Sociedade

Segurança, moradia, saúde são maiores demandas de moradores de favelas

Pesquisa do Data Favela foi feita com 4.471 entrevistados

Segurança, moradia, saúde são maiores demandas de moradores de favelas
Segurança, moradia, saúde são maiores demandas de moradores de favelas
Foto: Roberto Rocco TU Delft/Wikimedia Commons
Apoie Siga-nos no

As favelas brasileiras reúnem uma população majoritariamente jovem, negra, trabalhadora e com projetos concretos de futuro. Por outro lado, vivem com desafios estruturais persistentes em áreas que vão da educação à segurança. Essa é a realidade apresentada na pesquisa Sonhos da Favela, feita pelo Data Favela nas cinco regiões do Brasil, com ênfase no Rio de Janeiro e em São Paulo.

O estudo se baseia em 4.471 entrevistas realizadas com maiores de 18 anos, todos moradores de favela, entre os dias 11 e 16 de dezembro de 2025. O objetivo principal dos organizadores é convidar população e o poder público a conhecer e a enfrentar as negligências que impactam a vida nas favelas.

Dignidade e bem-estar básico estão entre as principais aspirações. Ao projetarem o futuro da família para 2026, o desejo por uma casa melhor lidera os planos (31%), seguido pela busca por uma saúde de qualidade (22%), entrada dos filhos na universidade (12%) e segurança alimentar (10%).

“O Data Favela acredita que mapear pensamentos, experiências e vivências de moradores de favela é, antes de tudo, um ato de reconhecimento e reparação. Favela não é só ‘problema’ ou ‘estatística’. É também espaço onde existe inteligência coletiva, cultura, empreendedorismo, inovação, verdadeiras estratégias para prosperar”, analisa a copresidente do Data Favela Cléo Santana.

“Ouvir quem vive a favela todos os dias muda o centro da narrativa: não se trata apenas de ‘falar sobre’, mas de construir dados com as pessoas, a partir do que elas consideram urgente, possível e necessário. Isso tem impacto direto na forma como políticas públicas são desenhadas, como empresas se relacionam com esses públicos e como a imprensa retrata as periferias”, complementa.

Perfil sociodemográfico

A maior parte dos entrevistados é formada por adultos entre 30 e 49 anos (58%). Jovens de 18 a 29 anos somam 25%, enquanto pessoas com mais de 50 anos correspondem a 17%. Cerca de 60% são mulheres e 75% de todos os entrevistados se identificam como heterossexuais.

Oito em cada dez se identificam como negros (49% se declaram pardos, 33% se declaram pretos). Brancos são 15%.

Sobre graus de escolaridade, 8% têm ensino fundamental completo; 35%, ensino médio completo; 11%, ensino superior completo; e 5%, pós-graduação.

Cerca de 60% ganham até um salário mínimo mensalmente. Na sequência, 27% recebem de R$ 1.521 a R$ 3.040, enquanto 15% do total reúne faixas acima de R$ 3.040.

Três em cada dez afirmaram ter um trabalho com a carteira assinada (ocupados), 34% estão informais (entre aqueles que não possuem a carteira assinada e os que fazem bicos), 17% estão desempregados (desocupados) e 8% estão fora da força de trabalho (entre aposentados e estudantes).

No geral, 56% dos entrevistados afirmam não receber nenhum tipo de benefício do governo, como auxílio gás, aposentadoria ou pensão do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), tarifa social de energia elétrica, seguro-desemprego. Entre os que recebem algum benefício, o mais citado é Bolsa Família/Auxílio Brasil (29%).

Infraestrutura territorial

Em relação à infraestrutura territorial, os moradores foram questionados sobre as principais mudanças que desejariam nos seus territórios em 2026. As respostas mais frequentes foram: saneamento básico (26%), educação (22%), saúde (20%), transporte (13%) e meio ambiente (7%).

Sobre as opções que possuem nas comunidades ligadas à esporte, lazer e cultura, 35% afirmaram ser ruim ou muito ruim, e 32% afirmaram ser regular.

Desafios de raça e gênero

Cerca de 50% dos entrevistadores afirmam que a cor da pele impacta nas oportunidades de trabalho, enquanto 43% dizem que a cor da pele não impacta.

Sete em cada dez afirmam que a violência doméstica/feminicídio é o principal desafio que as mulheres enfrentam dentro da favela, seguido da dificuldade com emprego e renda (43%) e apoio no cuidado com os filhos (37%).

Quando perguntados sobre qual política pública consideram mais urgente para as mulheres, as respostas mais frequentes foram: programas de inserção no mercado de trabalho (62%), campanhas de educação contra o machismo (44%), delegacias e serviços com atendimento 24h (43%) e o cuidado com a saúde da mulher (39%).

Segurança pública

Os moradores das favelas também foram perguntados sobre quais instituições confiam que irão protegê-los contra a violência. As respostas incluem Polícia Militar (27%), Polícia Civil (11%) e facção da minha favela (7%). A opção com mais votos, no entanto, foi “nenhuma delas” (36%).

Quando perguntados sobre a presença da polícia dentro da favela, o silêncio é significativo, segundo os pesquisadores: 24% optaram por não responder, enquanto outros 25% afirmam que a presença não altera a sensação de segurança. Uma parcela de 13% sente medo e insegurança com a presença policial. Por outro lado, 22% se sentem mais seguros com o policiamento no território.

“Um dado simbólico da pesquisa é o que revela que o maior desejo é poder ir e vir com tranquilidade [47%], mostrando dessa forma que o futuro ainda é pensado a partir da sobrevivência e do medo. Pesquisas como essa funcionam como um megafone para ampliar a voz que a favela já tem”, explica a copresidente do Data Favela Cléo Santana.

ENTENDA MAIS SOBRE: , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Depois de anos bicudos, voltamos a um Brasil minimamente normal. Este novo normal, contudo, segue repleto de incertezas. A ameaça bolsonarista persiste e os apetites do mercado e do Congresso continuam a pressionar o governo. Lá fora, o avanço global da extrema-direita e a brutalidade em Gaza e na Ucrânia arriscam implodir os frágeis alicerces da governança mundial.

CartaCapital não tem o apoio de bancos e fundações. Sobrevive, unicamente, da venda de anúncios e projetos e das contribuições de seus leitores. E seu apoio, leitor, é cada vez mais fundamental.

Não deixe a Carta parar. Se você valoriza o bom jornalismo, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal da revista ou contribua com o quanto puder.

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo