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Totalmente ilhados

Com a intervenção dos EUA na Venezuela e as novas sanções, o país atinge um nível de isolamento sem precedentes

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Asfixia. Sem combustível, os apagões agora duram de 12 a 14 horas por dia. Trump aperta o cerco e faz chacota: “Marco Rubio será presidente de Cuba” – Imagem: Adalberto Roque/AFP e Saul Loeb/AFP
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E pouco provável que Cuba sofra uma invasão territorial, como a Venezuela, tampouco que seja alvo de bombardeios como o Irã. O objetivo de ­Donald Trump, tudo indica, é asfixiar o país por meio do bloqueio ao ingresso de petróleo, alimentos, máquinas e equipamentos, medicamentos e todo e qualquer gênero de primeira necessidade, até o ponto de a vida se tornar insuportável na ilha. A infame frase do comandante da Força Aérea Curtis Le May de que os Estados Unidos deveriam fazer o Vietnã “retroceder até a Idade da Pedra” parece mover a atual escalada imperial no Caribe.

Ao contrário de Venezuela e Irã, decisivos para o fornecimento de petróleo à China, oponente estratégico dos EUA, Cuba não representa ameaça de nenhum tipo. O país conta muito mais para a política interna, num ano de eleições parlamentares, por galvanizar o voto da comunidade cubana ultraconservadora da Flórida.

Em 12 de dezembro de 2025, a Marinha estadunidense estacionada no Caribe sequestrouu um navio petroleiro venezuelano a meio caminho de Cuba. Começava ali a interrupção do fluxo médio de 27 mil barris diários à ilha, estrangulando uma economia há quase uma década em crise. O país buscava se recuperar ainda dos efeitos devastadores da pandemia sobre o turismo, uma de suas principais fontes de divisas.

Em 8 de janeiro, Trump reproduziu nas redes sociais uma provocação barata: “Marco Rubio será presidente de Cuba”. Um tapa na cara de Havana. O secretário de Estado, filho de cubanos emigrados para os Estados Unidos três anos antes da chegada de Fidel Castro ao poder, jamais viveu na ilha, mas devota uma aversão ruidosa à revolução. O comportamento garantiu-lhe vitória na disputa pelo Senado em 2010. Nascido em 1971, Rubio cresceu em meio à reacionária comunidade latina da Flórida.

O objetivo da Casa Branca é tornar insuportável a vida dos cubanos

Três semanas depois, a Casa Branca intensificou a carga. Em decreto de 29 de janeiro, Trump argumenta: “O governo de Cuba (…) alinha-se a países hostis, grupos terroristas transnacionais e agentes malignos contrários aos Estados Unidos, incluindo a Federação Russa, a República Popular da China, o governo do Irã, o Hamas­ e o Hezbollah”. O argumento, sem comprovação, serviu para alertar que, se “um país estrangeiro vende ou fornece petróleo a Cuba, direta ou indiretamente”, sofrerá retaliações tarifárias.

As sanções atingem praticamente todas as atividades cotidianas. Na sexta-feira 6, o comitê organizador da 34ª Feira Internacional do Livro de Havana comunicou o adiamento do evento a uma semana de seu início. Motivo: “a situação extraordinária que o país atravessa”. No mesmo dia, foi comunicado que a circulação de trens entre Havana e as principais cidades obedecerá a intervalos de oito dias. Escolas e universidades funcionam em horários limitados e laboratórios e equipamentos orgulhos da ciência cubana começam a se deteriorar. O fornecimento de energia elétrica, antes submetido a racionamento programado, agora se dá sem aviso prévio, com apagões de 12 a 14 horas diárias. Sem combustíveis e sem energia, a precariedade na coleta de lixo faz das ruas, avenidas e terrenos baldios lixões improvisados.

Washington radicaliza um cerco ininterrupto de quase sete décadas. O embargo econômico a Cuba coincide com a história da revolução, vitoriosa em 1º de janeiro de 1959. Seis meses depois da entrada triunfal de Fidel Castro e do exército rebelde em Havana, o governo Eisenhower­ cancelou as importações de açúcar. Começava ali a mais longa série de sanções imposta internacionalmente desde a Revolução Francesa. A administração cubana denuncia o bloqueio como “ato de guerra em tempos de paz”.

Em 8 de fevereiro de 1962, o presidente John Kennedy proibiu todas as importações de Cuba, oito meses após Castro anunciar a construção de uma “república socialista” e três semanas depois de o país ser expulso da Organização dos Estados Americanos. Ao longo dos anos, os EUA apertaram o torniquete. Em 1963, viagens entre os dois países foram restringidas. A partir daí mais seis dispositivos legais aprofundaram as pressões, culminando com duas normas, no fim do século. Trata-se das leis Torricelli (1992) e Helms Burton (1996), sancionadas durante o chamado Período Especial. O objetivo era punir empresas estadunidenses ou estrangeiras que realizassem qualquer transação com Cuba.

Coluna ereta. Os cubanos protestam contra o assédio da Casa Branca – Imagem: Giorgio Viera/AFP

Entre 2009 e 2011, Barack Obama suspendeu várias restrições de viagens, tendo como horizonte o restabelecimento de relações diplomáticas, rompidas desde janeiro de 1961. Todos esses avanços foram revertidos no primeiro mandato de Trump. Além do cerco econômico, o governo cubano computa quase 600 tentativas de assassinato de Castro, entre 1959 e 2008, além de dezenas de atentados terroristas contra a ilha. Condenado várias vezes em votações quase unânimes na Assembleia-Geral da ONU, desde 1992, o embargo jamais foi revogado.

Durante o primeiro governo Trump, foram adotadas mais 243 medidas restritivas. Para coroar o torniquete político e econômico, a Casa Branca incluiu Cuba numa arbitrária lista de Estados patrocinadores do terrorismo. Em 2020, no auge da pandemia, empresas chinesas foram proibidas de entregar doações de máscaras, kits de diagnóstico e ventiladores pulmonares.

A crise atual é, porém, mais grave do que aquela enfrentada após a quebra do socialismo no Leste Europeu. O fim do acesso ao petróleo e a outras mercadorias em condições vantajosas abalaram uma economia frágil, baseada na cana-de-açúcar e em produtos de baixa complexidade. De 1990 a 1994, o PIB cubano caiu 36%, as exportações 80% e as importações 73%, segundo dados oficiais. Não faltaram vozes nos meios políticos e na mídia ocidental a vaticinar a crise final de uma das últimas experiências socialistas do mundo. Em extensa entrevista realizada por ­Ignacio Ramonet e publicada em Biografia a Duas Vozes (Boitempo, 2006), Castro descreve aqueles tempos: “Sofremos um golpe devastador quando, de um dia para o outro, aquela potência (a URSS) desmoronou e nos deixou sozinhos. Perdemos todos os mercados de açúcar e deixamos de receber mantimentos, combustível e até madeira para fazer caixões para os nossos mortos”.

A situação só se estabilizou quando Hugo­ Chávez foi eleito presidente da V­enezuela, em fins de 1998. Um acordo de cooperação firmado dois anos depois estipulava o fornecimento de 53 mil barris diários de petróleo a Cuba, em condições especiais, tendo por base os preços internacionais. Em contrapartida, Castro comprometeu-se a compensar as facilidades de financiamento por meio do fornecimento de serviços médicos, educacionais e esportivos. Após a crise venezuelana de 2013, as remessas se reduziram à metade.

À exceção do México, países da América Latina não ousam enfrentar a Casa Branca

Na sexta-feira 6, o presidente cubano, Miguel Diaz-Canel, declarou em entrevista coletiva que “Cuba está aberta ao diálogo com os Estados Unidos sobre qualquer assunto que possa ser discutido. Sem pré-condições, em pé de igualdade, com respeito à nossa soberania, à nossa independência e à nossa autodeterminação”. Até aqui, a declaração não encontrou eco. Apesar da situação, Diaz-Canel repele a ideia de um “país falido” disseminada pelo presidente estadunidense.

Num corajoso gesto, o México anunciou no domingo 8 o envio a Cuba de dois navios com 814 toneladas de alimentos e produtos de higiene pessoal. A presidenta Claudia Sheinbaum declarou-se empenhada em retomar o fornecimento regular de petróleo. Foi o que bastou para a Casa Branca ameaçar o vizinho. No dia seguinte, Sheinbaum foi forçada a desistir. Mesmo assim, o país se constitui, até aqui, em absoluta exceção na América Latina.

Os problemas entre Cuba e o Império vêm desde a Independência, primeiro da Espanha (1898) e, depois, dos Estados Unidos (1902). As condições impostas por este último foram draconianas.

Em fevereiro de 1901, o senador Orville­ Platt, republicano, subiu à tribuna para apresentar uma emenda a um Projeto de Lei que balizaria o relacionamento entre Washington e o novo Estado. Seu curto texto afirmava, entre outras coisas, “que o governo de Cuba consinta que os Estados Unidos exerçam o direito de intervir pela preservação da independência cubana, pela manutenção de um governo adequado à proteção da vida, da propriedade e da liberdade individual”. A ilha foi forçada a incluir o texto em sua própria Constituição. Apesar de revogada em 1934, os efeitos perdurariam por mais um quarto de século e ficariam gravados de forma perene na memória nacional. Desde 1959, as crianças aprendem, no ensino fundamental, que aquele tipo de vergonha nacional não pode se repetir. O mesmo inimigo agora tenta colocá-los de joelhos. •


*Historiador e professor de Relações Internacionais na UFABC.

Publicado na edição n° 1400 de CartaCapital, em 18 de fevereiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Totalmente ilhados’

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