Movimento Baía Viva, organização da sociedade civil que acionou o Ministério Público Federal para obrigar o governo fluminense a agir. A verba do programa é de 25 milhões de reais, calculada pela UFF e proveniente do Fundo Estadual de Conservação Ambiental (Fecam). O primeiro obstáculo do Comitê Científico é a divergência sobre a contratação da empresa responsável pelo descomissionamento e desmantelamento: enquanto o governo planeja uma licitação, a Marinha sugere a contratação direta da Empresa Gerencial de Projetos Navais ­(Emgepron), subordinada ao Ministério da Defesa e com expertise comprovada.

Mais de 80 barcos e navios se desintegram no mar, estima a UFF e a Capitania dos Portos

Primeiro, será realizada uma licitação para a retirada de resíduos de embarcações com cascos de madeira, informa o Inea. “Na sequência, será licitada a remoção de carcaças com casco de metal e a logística para reaproveitamento do resíduo. Em paralelo, o Instituto capacitará os agentes públicos que atuam na Baía de Guanabara em descomissionamento e desmantelamento de embarcações”, diz Ricardo Marcelo, técnico do governo estadual que atuará na coordenação do programa.

Pescador e navegante habilidoso, João Paulo levou a equipe de CartaCapital para conhecer de perto o impressionante cemitério de embarcações da Guanabara: “A Baía ainda está muito poluída. Está melhorando aos poucos, mas pode melhorar muito mais”, afirma. Morador da Ilha da Conceição, ele não entende por que nunca foram realizadas ao menos as dragagens que ajudariam a revitalizar um local que já foi um dos principais entrepostos pesqueiros do País. “Com a dragagem pode ser que haja mais correnteza. Aí, o fluxo da água poderia circular melhor e teríamos uma redução da poluição”, explica.

Coordenador do Movimento Baía Viva, Sérgio Ricardo de Lima lamenta o que qualifica como “um descaso muito grande” do Poder Público: “Já ocorreram vários acidentes. Dentro dessas embarcações abandonadas tem óleo, verniz, combustível. Tudo isso vaza para a baía”. A organização defende que as populações afetadas participem do processo decisório e sejam beneficiadas. “É fundamental que os recursos financeiros obtidos com a destinação dessas embarcações para reciclagem como sucata nas siderúrgicas seja destinado à reparação dos danos que as comunidades pesqueiras sofreram ao longo do tempo. Propomos ações concretas de melhoria da saúde ambiental da baía.”

Por fases. A primeira licitação será exclusiva para a remoção de barcos com cascos de madeira. Os gigantes de metal só serão retirados em uma segunda etapa – Imagem: Luca Meola

Lima critica a lógica do Poder Público: “Não podemos tratar a Baía de Guanabara como estacionamento industrial em que o pescador seja coisa do passado. A economia do mar deve valorizar a pesca artesanal, os manguezais e as comunidades tradicionais, essenciais para o turismo e a saúde da população. Há um conflito de projetos de futuro”.

O Baía Viva propõe que os pescadores reaprendam a construir embarcações. “A pesca artesanal é uma das ciências mais antigas da humanidade e, provavelmente, a carpintaria artesanal é o pai e a mãe da engenharia naval e da arquitetura. Estamos trabalhando na valorização desse conhecimento tradicional, pois hoje poucos jovens, filhos de pescadores, sabem trabalhar nesse ofício. Eles não sabem reformar nem construir embarcações. Isso também explica por que tantos barcos estão abandonados”, justifica.

Órgãos federais prometem contribuir para a resolução do problema. “O MPF está acompanhando, por meio de procedimento e ação civil, o andamento do cronograma. Estamos falando de um passivo de décadas. O MPF quer resolver logo a retirada das embarcações e identificar os possíveis responsáveis. Aí, sim, iremos pensar numa medida compensatória”, afirma o procurador da República José Maria Panoeiro.

Desde a Rio-Eco92, ambientalistas alertam para o problema, que os sucessivos governos relutaram em enfrentar

Rogério Rocco, superintendente do Ibama no Rio, afirma que o cemitério de embarcações “é uma realidade antiga que exige providências do Poder Público”. Ele ressalta que há grande interesse do governo federal, mas que a competência primária é do governo estadual, por meio do Inea e da Capitania dos Portos. “Estes são responsáveis, respectivamente, pelo licenciamento ambiental e pela regulação da navegação e do fundeio de embarcações na Baía de Guanabara. O Ibama acompanha os dois órgãos e segue à disposição para colaborar com o plano elaborado.”

Enquanto aguardam providências das autoridades, moradores da Ilha da Conceição lamentam a situação. “Quando a maré está baixa, tudo é lama e não tem profundidade. Vários barcos encalharam e, depois, foram afundando, porque os pescadores não tinham dinheiro para remover as carcaças”, diz Moacyr Garcia, liderança local. Aos 67 anos, ele se emociona ao lembrar do “paraíso” perdido: “Na minha época de criança, eu vinha aqui, onde tinha uma pontezinha de madeira, e a gente mergulhava e nadava. Hoje, o esgoto corre a céu aberto e tem muito barco quebrado”.

Garcia ressalta que o Terminal Público Pesqueiro de Niterói, concluído em 2013, jamais entrou em funcionamento porque os barcos não conseguem alcançar as docas, devido às carcaças. “A Baía sempre foi um berçário de peixes. Eles vinham desovar e depois voltavam para fora por causa do encontro das águas doce e salgada. Não era só peixe, também tinha camarão, lula, tudo. Hoje, todos estão em extinção. Alguns municípios tratam o esgoto, mas muitos ainda não, e tudo vai parar na Baía”, destaca.

Poluição. Antigo berçário de peixes, a Guanabara tem perdido várias espécies, lamenta Moacyr Garcia. “Despejam muito esgoto aqui” – Imagem: Luca Meola

Também pescador, Adalberto Ferreira Filho afirma que nas águas da Baía próximas à ilha só há ferro-velho, pintura e óleo. “Não tem mais peixe. Vivemos no maior desespero, está tudo acabado. É preciso tirar esses pedaços de navios velhos que ficam na água e nos engancham. O pescador não ganha dinheiro”, observa. Há 60 anos na profissão, Adalberto espera por dias melhores: “As coisas estão muito difíceis por aqui. Passamos por um tempo ruim, mas esperamos uma melhora, que alguém resolva alguma coisa”.

O coordenador do Baía Viva alerta que outros pontos do litoral do Rio também demandam atenção, devido à grande quantidade de barcos abandonados. “Em janeiro, fizemos uma vistoria em várias praias e manguezais de Angra dos Reis e vimos mais de cem embarcações abandonadas. A frota de pesca no Rio é uma das mais antigas do País. Houve decadência da economia da pesca, não houve renovação da frota, e isso foi ficando abandonado”, diz. Existe uma proposta do governo estadual para que a retirada das embarcações seja feita pelos municípios. “Será uma queda de braço”, antevê Lima. •

Publicado na edição n° 1400 de CartaCapital, em 18 de fevereiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Esqueletos da Guanabara’

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