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Páginas da revolução

O escritor português Hugo Gonçalves criou uma família ficcional dividida pelas diferentes posições em relação ao salazarismo

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O autor coloca seus personagens numa moldura social e histórica – Imagem: Redes Sociais
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Como em todo o resto na ficção – a família, o casamento, a maternidade ou o luto –, também as revoluções poderiam ser vistas a partir do sofá”, diz o narrador de Revolução, enquanto observa os movimentos internos e externos de uma família a partir do 25 de Abril de 1974, em Portugal.

A derrubada da ditadura de Salazar, ocorrida nessa data, com a Revolução dos Cravos, é um evento central no romance do português Hugo Gonçalves. “Nos canos das metralhadoras que matavam na guerra, havia agora cravos oferecidos à passagem dos soldados”, diz, a certa altura, o narrador.

A trama acompanha os Storm, família de classe média alta, proprietária de um hotel. Os integrantes do clã ocupam diferentes pontos no espectro político daquele momento.

A narrativa transita entre a proximidade e o distanciamento dos personagens. Ao mesmo tempo que o autor é capaz de entrar nos pensamentos daquelas figuras, ele as coloca numa moldura social e histórica que instala certa dubiedade no relato.

A mais velha dos Storm é Maria Luísa – apelidada de Malu Tormenta por Getúlio Vargas, quando o brasileiro se hospedou no hotel. Opositora do regime, ela é presa, torturada e torna-se uma figura de destaque na luta contra a ditadura.

Revolução. Hugo Gonçalves. Companhia das Letras (432 págs. 99,90 reais)

Sua irmã do meio, Pureza, faz parte da extrema-direita, ao lado do marido, que lucra com o regime. Ela tem uma filha pequena, Malu, mas, embora seu grande desejo seja ter outro filho, sofre constantes abortos espontâneos.

Já Frederico, o irmão caçula, sonha em ter a primeira relação sexual antes de ir para a guerra colonial portuguesa.

Ele é o personagem mais complexo, pois, enquanto as irmãs estão convictas de suas posições, e nos são assim apresentadas, o jovem transita entre ideologias e visões de mundo, em busca de compreender seu país e a si mesmo.

As jornadas dos três irmãos são, naturalmente, nebulosas, marcadas por acertos e erros. Se, como escreve Gonçalves, há muitas revoluções “vistas a partir do sofá”, o trio de irmãos deste romance está longe de uma postura passiva, de simples aceitação das consequências do salazarismo.

A marca dos três é a ação – ainda que, às vezes, eles pareçam não saber o porquê de estarem fazendo aquilo que fazem.

Como pano de fundo, o romance apresenta um país conturbado, dividido entre desejos e determinações, e à espera de dias melhores e mais pacíficos. •

Publicado na edição n° 1400 de CartaCapital, em 18 de fevereiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Páginas da revolução’

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