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Um clássico com toque pop

O Morro dos Ventos Uivantes ganha uma versão tão controversa quanto exuberante da diretora Emerald Fennell

Um clássico com toque pop
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Amores. O filme de 2026, em cartaz desde a quinta-feira 12, foi criticado pela escolha de Margot Robbie e Jacob Elordi para o elenco. Laurence Olivier e Ralph Fiennes viveram Heathcliff nos anos 1930 e 1990 – Imagem: Warner, Paramount Pictures e Samuel Goldwyn
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Publicado em 1847, o romance O Morro dos Ventos ­Uivantes soma, aproximadamente, 30 adaptações audiovisuais, entre filmes e séries de tevê. É um dos livros mais revisitados por roteiristas e diretores de vários países e estilos.

A trama foi escrita pela poetisa e escritora britânica Emily Brontë ­(1818­–1848). Nesse que é seu único romance, a autora cria personagens esfacelados por paixões, ambições e ressentimentos que aparecem emoldurados por um cenário natural tão sombrio quanto bucólico.

A trama e o ambiente originais parecem ter encontrado nas telas sua tradução perfeita. Não por acaso, o livro segue a se prestar a releituras e reconfigurações.

Nesta quinta-feira dia 14, estreia nos cinemas brasileiros a mais recente transposição da história, agora escrita e dirigida por Emerald Fennell, conterrânea de Emily­. Em seu terceiro longa-metragem como diretora, Emerald, que é também atriz e ganhou o Oscar de roteiro original por Bela Vingança (2020), teve, sobre O Morro dos Ventos Uivantes, uma visão singular.

Essa singularidade tem feito com que, desde o primeiro teaser, divulgado em meados de 2024, o longa-metragem provoque controvérsias.

Parte das polêmicas fixou-se nas escolhas de elenco e na caracterização. Os protagonistas do filme são a australiana Margot Robbie – de Barbie (2023) –, loiríssima, e o anglo-saxão Jacob Elordi­ – de Frankenstein (2025). Eles interpretam, respectivamente, Catherine, jovem de cabelos escuros, e Heathcliff, rapaz de origem cigana e “pele escura” – conforme descrição do livro – que passa por várias situações de opressão por sua origem social e étnica.

Cabe registrar que esta não é a primeira vez que o personagem é interpretado por alguém de etnia distinta daquela descrita no romance. A adaptação mais famosa do livro, de 1939, dirigida por William Wyler (1902–1981), trazia Laurence Olivier (1907–1989) no papel.

Outros atores bastante conhecidos, como Ralph Fiennes, Timothy Dalton e Tom Hardy, já deram corpo e rosto ao enigmático Heathcliff. Hoje, no entanto, o olhar sobre a representativa personagem é mais agudo e muitos grupos atentos ao apagamento de traços de raça em obras de ficção consideraram ofensiva a escolha do branco e longilíneo Elordi.

Outro aspecto a causar burburinho é a visão romântica e barroca de Emerald Fennell­ a respeito de uma história conhecida por seus contornos trágicos e marcas de comportamentos abusivos. A diretora deu ao enredo uma roupagem trágica e moderna, colorida e extravagante, de viés sexualmente provocativo – algo que a trilha sonora da cantora pop Charlie XCX acentua.

Publicado em 1847, o romance de Emily Brontë foi adpatado umas 30 vezes para o cinema ou a tevê

Essas questões ocuparam noticiários e redes sociais meses antes da estreia, mas não parecem ter contaminado a recepção. Em sessões nos Estados Unidos na semana passada, críticos norte-americanos apontaram O Morro dos Ventos Uivantes como uma das grandes surpresas do começo de ano. Vários textos detalharam as buscas estéticas e narrativas de Fennell para além da fidelidade pura e simples ao célebre romance.

A primeira versão fílmica de O Morro dos Ventos Uivantes data de 1920, com direção assinada por A.V. Brumble. Como as cópias desse filme desapareceram, a versão de Wyler tornou-se a mais antiga conhecida. André Bazin (1918–1958), teórico-chave da formação do pensamento cinematográfico do século XX, considera a produção um dos grandes exemplares da grandiosidade de Hollywood.

Chama ainda atenção o fato de, para além das adaptações em língua inglesa, o livro ter sido reapropriado por outras culturas, cada uma a pinçar algum elemento específico – o que reforça a riqueza do texto. Em 1954, o espanhol Luis Buñuel (1900–1984) fez seu Escravos do Rancor, no México, em 1954, aprofundando o tom melodramático. Ainda na década de 1950, Shaheed Latif (1913–1967) transpôs o romance para um vilarejo na Índia. Em 1988, Yoshishige Yoshida (1933–2022) levou a história ao Japão medieval.

O Brasil também teve seu O Morro dos Ventos Uivantes. Em 1959, foi lançado ­Ravina, filme produzido por Flávio ­Tambellini e escrito e dirigido por ­Rubem Biáfora. O cineasta era também crítico de cinema e assumidamente fã da versão de Wyler. Sua inovação foi trocar o gênero dos personagens, colocando a atriz Eliane Lage no papel de um Heathcliff feminino e criando várias intrigas ao redor dos apaixonados Sérgio Hingst e Mário Sérgio.

Antes de Fennell, a versão de cinema mais recente tinha sido de outra diretora inglesa, Andrea Arnold, em 2011. Ela transpôs o enredo numa chave mais melancólica e de lenta construção e escalou um ator negro, James Howson, no papel de Heathcliff. Em certa medida, Emerald Fennell buscou no seu O Morro dos Ventos Uivantes a antítese das formas já bastante exploradas de uma mesma história. •

Publicado na edição n° 1400 de CartaCapital, em 18 de fevereiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Um clássico com toque pop’

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