Política
Vermelho e amarelo
Criado para desafiar a ditadura, o Eu Acho É Pouco mantém-se fiel à defesa da democracia e da igualdade
O Sítio Histórico de Olinda foi tomado por um mar de gente no domingo 1º. As ladeiras e ruas estreitas da Cidade Alta pareceram pequenas diante de milhares de foliões vestidos de vermelho e amarelo que, ao som de duas orquestras de frevo, seguiam eufóricos atrás do dragão do bloco Eu Acho É Pouco. E isso foi apenas um ensaio aberto, uma prévia do que virá no Sábado de Zé Pereira (14 de fevereiro) e na terça-feira de carnaval (17), quando ocorrem os desfiles oficiais da tradicional agremiação.
Considerado um dos principais blocos de Pernambuco e homenageado em canções de artistas como Alceu Valença, o Eu Acho É Pouco extrapola as habituais funções de um clube momesco: carrega uma identidade político-ideológica que vem desde a sua fundação, em 1977, na resistência à ditadura.
Tudo começou quando um grupo de amigos, em sua maioria de esquerda, decidiu criar seu próprio bloco de carnaval. O objetivo era usar os desfiles para desafiar o regime militar, com críticas refletidas nas fantasias e nos temas escolhidos para cada edição. “Na ditadura, o carnaval era um dos poucos momentos em que se podia extravasar sem ser perseguido, um espaço de mínima liberdade. Essas raízes permaneceram ao longo dos anos. O Eu Acho É Pouco hoje reflete exatamente aquilo que foi na sua origem”, explica Guilherme Calheiros, dirigente da nova geração do bloco e filho de Ivaldevan e Sônia Calheiros, dois dos fundadores da agremiação.
O traço político manteve-se ao longo de quase meio século, tornando o Eu Acho É Pouco talvez o principal bloco de esquerda em atividade no País. O grupo não se limita à folia: participa de manifestações de rua com pautas progressistas, como a defesa da democracia e dos direitos humanos.
Em outros carnavais, a agremiação levantou a bandeira das Diretas Já!, satirizou os desastrosos planos econômicos de Sarney e Collor, denunciou o feminicídio, o golpe de 2016 e a intentona bolsonarista de 2023. “O Eu Acho É Pouco tem um espírito diferente dos demais. Os temas sempre foram baseados em pautas políticas e sociais, vivenciadas pelo Brasil naquele momento, o que nos tornou um bloco combativo. O fato de quase todos os fundadores serem de esquerda ajudou a manter a nossa luta”, observa Sônia.
Ivaldevan Calheiros lembra que, mesmo com um viés ideológico claro, o bloco nunca foi atrelado a um partido político específico, tampouco recebeu subvenções públicas. “Éramos um grupo de contestação, formado por profissionais liberais e militantes de várias legendas de esquerda que defendiam o fim da ditadura. O bloco era um espaço de denúncias e ironia.”
Chamados de “nação vermelha-e-amarela”, os seguidores do Eu Acho É Pouco disputam, em todos os desfiles, a proteção do dragão, mascote do bloco, que arrasta multidões por onde passa e chegou a estar presente na posse do presidente Lula, em 2023. “Esse dragão tem muita história. Várias pessoas começaram a namorar ou se casaram debaixo dele. Diz a lenda que fazíamos reuniões contra a ditadura dentro do dragão, para nos proteger da repressão. Por isso, ele virou uma marca forte do bloco: é orgânico, dá um visual incrível nos desfiles e tornou-se símbolo de resistência”, diz Sônia.
Recentemente, o bloco uniu-se aos protestos contra a anistia aos golpistas do 8 de Janeiro
A jornalista Verônica Violeta Pragana já perdeu a conta de quantos anos acompanha o bloco. Não perde um desfile e, no domingo 1º, esteve novamente nas ladeiras de Olinda. “O Eu Acho É Pouco é um espaço de expressão da crítica social, mantendo aceso o posicionamento político também nas manifestações de rua. É onde nos encontramos para contestar injustiças sociais. Mas também é um lugar de afeto, de encontros, alegria e folia contagiante”, afirma. Após o fim da ditadura, o bloco voltou-se mais para temas carnavalescos, mas nunca abandonou a sátira política.
“Quando a história exigiu um posicionamento político, como no impeachment de Dilma Rousseff, retomamos com força a nossa agenda e ocupamos as ruas. Sentíamos que precisávamos resgatar as nossas origens e defender a presidenta”, lembra a designer Luciana Calheiros, filha do casal fundador do bloco. “Naquele momento, nosso posicionamento chocou quem não conhecia a nossa história. Teve gente que dizia que ia queimar todas as camisas do bloco. Dilma estava desacreditada, vítima de uma narrativa da mídia, e não podíamos ficar em silêncio. O bloco sempre foi político, isso está no nosso DNA”, acrescenta Luciana, para quem a escolha valeu a pena.
“Ficamos muito felizes ao ver, em manifestações de rua, várias pessoas com a nossa camisa. Isso mostra a história que o bloco construiu ao se posicionar politicamente. Hoje, o Eu Acho É Pouco é um símbolo de resistência”, diz Luciana. “O carnaval também é político, um espaço de protesto. É onde as pessoas denunciam a dura realidade que vivem, defendem suas convicções. Por isso, o bloco não abre mão de suas origens nem vai deixar de fazer o que acredita ser correto”, completa Calheiros. •
Publicado na edição n° 1399 de CartaCapital, em 11 de fevereiro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Vermelho e amarelo’
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