Economia
Perda de apetite
A popularização das canetas emagrecedoras muda hábitos de consumo e impõe desafios ao varejo
Dezembro de 2025 frustrou as expectativas dos supermercados e foi o pior mês do ano para o varejo alimentar no Brasil. Tradicionalmente impulsionado pelas festas de fim de ano e pela injeção do 13º salário, o período contrariou o padrão histórico e registrou retração de 5,5% nas vendas em relação a dezembro de 2024, mesmo com a desaceleração da inflação de alimentos ao longo do segundo semestre. Os dados são da Scanntech.
As razões para o decepcionante resultado são diversas. O endividamento elevado das famílias segue comprimindo o consumo, mas mudanças de comportamento começam a ganhar peso nas estatísticas. Entre os consumidores de menor renda, apostas e cassinos online já absorvem até 17% do orçamento destinado às compras. Na outra ponta, ainda de forma incipiente, surge outro fator, já observado com mais clareza nos Estados Unidos, o avanço do uso de medicamentos à base de GLP-1.
A popularização das canetas emagrecedoras – Ozempic, Wegovy e Mounjaro – passou a produzir efeitos mensuráveis no consumo. Os sinais aparecem nos dados do varejo alimentar na forma de redução no consumo de bebidas alcoólicas, refeições menores, mais sobras nos pratos e alterações no ticket médio de bares e restaurantes, antecipando ajustes que o setor começa a enfrentar no Brasil.
Nos EUA, onde o uso dos análogos de GLP-1 ganhou escala antes, o movimento já foi capturado por painéis de compra, redes de restaurantes e operadores de foodservice. A mudança de comportamento não se apresenta na forma de ruptura: é gradual, com menos volume por refeição e maior seletividade. O consumo social segue existindo, mas com outro desenho.
Um trabalho conduzido por pesquisadores da Cornell University, com base em painéis da Numerator, que acompanham perto de 150 mil domicílios nos EUA, mostrou que lares com usuários de GLP-1 reduziram, em média, 5,3% os gastos com supermercado nos primeiros seis meses de tratamento. Entre famílias de maior renda, a queda superou 8%. No consumo fora do lar, os gastos com restaurantes fast-food recuaram em torno de 8%, enquanto as vendas de alimentos indulgentes, como salgadinhos e doces, registraram reduções próximas de 10%.
Esses números ajudam a explicar por que o tema ganhou tanto destaque em eventos como a NRF, o maior do setor varejista do mundo, onde executivos reunidos em Nova York passaram a tratar o GLP-1 menos como curiosidade e mais como variável operacional. Eles fizeram três alertas principais: o desperdício surge antes da queda no faturamento; quem demora a ajustar as porções perde margem; e analisar os dados cedo faz diferença.
No Brasil, o impacto ainda é menos visível, pois o uso de canetas emagrecedoras permanece concentrado nas classes A e B, devido ao elevado custo dos tratamentos. Pesquisas da consultoria Galunion indicam que 40% dos consumidores da classe A afirmam usar, já ter usado ou pretender usar esses medicamentos. Entre esses consumidores, 62% relatam uma redução significativa do apetite, 55% mencionam menor desejo por doces, frituras e bebidas alcoólicas, e 42% dizem ter incluído alimentos mais saudáveis na dieta.
Pesquisas apontam redução no consumo de doces, salgadinhos e bebidas alcoólicas. As refeições tendem a ficar menores
Esse quadro, no entanto, tende a ser ampliado. Em 20 de março, vence a patente da semaglutida, o princípio ativo do Ozempic e do Wegovy, abrindo espaço para a entrada de versões genéricas produzidas por diferentes farmacêuticas, tanto na versão de injeção quanto em comprimidos. A expectativa do setor é de queda relevante de preço e ampliação do acesso, criando escala e tornando o efeito mais nítido nos dados de consumo. Hoje, a influência do GLP-1 ainda aparece de forma difusa, e ficará mais visível.
Leituras baseadas no comportamento real de compra mostram que o impacto não depende somente de uma mudança consciente de hábitos. Dados da Varejo 360, que acompanha consumo a partir de cupons fiscais compartilhados por consumidores, indicam quedas consistentes no consumo de bebidas alcoólicas entre usuários das canetas emagrecedoras. “A queda no consumo de bebidas alcoólicas é um dos sinais mais consistentes. Em algumas categorias, como cerveja, o efeito aparece com quedas de até 35%”, afirmou Fernando Faro, CEO da consultoria.
O efeito econômico não se distribui, porém, de forma homogênea. Parte dos consumidores ajusta hábitos e escolhas. Outra parte mantém padrões anteriores, apenas com menor apetite. Ainda assim, o resultado agregado aponta para menos comida por refeição e menor consumo de itens de maior volume. Em um setor que opera com margens apertadas, essa combinação pressiona os resultados de forma silenciosa.
Adaptação. “Não rever o cardápio pode corroer os resultados”, alerta Galante – Imagem: Victória Bortolato
A Galunion trata o fenômeno do GLP-1 como uma variável estrutural e desenvolveu um modelo de impacto macro para o foodservice brasileiro. A conta considera a penetração das canetas nas classes A e B, o peso dessas classes no faturamento do setor, a redução média de gasto por usuário, o ajuste de ticket nos perfis de maior renda e a capacidade de mitigação por meio de mix de produtos e do porcionamento.
Com penetração estimada entre 8% e 12% nas classes A e B e redução média de consumo entre 15% e 30%, o impacto líquido no faturamento do setor pode chegar a 1% por ano. “O GLP-1 não vai quebrar o setor. O risco está para quem não se adaptar. Quem trabalha com margem estreita deve perder volume sem perceber e ter desperdício no prato. Não rever o cardápio pode corroer os resultados”, resume Simone Galante, CEO da Galunion.
Nos EUA, essa adaptação já começou a aparecer com redes de fast-food, que registraram uma leve queda de frequência, compensada, por enquanto, pelo aumento do preço dos itens. Restaurantes revisaram tamanhos de pratos, cartas de bebidas e sequências de consumo. O efeito observado não foi a redução da vida social, mas a reorganização da experiência: menos pedidos, mais seletividade e maior atenção ao valor percebido.
O impacto do GLP-1 também transborda para outros segmentos. No varejo de moda, ajustes na demanda por tamanhos e ciclos de renovação do guarda-roupa já aparecem em mercados mais maduros. A tendência vista nos EUA é a redução do plus size. Segundo um dado da Gartner, quem perde peso tende a gastar 30% a mais com roupas novas. O GLP-1, portanto, não vai causar um colapso do varejo, mas está expondo, com dados, a fragilidade de modelos que dependem de volume, desperdício e pouca flexibilidade. •
Publicado na edição n° 1399 de CartaCapital, em 11 de fevereiro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Perda de apetite’
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