Fora da Faria

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Fora da Faria

O elo perverso entre as recuperações judiciais e o endividamento familiar

Ainda nas alturas, a taxa básica de juros ajuda a explicar o paradoxo de um desemprego baixo convivendo com empresas e famílias financeiramente fragilizadas

O elo perverso entre as recuperações judiciais e o endividamento familiar
O elo perverso entre as recuperações judiciais e o endividamento familiar
Tiro no pé. A política de juros altos costuma ser eficaz em reduzir a inflação, mas não é eficiente pois obtém esse resultado com grandes estragos – Imagem: Roberto Galhardo/Prefeitura de Natal/RN
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A macroeconomia é um tema matreiro. Discutida nos salões da academia e nos relatórios técnicos, muitas vezes se afasta da experiência concreta de quem produz e de quem trabalha. Quando se olha para a escalada das recuperações judiciais e para o avanço do endividamento em paralelo à manutenção da Selic em patamar elevado, essa distância ganha contornos nítidos.

Em valores historicamente altos, a taxa básica de juros ajuda a explicar o paradoxo de um desemprego baixo convivendo com empresas e famílias financeiramente fragilizadas. Dados do Monitor RGF mostram que o país encerrou o 4º trimestre de 2025 com 5.680 empresas em recuperação judicial, alta de 7,5% em relação às 5.285 do trimestre anterior e de 24,3% na comparação anual, o maior estoque desde o início do monitoramento, em 2023. Esse avanço reflete o agravamento do estresse financeiro num ambiente de custo do dinheiro elevado, margens comprimidas e dificuldade para alongar dívidas em condições sustentáveis. O relatório registra ainda que o total de dívidas das empresas que ingressaram em recuperação no 4º trimestre chegou a cerca de 40 bilhões.

O setor produtivo e o de serviços saíram da pandemia de Covid‑19 enfraquecidos, com queda de vendas, aumento de endividamento e problemas de fluxo de caixa, sobretudo entre pequenas e médias empresas. Com a retomada lenta da demanda e a necessidade de refinanciar passivos herdados, a política monetária restritiva passou a incidir sobre um setor privado já fragilizado. Do lado da política monetária, o Banco Central elevou a Selic ao longo de 2025 e levou a taxa básica a 15% ao ano a partir da reunião de junho e mantendo o patamar até agora.

Na outra ponta da economia, o mercado de trabalho exibe uma fotografia bem mais favorável. De acordo com a PNAD Contínua, compilada pelo IBGE, a taxa média anual de desemprego ficou em 5,6% em 2025, o menor nível da série iniciada em 2012, com trimestres encerrando próximos de 5,1%. A massa de rendimento real habitual das famílias alcançou 361,7 bilhões de reais em 2025, também recorde, com alta de 7,5% em relação a 2024 e acréscimo de 5,4 bilhões de reais. A inflação mais controlada e recuperação do emprego em serviços e comércio, ajudaram a amortecer o impacto dos juros elevados sobre a ocupação. Isso ajuda a entender por que o ajuste monetário não se traduziu, até aqui, em disparada do desemprego, apesar da Selic em dois dígitos.

Esse mercado de trabalho robusto convive, porém, com avanço expressivo do endividamento. Estudos indicam que a proporção da renda comprometida com dívidas se aproxima de 30% em vários recortes, patamar semelhante aos recordes de 2023, num contexto em que o crédito segue caro. Segundo dados da Confederação Nacional do Comércio cerca de 80% das famílias declaram ter algum tipo de dívida. O emprego está em alta, mas a folga no orçamento doméstico é pequena: juros elevados em cartão de crédito, cheque especial e financiamentos de bens duráveis tornam o parcelamento mais oneroso, aumentando o peso das prestações e o risco de inadimplência.

A contradição se explicita: o país combina o menor desemprego da série com recorde de empresas em recuperação judicial e famílias mais endividadas. O cenário indica que parte significativa do setor produtivo opera no limite em ambiente de crédito caro. Já as famílias, a massa de rendimentos em alta convive com taxas elevadas, fazendo com que a sustentação do consumo dependa da alavancagem. A Selic está no centro desse arranjo: é o instrumento de controle da inflação num cenário de mercado de trabalho aquecido, mas, ao mesmo tempo, o principal amplificador do custo do endividamento em uma economia marcada por dívida pública e privada indexada à taxa de curto prazo.

A estratégia de combate à inflação não pode ser tratada como um elemento que força a devastação da produção com juros que impedem os investimentos em produtividade. Disputar o mercado global, como todos querem, exige modernização do parque industrial. Com crédito escasso e caro isso não acontece. Nesse campo, a Selic elevada é uma arma contra o futuro. O paradoxo de um mercado de trabalho aquecido com endividamento é a outra face. A política de juros atinge quem produz e quem trabalha formando uma aliança perversa contra a produção, a renda e a expectativa de que seremos capazes de romper com um ciclo de atraso nas políticas que corroem, em última instância, a renda de quem trabalha.

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