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Uma saga decolonial

Leïla Slimani, nascida no Marrocos, faz uma trilogia para recuperar a história de três gerações de sua família

Uma saga decolonial
Uma saga decolonial
Origem. Radicada na França, a escritora foi a primeira marroquina a ganhar o Prêmio Goncourt – Imagem: Francesca Mantovani/Gallimard
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Os dois primeiros romances da franco-marroquina Leïla Slimani, No Jardim do Ogro (2014) e Canção de Ninar (2016), eram livros muito apoiados no efeito de choque. Um conta a história de uma ninfomaníaca e outro de uma babá francesa que mata os filhos de um casal burguês que estavam sob seus cuidados.

Ambos tiveram enorme sucesso. No entanto, a escritora, em seu terceiro e em seu quarto romance, O País dos Outros (2020) e Vejam Como Dançamos (2022), ­recém-lançados no Brasil, saiu de sua zona de conforto literário, deixando o suspense para trilhar outro caminho narrativo.

Nascida em Rabat, em 1981, e primeira marroquina a ganhar o prestigioso Prêmio Goncourt, Leïla, nesses dois livros – que compõem uma trilogia – conta a história de sua família.

Embora parta de episódios reais e tenha feito uma enorme pesquisa sobre seus ancestrais e a história do Marrocos, a autora narra de uma forma que remete muito ao realismo mágico latino-americano. Há nos dois romances ecos de Gabriel García Márquez e, em especial, de Isabel Allende.

O País dos Outros começa com ­Mathilde, jovem nascida na Alsácia – região do nordeste da França, próxima à Alemanha – apaixonada por Amine, soldado marroquino alistado no exército francês e combatente na Segunda Guerra Mundial.

O PAÍS DOS OUTROS. Leïla Slimani. Tradução: Dorothée de Bruchard. Intrínseca (320 págs., 69,90 reais)

Quando o conflito acaba, em 1945, o casal se instala em Meknés, no norte do Marrocos, onde ele trabalhará nas terras herdadas do pai, e ela o ajudará a construir uma família e ainda mais riqueza.

Como costuma acontecer nas sagas familiares, os personagens são muitos – há os que entram e saem rapidamente e os que atravessam quase toda a narrativa – e suas vidas são cheias de altos e baixos. O romance familiar se sustenta, nas mãos de Leïla, sobre a prosa que derrama carinho sobre as figuras retratadas – muitas delas ancestrais da autora.

Vejam Como Dançamos retoma a narrativa a partir da Guerra de Independência do Marrocos, nos anos de 1950. E, embora Mathilde e Amine ainda sejam figuras centrais do romance, são seus filhos, Aïcha e Selim, que ganham importância na trama.

VEJAM COMO DANÇAMOS. Leïla Slimani. Tradução: Dorothée de Bruchard. Intrínseca (320 págs., 69,90 reais)

A segunda geração da família continua a enfrentar dilemas mais ou menos semelhantes aos dos seus descendentes, mas de forma ainda mais complexa. O que está em jogo é, sobretudo, o conflito entre a alma europeia e a realidade marroquina. O que Leïla aborda, seguindo um tema caro à literatura contemporânea, é algo próximo a uma dialética decolonial.

Aïcha é uma jovem dedicada que se muda para a capital da Alsácia, Estrasburgo, para estudar Medicina. Lá ela conhecerá um jovem apelidado de Karl Marx, que a fará ver como sempre viveu uma vida de privilégios e de exploração do trabalho dos outros.

Selim, por sua vez, pouco se importa com seu futuro ou com suas origens, e suas­ escolhas levam ainda mais tensões à família. Tudo isso tem como pano de fundo a conturbada realidade política do país – marcado por uma abissal diferença entre classes – e, como eixo narrativo, as personagens femininas.

O volume final da trilogia, lançado na França há pouco tempo, J’emporterai le Feu (Eu Levarei o Fogo, em tradução livre), acompanha a terceira geração. As novas protagonistas, Mia e Inès, nasceram na década de 1980, como a própria autora. O livro deverá ser lançado no Brasil no segundo semestre deste ano. •


VITRINE

Por Ana Paula Sousa


Lançado em 1979, A Greve dos Mendigos (Bazar do Tempo, 136 págs., 70 reais) chega agora ao Brasil, refletindo o crescente interesse pela literatura africana. No romance, a senegalesa Aminata Sow Fall satiriza as políticas higienistas e a hipocrisia presente na relação da elite com os pobres.


Em Recapitulações (Editora 34, 88 ­págs., 70 reais), Maria Valéria Rezende ­extrai de textos clássicos a matéria-prima para suas invenções. Os 12 contos reunidos no volume recriam, de forma lapidar, personagens de Kafka, Machado de Assis e até do cineasta Michelangelo Antonioni.


David Remnick apresenta, em Sustentar a Nota (Companhia das Letras, 336 págs., 109,90 reais), ensaios sobre 11 artistas – Leonard Cohen, Bruce Springsteen e Patti Smith entre eles – que, com o passar dos anos, têm de aprender a lidar com os limites que a idade impõe à voz e à performance.

Publicado na edição n° 1399 de CartaCapital, em 11 de fevereiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Uma saga decolonial’

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