Política
Aceno de Lula por vice do MDB expõe guerra regional no partido
Enquanto lideranças do Norte e do Nordeste veem na aliança um caminho para ampliar espaço no governo, o Sul e o Sudeste trabalham para manter distância
A possibilidade de o presidente Lula (PT) escolher alguém do MDB como candidato a vice intensificou disputas internas no partido e aprofundou rachaduras regionais. De um lado, lideranças do Norte e do Nordeste trabalham para convencer o Planalto de que o MDB pode ampliar a coalizão governista. De outro, uma ala forte no Sul e no Sudeste rejeita a aproximação com o PT e se movimenta para manter distância.
A movimentação favorável à aliança ganhou fôlego após Renan Calheiros (AL) afirmar, nesta terça-feira 10, que Lula manifestou diretamente o desejo de ter um vice do partido. Segundo ele, o sinal teria sido dado no dia 17 de dezembro de 2025, durante uma conversa reservada na Granja do Torto. A informação foi revelada pelo jornal O Globo. Naquele mesmo dia, Lula reuniu seus ministros em um encontro no qual discutiu cenários eleitorais e definiu quais integrantes do governo deixariam seus cargos para disputar o pleito.
Entre os emedebistas citados como possíveis opções para a vice estão o ministro dos Transportes, Renan Filho, e o governador do Pará, Helder Barbalho. Renan Filho, porém, já indicou que pretende deixar a Esplanada até o fim de março para disputar o governo de Alagoas – o que reduz, ao menos por ora, sua viabilidade para uma composição nacional.
A discussão sobre um vice do MDB aumenta as incertezas sobre o futuro político de Geraldo Alckmin (PSB), o atual dono da cadeira. Embora Lula rasgue elogios ao ex-tucano, sugeriu que sua permanência na chapa majoritária está xeque ao afirmar que Alckmin terá um “papel a cumprir” nas eleições em São Paulo.
MDB x MDB
Apesar dos movimentos da ala lulista, predomina no MDB a resistência a uma aliança nacional com o PT. Um levantamento interno da legenda sugere que apenas 10 dos 27 diretórios estaduais são favoráveis a uma composição com Lula, restando 17 contrários. A rejeição é mais expressiva em estados como São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Rio de Janeiro, colégios eleitorais decisivos e onde o partido opera mais próximo da centro-direita – e menos dependente da direção nacional.
O racha ficou explícito nos últimos dias com a movimentação do presidente nacional do MDB, Baleia Rossi. Na noite de segunda-feira, 9, ele se reuniu com Tarcísio de Freitas (Republicanos) e fez questão de reforçar publicamente a parceria do partido com o governador paulista, que deve disputar a reeleição.
No governo federal, a leitura é de que a oferta da vice-presidência seria o principal instrumento para tentar unificar o MDB em torno de uma aliança nacional. Aliados, contudo, admitem o risco de derrota em uma eventual convenção partidária, cenário que exporia fragilidades da articulação política do Planalto.
A investida sobre o MDB integra uma estratégia mais ampla de Lula para fortalecer sua base eleitoral e consolidar uma coalizão com legendas do Centrão. Nesse movimento, o presidente também tenta reduzir resistências em outras siglas, como o PP, inclusive por meio de uma reaproximação com adversários declarados em tempos recentes, como o senador Ciro Nogueira (PI).
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