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Como chegar ao público?

Em 2025, 203 filmes brasileiros estrearam nas salas. Dentre eles, apenas 40 venderam mais de 10 mil ingressos

Como chegar ao público?
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Anistia 79 foi um dos 300 longas inscritos na 29ª Mostra de Tiradentes – Imagem: Mostra de Cinema de Tiradentes
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No debate de abertura do 4º Fórum Tiradentes, realizado durante a 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, Tatiana Carvalho Costa, pesquisadora e presidente da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (Apan), apresentou um dado significativo: houve 1,5 mil curtas-metragens brasileiros inscritos no evento.

Após informar que muitos desses filmes foram feitos a partir de recursos da Lei Paulo Gustavo – executada em 97% dos municípios –, Tatiana frisou: “Esta Mostra seleciona 10% disso. Ou seja, a política pública gerou um problema para a própria política pública”. Tal problema acabou por ser o eixo central das discussões realizadas ao longo de cinco dias na cidade histórica mineira.

Na Carta de Tiradentes, divulgada na quarta-feira 28, um grupo formado por 70 profissionais definiu o aumento do público dos filmes feitos no País como uma das prioridades do setor. Lê-se, no texto, que é preciso “investir em um programa de comunicação contínua voltado a aumentar o reconhecimento do cinema brasileiro como diverso e instigante (…) e despertar, tanto nas plateias adultas quanto nas infantis e juvenis, o desejo de ver obras nacionais”.

Na mesma semana do Fórum, a Agência Nacional de Cinema (Ancine) publicou um relatório de gestão, no qual informa que, em 2025, desembolsou 1,41 bilhão de reais em recursos, “o maior volume contabilizado na série histórica”. Há, no momento, 1,5 mil projetos em execução na agência.

Em 2025, 203 longas-metragens brasileiros foram lançados nos cinemas. Juntos, esses títulos responderam por 5,2% do total de ingressos vendidos. A participação de mercado do cinema nacional chegou, no entanto, a 10,3%, graças a duas estreias do fim de 2024 que viraram o ano em cartaz: Ainda Estou Aqui e O Auto da Compadecida 2.

O resultado é uma vitória quando se leva em conta que, entre 2021 e 2023, o market share ficou entre 1,4% e 3,3% – nesses anos, não vigorou a Cota de Tela, que garante a exibição de um número mínimo de filmes brasileiros. O cenário é, porém, menos alentador quando se considera o volume de obras financiadas.

Das 203 estreias, apenas 40 tiveram mais de dez mil espectadores. E só duas, O Agente Secreto e Chico Bento e a Goiabieira Maraviosa, fizeram 1 milhão de ingressos. Para se ter uma dimensão do tamanho do domínio hollywoodiano, o blockbuster Lilo & Stitch ultrapassou a casa dos 10 milhões de espectadores.

E há, ainda, os filmes que sequer chegam a estrear de fato, tendo apenas o chamado “lançamento técnico”, destinado a cumprir uma exigência do financiamento público. Há, na lista de lançamentos de 2025, um longa-metragem que fez oito e outro, nove espectadores.

Francis Vogner dos Reis, curador da Mostra de Tiradentes, historicamente voltada a produções de orçamento limitado e exercício de linguagem, contou, no mesmo debate do qual Tatiana participou, que, este ano, foram quase 300 os longas-metragens inscritos. “E isso é um recorte”, pontuou. “Para alguns filmes, você dá visibilidade pública. Mas muitos dos que não foram escolhidos nunca virão à luz.”

O Brasil é hoje o maior mercado de cinema da América Latina e alcançou, nos últimos dois anos, uma visibilidade inédita no maior evento cinematográfico mundial: o Oscar. Ainda Estou Aqui, de ­Walter Salles, e O Agente Secreto, de ­Kleber ­Mendonça Filho, são dois trabalhos que se encaixam à perfeição na definição de cinema de autor e que, ao mesmo tempo, se tornaram campeões de bilheteria.

Se, na sociedade, tais conquistas tendem a ser percebidas como um grande momento do cinema brasileiro, no meio audiovisual ouve-se, reiteradas vezes, que elas são mais exceção do que tendência. Em uma mesa sobre internacionalização, Rodrigo Teixeira, produtor de Ainda Estou Aqui e também de obras estrangeiras, afirmou ver os dois filmes como casos isolados.

“Muitos dos filmes que não foram escolhidos pela Mostra nunca virão à luz”, diz curador

“Não vejo o cinema brasileiro, nos próximos dois ou três anos, voltando para o Oscar”, disse. “Esses dois diretores têm o peso da bandeira de um país. São artistas autorais consagrados no mundo inteiro. Vai existir interesse do cinema brasileiro? Vai. Mas temos filmes para Cannes, para Veneza? Acho que não.”

Teixeira lembrou que, em 2019, o Brasil viveu outro bom momento internacional, com títulos premiados, como Bacurau e A Vida Invisível, mas teve o ciclo interrompido pela desconstrução iniciada no governo Temer e aprofundada nos anos Bolsonaro. A recuperação, segundo ele, não teria como ser total em quatro anos.

Mas é fato que a estrutura institucional foi recomposta e os filmes voltaram a ser concluídos – houve, inclusive, 124 coproduções internacionais entre 2023 e 2025. A questão latente é que a existência dessas obras, como se ouviu à exaustão em Tiradentes, só se completa na relação com o público. E quem as vê? E como?

Muito também se falou no Fórum sobre necessidade de se contabilizar a plateia de festivais e espaços alternativos. Isso tudo sem mencionar, é claro, a urgência de uma legislação que incorpore o streaming ao arcabouço da política pública, garantindo que a produção possa ir também para onde parte do público foi. •


*A jornalista integrou o Fórum de Tiradentes, na coordenação do GT de Exibição/Difusão, a convite da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

Publicado na edição n° 1399 de CartaCapital, em 11 de fevereiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Como chegar ao público?’

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