Mundo
The Nerd Reich
Restaurar os anos de glória do Reich alemão é um projeto atual sob o comando das big techs
Vamos caminhar de Munique a Washington, da Baviera à Califórnia. Nessa caminhada histórica, transitamos entre discursos inflamados nas tavernas de Munique e os laboratórios e data centers do Vale do Silício.
Assim, lançamos também nossos olhares na transição entre as tropas de assalto da SS e o capitalismo de vigilância, comandado por dados, tecnologia, Inteligência Artificial e, lógico, muito dinheiro. São os libertários do monopólio: a liberdade individual exprime-se nas redes controladas por outras redes.
No livro Wall Street and the Rise of Hitler, Antony Cyril Sutton afirma que a contribuição do capitalismo norte-americano para os preparativos de guerra alemães antes de 1940 só pode ser descrita como fenomenal. “As evidências sugerem que não apenas um setor influente dos negócios norte-americanos estava ciente da natureza do nazismo, mas, para seus próprios fins, ajudou o nazismo sempre que possível (e foi lucrativo) – com plena consciência de que o resultado provável seria uma guerra envolvendo a Europa e os Estados Unidos”.
Os discursos da Era Trump contra a regulação dos governos são usados como figura de linguagem para fazer exatamente o contrário: abocanhar o poder do Estado para submeter corpos e almas de cidadãos e cidadãs.
A tropa de assalto nazista servia para liderar ataques e penetrar defesas inimigas em nome do orgulho da pátria. A tropa de assalto do Vale do Silício também lidera ataques e penetra nas vidas de todos por meio do uso de bancos de dados, em nome da liberdade individual e da soberania da informação.
“Às vezes, terceirizamos nossa inteligência para os varejos de informações, que oferecem cem destilações mais rápidas, simples e digeríveis, que nos poupam de pensar sobre nós mesmos” (Maryanne Wolf, O Cérebro no Mundo Digital).
As tropas de assalto nazistas foram formadas pela ralé da baixa classe média alemã, de pequenos comerciantes, e as do Vale do Silício, pelos nerds dos algoritmos. O objetivo de um, assim como do outro, é o mesmo: comandar o mundo, mas de forma diferente.
Na Alemanha de Hitler, predominaram a violência e a anexação de territórios. No país do MAGA, a violência e o controle são exercidos pelo domínio dos dados e da Inteligência Artificial. Restaurar os anos de glória do Reich alemão está sendo realizado hoje pelo comando das big techs, não apenas com dados e informações, mas também com o controle das mentes.
Os nerds conquistaram Washington por dentro, não só com Donald Trump, mas também com J.D. Vance.
Na Alemanha nazista, Adolf e Goebbels empenhavam-se na propaganda manipuladora das massas. Agora Peter Thiel e Curtis Yarvis, ex-nerds progressistas da Califórnia nos anos 90, comandam a manipulação das massas. Os métodos são diferentes, mas semelhantes em seus propósitos. No III Reich, a meta era destruir o Estado por dentro, no Reich das big techs, trata-se de tomar conta do Estado. O III Reich mobilizava sua polícia secreta, a Gestapo (Geheime Staatspolizei), e apontava sua truculência contra os inimigos do Estado alemão. As big techs entram no seu celular, na sua conta bancária, na sua televisão, no seu carro, na sua geladeira e no seu pensamento. Usa os dados e informações e os vende. A Gestapo artificial é muito mais eficiente e não menos truculenta contra os “cidadãos inimigos”, aqueles que resistem ao cancelamento, às fake news e aos trolls.
A Gestapo invadia sua casa, a Inteligência Artificial invade seu cérebro.
Hannah Arendt abordou, nas Origens do Totalitarismo, as transformações sociais e políticas na era da sociedade de massa capitalista. A economia dos monopólios substituiu a empresa individual pela coletivização da propriedade privada, ao mesmo tempo que promovia a “individualização do trabalho”, engendrada pelas novas modalidades tecnológicas e organizacionais da grande empresa.
A operação impessoal das forças econômicas produziu, em simultâneo, o declínio do homem público e a ascensão do homem massa, cuja principal característica não é (somente) a brutalidade e a rudeza, mas o seu isolamento e sua falta de relações sociais normais.
“A força tornou-se a essência da ação política e o centro do pensamento político, quando se separou da comunidade política à qual devia servir. É verdade que isso foi provocado por um fator econômico” (Hannah Arendt, Origens do Totalitarismo).
Evgeny Morozov, no grande livro Big Tech – A Ascensão dos Dados e a Morte da Política, ensina que esse sistema emergente (liberal capitalista?) é “também neofeudal, com as grandes empresas de tecnologia desempenhando o papel de novos senhores que controlam quase todos os aspectos de nossa existência e definem os termos do debate político e social mais abrangente”.
A Gestapo invadia casas, a Inteligência Artificial invade o celular, a conta bancária e seu cérebro
Paulina Borsook, no fim dos anos 1990, escreveu um livro intitulado Cyberselfish. A autora cuida das sementes que brotaram no discurso e na prática do Vale do Silício. Segundo ela, o entusiasmo financeiro transformou uma comunidade, antes sóbria, civicamente consciente e igualitária, em algo tóxico.
No começo dos anos 2000, Paulina fez outro alerta: o Vale do Silício odeia governos, regras e regulamentos. Acredita que, se você é rico, também é inteligente. Pensa que as pessoas deveriam ser programadas como computadores. O “tecnolibertarianismo” não tinha tempo para as realidades confusas de ser humano.
As nuvens de dados do capitalismo de vigilância administram seus interesses sempre acompanhadas da repressão e da violência real. As tropas de assalto nazistas são antecessoras da milícia paramilitar infiltrada no ICE (U.S. Immigration and Customs Enforcement).
A mulher assassinada em Minneapolis foi morta sem cometer crime algum. Citamos aqui o diálogo entre o agente e Renée Good, de 37 anos: “Eu não estou brava com você”. Retrucou o agente do ICE: “Vagabunda”. Essa foi a última palavra do agente antes de atirar para matar.
Os Founding Fathers (Pais Fundadores) George Washington, Thomas Jefferson, Benjamin Franklin, John Adams, James Madison e Alexander Hamilton estão revirando no túmulo e psicografando a trajetória dos Estados Unidos da Revolução Norte-Americana ao Nerd Reich. •
Publicado na edição n° 1399 de CartaCapital, em 11 de fevereiro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘The Nerd Reich’
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